PM ataca ocupação no conjunto Nova Sepetiba II, zona Oeste do Rio

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Na maioria das favelas ameaçadas de remoção pela prefeitura do Rio de Janeiro, a principal carta na manga do prefeito Eduardo Paes para chantagear os moradores são os apartamentos construídos pelo gerenciamento Luiz Inácio / Dilma Roussef nos limites do Rio de Janeiro, como parte do projeto 'Minha Casa, Minha Vida'. Dezenas de quilômetros afastados da região central do Rio, os bairros de Sepetiba, Campo Grande, Vila Cosmos e Santa Cruz já estão repletos de conjuntos habitacionais. No conjunto Nova Sepetiba II, moradores que receberam promessas de novas casas, depois de um ano de espera em vão, ocuparam um terreno baldio no local e foram violentamente expulsos pela PM.

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Mobilização popular contra despejo de ocupação no Nova Sepetiba II

Na tarde do dia 9 de janeiro, duas mil famílias ocuparam um terreno no conjunto habitacional Nova Sepetiba II e, no dia seguinte, em uma ação coordenada pela subprefeitura de Santa Cruz, foram expulsos pela PM, que queimou os barracos e agrediu os acampados. No dia seguinte, uma segunda-feira, a reportagem de AND foi ao local acompanhar um protesto das famílias de sem-teto que exigiam moradia digna para os trabalhadores que haviam sido expulsos do local.

O conjunto Nova Sepetiba II, faz parte do complexo de conjuntos habitacionais da zona Oeste, que nos últimos anos tem se transformado em um campo de concentração, onde milhares de famílias de trabalhadores pobres, removidos de áreas nobres da capital fluminense, são despejados todos os meses. Financiadas pelo projeto 'Minha Casa, Minha Vida', as casas oferecidas a esses trabalhadores são frágeis e mal localizadas, em áreas onde não existem bancos, escolas ou hospitais.

Além disso, vários bairros da região, como a Vila Cosmos e a Estrada Cachamorra, em Campo Grande, já foram, comprovadamente, dominadas por grupos paramilitares, as chamadas 'milícias' que mantém os moradores sob constante terror.

O resultado das remoções olímpicas

O operário da construção civil e presidente da Associação de Moradores da Favela Vila Autódromo, Altair Guimarães afirma que a estrutura dessas casas e apartamentos é precária em comparação às casas que estão sendo demolidas pela prefeitura nas favelas da cidade.

Os ricos podem não conhecer, mas os pobres já conhecem esse projeto Minha Casa, Minha Vida. São casas mal feitas, sem estrutura nenhuma. São casas que eles dão para os empreiteiros ganharem dinheiro. Eles colocam uma malha no chão, levantam a alvenaria, colocam laje em cima de alvenaria, sem coluna, sem nada e, quando você vai ver, as paredes já estão todas rachando. Os apartamentos da Cidade de Deus apareceram outro dia em uma reportagem na TV afundando. O povo não ganha nada com isso, só os empreiteiros que enchem os bolsos de dinheiro público, pois isso é construído com dinheiro público — diz o líder comunitário.

Além de tudo, as famílias derramadas nesses legítimos depósitos de pobres ainda são obrigadas a pagar 50 reais por mês durante 10 anos para ter a escritura dos imóveis, o que totaliza uma quantia de 6 mil reais. Muitos já estão mudando o nome do projeto de 'Minha Casa, Minha Vida', para 'Minha Casa, Minha Dívida'.

A violenta expulsão das famílias de sem-teto que ocuparam um terreno na Cohab Nova Sepetiba II é uma evidência do tratamento de choque dos gerenciamentos municipal, estadual e federal com os trabalhadores pobres que estão sendo removidos a força de áreas nobres do Rio de Janeiro, como a zona Sul, a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes. Um dos líderes da ocupação, o presidente da associação de moradores da Serra do Sol, Marcelo Santos, de 40 anos, conversou com a reportagem de AND em nossa visita à Cohab Nova Sepetiba II.

Nós viemos pra cá, 350 famílias, que foram removidas da Nova Sepetiba no ano passado e receberam a promessa de cadastramento do ITERJ [Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro] para o recebimento do aluguel social, o que não era o que queríamos. Gostaríamos mesmo de continuar onde estávamos. Depois de um ano de espera sem repostas, nós resolvemos ocupar este terreno na Nova Sepetiba juntamente com outras famílias de sem-teto e outros movimentos que lutam por moradia — diz o líder comunitário.

— No dia seguinte, o subprefeito de Santa Cruz, Edmar Teixeira, esteve aqui junto com a polícia. Ele chegou chamando todos de vagabundos e que a ordem para o coronel era baixar a lenha nos acampados. A baixaria do subprefeito foi total. Nós vamos pedir ao Ministério Público que apure o que ele fez, pois a polícia ateou fogo nos barracos com pessoas dentro. Uma mulher se feriu, inclusive. Outros foram colocados para fora debaixo de porrada. Crianças, idosos e até uma mulher grávida foram agredidos. Essa mulher grávida gritava por socorro sentindo contrações na barriga e eles não a socorreram — denuncia Marcelo.

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Eles mentiram para a imprensa dizendo que essas famílias estavam cadastradas para o aluguel social. Eram 2 mil famílias e, no dia seguinte à expulsão forçada, muitas dessas famílias dormiram na rua, ao relento, em frente ao que restou do acampamento — relata.

Frente ao tratamento de choque dado pelos governantes às populações da zona Oeste do Rio que estão áreas de risco, ou ocupações, vários movimentos e organizações que lutam pela moradia se juntaram e criaram o Movimento Unidos Venceremos. Nosso objetivo é exigir um tratamento mais humano para essas famílias, principalmente para essas famílias aqui da Nova Sepetiba II, onde o subprefeito chegou agredindo e ameaçando a todos e largou as pessoas desabrigadas no meio da rua — conta Marcelo.

Na semana após à expulsão das famílias, três protestos foram organizados pelos moradores: um dentro do conjunto Nova Sepetiba, um no Centro de Santa Cruz e outro em frente à prefeitura no dia 17 de janeiro. Os líderes do Movimento Unidos Venceremos da zona Oeste do Rio prometem continuar organizando protestos até a conquista de moradias dignas para as famílias trabalhadoras.


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