Guerrilha do Araguaia — E a luta armada continuou: o caso de Perdidos

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Foto: Gustavo Silveira

"...foi quando o gerente da FBC falou pra gente desistir, que da próxima vez vinha a polícia. Dissemos: Ninguém sai. E nesse mesmo dia, reunimos mais gente, umas 300 pessoas, e decidimos fazer trincheiras e se esconder no mato, para proibir eles de nos roubar”

João de Deus

O espírito de luta dos combatentes da guerrilha do Araguaia deixou marcas profundas no povo da região. Ao contrário da história oficialmente divulgada, os camponeses dali não foram vítimas de uma guerra que não conheciam. Além daqueles que se incorporaram à batalha e dos que a ajudaram, muitos camponeses se inspiram em seus atos para lutar por uma vida melhor. Os acontecimentos verificados na região conhecida por "Perdidos" -situada há 38 km de São Geraldo do Araguaia, num local hoje pertencente ao município de Piçarra-PA — em fins de 1976, são bastante ilustrativos disso. Ali, se organizou um movimento armado dos posseiros contra as investidas de grileiros sobre suas terras, comuns após o fim da guerrilha. Para relatar este episódio, praticamente desconhecido na história dos combates, AND entrevistou um dos líderes da resistência, João de Deus Nazário de Abreu, 55 anos, 6 filhos, presidente da associação local dos Pequenos e Médios Produtores, ex-lavrador — hoje morador de São Geraldo. Pessoa simples, de fala tranquila e gestos contidos, João de Deus se recordou com carinho dos guerrilheiros e das lutas das quais tomou parte.

Como tudo começou

"Depois que terminou a guerrilha, em 76, chegou aqui um fazendeiro, o Careca, que se dizia dono da terra onde morávamos. Ele falava que elas estavam em nome da Fundação Brasil Central e que todo mundo teria que sair de suas moradias e lidas — mais de mil famílias ao todo. Para ficar com a terra, ele tinha que fazer uma demarcação no local para depois fazer cerca", relata João de Deus, lembrando-se da cobiça dos latifundiários pelas posses da região onde se desenvolveu a guerrilha. Nos anos seguintes à luta, muitos grileiros — incentivados pelo Estado e protegidos pela polícia — se lançaram a expulsar as famílias, utilizando extrema violência nesse processo.

Ele prossegue: "Quando começaram as ameaças, nós discutimos com o povo. Não podíamos sair. Aquelas terras eram antigamente lugar de madeireiras, onde empresas estrangeiras tiravam mogno. As famílias foram ficando, fazendo casebres. Cheguei lá em 61. Plantávamos arroz, mandioca, milho; criamos porcos e um gadinho. Todo mundo já estava mais remediado quando apareceu a FBC."

Preparação da luta

"Mais de cinco mil pessoas estavam nos Perdidos nesse tempo, mas não só o povo de lá ia sair prejudicado. Moradores de outras localidades seriam expulsos, porque o ´pique´ seria de 1600 km2. Por isso, o povo começou a se mexer: procuramos a justiça. Fomos ao Incra, ao STR de Conceição do Araguaia, a Belém e até Brasília. Em todo lugar diziam que a gente ia ter de sair mesmo, a terra era de outros". "Mesmo assim, juntávamos grupos de 20, 30 homens armados e íamos até onde o pessoal do ´Careca´ queria fazer demarcação e dizíamos para parar. Foi quando o gerente da FBC falou pra gente desistir, que da próxima vez vinha a polícia. Dissemos: Ninguém sai. E nesse mesmo dia, reunimos mais gente, umas 300 pessoas, e decidimos fazer trincheiras e se esconder no mato, para proibir eles de nos roubar", diz. "Todo mundo ajudou, e quem não ia prometia não falar nada. Nesses dias estavam mobilizados mais de 250 homens, com armas de defesa, na maioria. Saímos, um grupo maior pra trincheira e outros pequenos pra pro mato. Quem veio fazer o pique foi a própria polícia, com pistoleiros. Quando iam pra lá, nós não deixamos. Começou o tiroteio, eles com armas novas, nós só resistindo. Durou tempo e eles tiveram que recuar, com perdas."

Repressão

Continuando, João de Deus descreve o terror que recrudesceu na região, por causa da luta de "Perdidos — que teve como saldo policiais feridos e um morto. João de Deus prossegue: "Depois que eles recuaram, veio reforço de Belém e foi uma covardia só: cercaram a gente num raio de seis kilômetros e foram prendendo, judiando de mulher e criança. Muito morador que nem foi na trincheira teve casa invadida."

"Os homens fugiram e foram sendo pegos aos poucos. Fui preso três dias depois, indo para Marabá. Minha mãe, irmãs, esposa e padrasto já estavam presos, ele sendo muito torturado porque achavam que ele era o líder. O número de presos foi muito grande: só em São Geraldo, mil pessoas; uns 400 foram para Marabá e 50 para Belém. Ficamos no presídio vários meses. Lá, o Exército queria que a gente confessasse ser ´terrorista´, guerrilheiro. Falavam que a gente tinha aprendido com eles. No fundo, era verdade. Mas, o importante é que tem muita gente que ainda mora lá nos Perdidos; o latifundiário não conseguiu roubar tudo, porque nós lutamos." Finaliza João de Deus.

Seguindo o exemplo

Muitos dos camponeses que participaram da luta armada dos Perdidos haviam convivido com os guerrilheiros. Na região, habitaram a geóloga baiana Dina — inesquecível para o povo por suas habilidades como parteira e por sua coragem -, Paulo, Daniel, Jorge e o médico gaúcho João Carlos H. Sobrinho, o Juca, etc. Eles viveram com a população, sempre apontando para a luta por um futuro melhor. Um dos episódios mais conhecidos, dentre os muitos que o povo do lugar guarda na memória, e que certamente influenciou a luta camponesa dos Perdidos, foi quando, em 1971, um detestado fazendeiro da região ameaçou cercar terras dos posseiros, para isso tendo que fazer uma picada justamente na posse de Paulo, em Caiano. Pistoleiros o ameaçaram, dizendo que ele saísse de lá. Paulo sacou um revólver, mostrou-o a eles, mandando-os voltar para avisar ao fazendeiro que ele e todos os outros ameaçados tinham muitas balas para defender suas roças. Essa noticia correu longe, animando a todos e fazendo com que o latifúndio desistisse naquele momento. Como alguns anos mais tarde se verificou, nenhum habitante do lugar esqueceu tais palavras.

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