Às vésperas dos 15 anos da heroica resistência

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A Santa Elina é retomada pelos camponeses!

Na manhã do dia 25 de julho último, camponeses sobreviventes e familiares remanescentes da heroica resistência de Corumbiara retomaram as terras da fazenda Santa Elina.

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PM em campo de torturas na fazenda Santa Elina, 1995:
retrato da política do velho Estado de criminalização e matança de pobres

No dia 9 de agosto completam 15 anos da resistência de Corumbiara, a batalha de 600 famílias camponesas pelas terras do latifúndio Santa Elina, em Corumbiara, Rondônia.

Em sua peleja histórica, após a luta de 9 de agosto de 1995, os camponeses de Corumbiara, enfrentando bandos de pistoleiros a mando do latifúndio e a perseguição do velho Estado já retomaram e tiveram que se retirar por diversas vezes das terras da Santa Elina. Pela primeira vez, em 11 de maio de 2007 as famílias, já organizadas pelo Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina - Codevise, tomaram e resistiram a sucessivas investidas de policiais e pistoleiros até que em 22 de julho, policiais militares dos municípios de Vilhena, Colorado, Cerejeiras, Pimenteiras, Corumbiara, Chupinguaia e Cabixi, cumprindo as ordens do latifúndio despejaram as famílias da terra.

Em 5 de Agosto de 2008, às vésperas de se completarem 13 anos da resistência, os camponeses retomaram uma parte da fazenda Santa Elina e dessa vez permaneceram na terra iniciando a produção. Pela segunda vez, tiveram de sair das terras devido às constantes perseguições e cerco das forças de repressão do velho Estado.

Em 25 de julho último, sem esperar mais promessas vãs do gerenciamento oportunista do velho Estado, as famílias remanescentes da resistência de Corumbiara retomaram as terras pelas quais derramaram seu sangue.

Um comunicado do Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina anunciou:

"Nós, vítimas do massacre em Santa Elina, juntamente com nossos filhos, parentes e outros camponeses sem terra retomamos a Fazenda Santa Elina. Estamos decididos a cortar e permanecer nessas terras custe o que custar.

Pedimos apoio aos trabalhadores, aos comerciantes e demais pessoas honestas e democráticas para fortalecer nossa luta e desenvolver a região.

Chamamos você que sempre trabalhou nas terras dos outros e ainda não conseguiu seu lote, você que trabalha na cidade e passa dificuldades para sustentar sua família, você que está desempregado, você mãe solteira que passa dificuldades e cuida sozinha de seus filhos, você que está cansado de esperar terra pelo Incra, você jovem que não arruma trabalho, venham todos, juntem-se a nós. Chegou a hora de resolvermos todos os nossos problemas, ter terras, trabalho e viver com dignidade!

Junte suas ferramentas de trabalho, lona e alimentos! A terra é boa, produtiva e grande! A fazenda Santa Elina finalmente pertence ao povo!".

Marco histórico da luta camponesa

A resistência camponesa de Corumbiara foi um ponto de ruptura decisivo no seio do movimento camponês brasileiro quando a direção do MST havia abandonado a posição de resistência ativa frente às ordens judiciais de despejos.

No Sul de Rondônia, onde estão as melhores terras da região, imperava a lei dos latifundiários grileiros de terra e criadores de gado. A história da região já estava marcada pela violência e matanças de índios e de camponeses pobres vindos de todas partes do país. Era grande o desafio para a luta dos camponeses pela terra, era preciso enfrentar a sanha dos latifundiários. Por isso mesmo a resistência marcou um ponto de viragem na luta pela terra quando centenas de famílias camponesas decidiram tomála, resistir e defendê- la por todos os meios e formas.

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Assembleia na 3a retomada de Santa Elina, agosto de 2008

Na madrugada de 9 de agosto de 1995, nas terras da fazenda Santa Elina, no município de Corumbiara (extremo Sul de Rondônia), os camponeses decidiram enfrentar o aparato de guerra montado pelos latifundiários e o então governador do estado e atual senador do PMDB Valdir Raupp. Foi o latifundiário Antenor Duarte do Valle, já famoso naquela altura pelas ações brutais de pistolagem, de eliminação de camponeses e promoção de chacinas de populações indígenas, quem coordenou dezenas de pistoleiros numa ação conjunta com contingentes do Comando de Operações Especiais da Polícia Militar daquele estado. Numa verdadeira operação de guerra planificada para realizar um massacre, o acampamento com milhares de pessoas, entre as quais crianças, mulheres grávidas e idosos, foi atacado com bombas de gás e o fogo cerrado de armas de grosso calibre.

O ataque se iniciou nas primeiras horas da madrugada do dia 9 de agosto de 1995. Os camponeses valentemente contiveram a pesada e sanguinária investida da força de policiais e pistoleiros com foices, pedras, paus e suas espingardas de caça. Protegeram a retirada de centenas de pessoas e defenderam com fúria, palmo a palmo, a terra conquistada. Os combates atravessaram a madrugada e só com os primeiros clarões do dia, quando as munições e recursos de defesa dos camponeses haviam se exaurido, é que a horda assassina conseguiu adentrar ao acampamento, promovendo todo tipo de barbaridade contra o povo pobre.

Na investida as mulheres e crianças iam sendo agarradas pelos policiais que as usavam como escudos frente a resistência que seguia servindo-se de paus, pedras e foices.

As hostes do latifúndio não pretendiam apenas expulsar as famílias, eles planejaram um banho de sangue para dar lição, espalhando terror sobre os camponeses sem terra por todo país. O massacre só não foi maior devido à organização e à forte resistência dos camponeses.

Após horas de heroica resistência, a ação genocida do latifúndio resultou em 11 camponeses assassinados (esse é apenas o número oficial, os camponeses denunciam números muito superiores). Entre os mortos, a pequena Vanessa, de 7 anos , executada com um tiro pelas costas.

Após dominarem e manietarem os homens, a polícia montou um verdadeiro campo de concentração antecipadamente preparado num campinho de futebol nas redondezas, onde durante todo o dia 10 praticou todo tipo de abuso, torturas e selvagerias contra os prisioneiros.

Vanessa tornou-se um símbolo da resistência de Santa Elina. Além da matança, foram contabilizados 7 desaparecidos, mais de 200 camponeses com graves sequelas físicas e psicológicas que perduram até os dias de hoje, muitos deles com projéteis alojados no corpo. Outros faleceram com o passar do tempo em decorrência de doenças causadas pelos espancamentos e torturas, muitos ficaram definitivamente incapacitados para o trabalho, principalmente no campo.

Nenhum dos criminosos responsáveis pela matança de camponeses foi punido. Os comandantes da PM José Hélio Cysneiro Pachá, Mauro Ronaldo Flores Correia e Vitório Regis Mena Mendes, executores das ordens do Estado e do latifúndio, além de permanecerem impunes, foram promovidos.

A Corte Interamericana de Justiça da OEA - Organização dos Estados Americanos, decidiu que o Estado brasileiro deve pagar as indenizações às famílias. Até hoje, nenhuma indenização foi paga.

Os sobreviventes e famílias remanescentes daquela luta permanecem organizados pelo Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina — Codevise, lutando pela punição dos assassinos e torturadores; pelo direito a indenização para as famílias de Santa Elina; pelas terras e pelo corte e entrega de todas as terras da fazenda.

Promessas eleitoreiras e traições do PT

Mesmo com a patifaria de sempre do monopólio de imprensa buscando desqualificar e demonizar a luta dos camponeses, as imagens dos rastros do massacre registradas pelas câmeras de dezenas de veículos de comunicação haviam gerado grande indignação e comoção no Brasil e no mundo. Era muito grande a pressão política para que o governo FHC desapropriasse a fazenda em benefício daquelas heroicas famílias. Mas, a direção do PT no estado, que fazia parte do governo de Raupp, pressionou as famílias para aceitarem a proposta do Incra de parcelas de terras em outras três fazendas em diferentes regiões do estado. Também, nos dias seguintes ao massacre, Luiz Inácio foi até aos locais dos acontecimentos em Corumbiara, reuniu-se com as famílias que se encontravam abrigadas na quadra esportiva de um ginásio em Colorado D’Oeste e prometeu que, "caso fosse eleito presidente", faria justiça, indenizaria e entregaria as terras da Santa Elina às vítimas. Depois de quase 8 anos no governo, nenhuma dessas promessas foi cumprida.

Em agosto de 2007, uma delegação de camponeses sobreviventes da resistência de Corumbiara, organizada pelo Codevise, montou um acampamento em Brasília durante 23 dias para negociação do corte da fazenda e das indenizações para os sobreviventes e familiares. Nessa ocasião, os camponeses reuniram-se com o presidente do Incra, Rolf Hackbartl, com Paulo Vanucchi da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, e com o chefe do gabinete pessoal do presidente da república, Gilberto Carvalho, e firmaram os seguintes compromissos:

  • Seria reconhecido o papel do Codevise como entidade representativa das famílias vítimas do chamado "massacre" de Corumbiara.
  • Em 60 dias o secretário Especial dos Direitos Humanos e o presidente do Incra iriam à região de Corumbiara.
  • Assentar as famílias que ainda não têm terra e iniciar processo de reforma agrária na fazenda Santa Elina
  • Indenização para todas as vítimas.
  • Marcar audiência com o presidente Luiz Inácio.

Mais uma vez nenhum dos compromissos assumidos pelo governo foi cumprido.

Oportunismo desdenha do sangue derramado e quer jogar massas contra massas

Recentemente, o Incra deu início a uma ação judicial para desapropriar terras da fazenda Santa Elina, por "descumprimento da função socioambiental". Desse modo, as terras da Santa Elina se ajustariam ao molde da "reforma agrária" do velho Estado, preenchendo a caracterização de "interesse social".

Os 18 mil hectares da Santa Elina estariam, portanto, à disposição para o assentamento de 500 famílias.

Mas as famílias organizadas no Codevise têm enfrentado o oportunismo de grupos que visam amealhar as terras da Santa Elina sem haver derramado uma gota sequer de suor para isto. Articulados com o Incra, desprezando a luta histórica e padecimento das famílias de Corumbiara, esses oportunistas, tendo à frente o deputado federal Anselmo de Jesus, do PT, que controla e manipula a Federação dos Trabalhadores Rurais do estado, já avisou que as terras serão entregues para pessoas já cadastradas pela federação e não às famílias do Codevise. Esta lista de pessoas é certamente parte de suas negociatas eleitoreiras, porém há entre os camponeses da região a suspeita mesmo de vendas das parcelas a estas pessoas. Mas os oportunistas e principalmente o deputado Anselmo sabe que seu negócio não será tão fácil assim de consumar-se, sabe que terá que enfrentar as famílias cujo sangue banhou aquelas terras. Por isso mesmo, lançam a velha tática canalha e fascista de jogar massas contra massas.

As famílias do Codevise que mais uma vez acamparam na fazenda Santa Elina já declararam que esta será a batalha decisiva pela Santa Elina e que custe o que custar vencerão, pois aquelas terras já de muito pertencem a elas.

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