A obra internacionalista de Gontran Guanaes Netto

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Num certo dia do mês de junho passado nosso companheiro de redação, José Carlos Cordeiro, apreciando o maravilhoso painel na estação Marechal Deodoro do metrô de São Paulo, vislumbrou no meio daquela massa, de feições características do povo, rostos por demais conhecidos do proletariado brasileiro. Estavam lá, misturados entre os rostos, Pedro Pomar, Prestes, Marighela e outros. Cordeiro ficou intrigado com aquilo e buscou um funcionário do metrô para pedir informações sobre o autor de tão significativa homenagem.

Não foi difícil encontrar as informações que indicaram o pintor, sua moradia em Itapecirica da Serra e o seu telefone.

Já no início de agosto, Gontran participava das inaugurações da sucursal do AND de São Paulo e da nova sede do jornal no Rio de Janeiro, para a qual doou um belíssimo painel em quatro partes, instalado no auditório.

Esta participação de Gontran Guanaes Netto foi resultado da visita que lhe foi feita pela equipe do AND de São Paulo em sua residência, que é também o seu ateliê. Gontran nos recebeu com uma simpatia e uma   hospitalidade digna de velhos amigos e logo emendamos uma conversa que não parou nem quando ele resolveu preparar uma macarronada para o nosso almoço.

Ao contemplarmos   suas telas e painéis nos chamou a atenção o fato de que elas não eram assinadas. É que Gontran é defensor do anonimato e esta posição ele assumiu até na entrevista, na qual preferiu falar do contexto político no qual surgiu a inspiração para cada obra sua. Foi em um DVD elaborado por um sobrinho que obtivemos algumas informações sobre sua vida.

A luta contra o regime militar

Nasceu em 1933, na cidade de Vera Cruz -SP

Em 1951 chega a São Paulo e em 1952 ingressa no curso de belas artes mas foi expulso por participar de um movimento em prol do petróleo, ficando apenas   um ano na faculdade.

Participante da luta contra o regime militar fascista que se abateu sobre o país, Gontran é preso no final da década de 1960 e, ao sair da prisão, exila-se em Paris e lá dá continuidade à luta através de comitês de denúncia sobre a prática de tortura pelos militares e contra a opressão sobre o povo brasileiro. É de Gontran o desenho de uma sessão de tortura estampado em camisetas que denunciam sete anos de gerenciamento militar. Estas camisas eram vendidas para fazer fundos para o movimento na França.

Mas, foi com a temática dos bóias-frias, os chamados filhos da terra, que Gontran granjeou o respeito e a admiração do público europeu, sendo considerado pelo meio cultural não oficial um dos principais representantes da pintura brasileira no exterior.

Morou em Paris por mais de 20 anos, onde foi professor de história da arte e gravura na Universidade de Paris e sempre fazendo uma pintura engajada, não só contra a opressão e o sofrimento da população brasileira mas em relação aos povos oprimidos no mundo inteiro. Em 1980 foi responsável pela fundação do Espaço Latino Americano, juntamente com outros artistas, inclusive Frida Kahlo. Participando do movimento Marxistas do mundo contra o apartheid que resultou da fundação do Museu contra o Apartheid, após a realização de uma   exposição itinerante que percorreu toda a Europa. Em 1994 expõe no Congresso Mundial da Paz com o arquiteto Paulo Bastos. Participou, ainda, da fundação do museu Salvador Allende.

Regressando ao Brasil, participou de várias exposições coletivas e individuais no Brasil e no exterior. Leciona desde que participou do 4º salão de arte moderna em SP. Também foi professor da FAAP (Faculdade Armando Álvares Penteado). Em São Paulo tem painéis nas estações Marechal Deodoro e Corinthians-Itaquera do metrô. Essas obras também podem ser consultadas pela internet.

Recentemente desenvolve o projeto da Escola Aberta de Pintura, na Fundação Universidade de Santo André, na qual, resgatando a importância histórica do 1º de maio, jovens da faculdade de filosofia pintaram o quadro Enforcados de Chicago na casa da memória.

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