Militarização dos complexos da Penha e do Alemão: PM chega ao Alemão e opressão segue vigorando

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Militares e policiais patrulham os acessos do Complexo do Alemão...

Todos os meses, AND tem divulgado notícias exclusivas direto dos complexos da Penha e do Alemão, onde segue vigorando o regime de exceção imposto pelo Estado reacionário.  Em 2012, pouca coisa mudou na sofrida rotina dos moradores da região: agressões, toques de recolher, cerceamento de todos os direitos e por aí vai. Em março, o palco da barbárie foi a Vila Cruzeiro, onde um jovem foi torturado por militares em plena luz do dia. No dia 27 de março, em novo episódio da militarização dos complexos, 800 policiais do BOPE e da tropa de choque ocuparam o Alemão para a instalação da UPP, que substituirá gradativamente as tropas do exército.

No dia 27 de março, centenas de PMs do BOPE e do Choque — duas das mais letais tropas do Estado reacionário — ocuparam o Complexo do Alemão para a instalação das duas primeiras UPPs do conjunto de favelas. As unidades serão posicionadas nas favelas Fazendinha e Nova Brasília, locais que deixarão de ser patrulhados pelo exército. A troca pouco representa para os moradores, já que a rotina das massas nas favelas que já receberam UPPs não é muito diferente do regime de exceção imposto pelo exército no Complexo do Alemão durante mais de um ano.

Dias antes da ocupação policial, a TV Record do Rio de Janeiro exibiu uma reportagem que mostrava crianças, aparentemente de 8 a 12 anos, atirando pedras e garrafas contra soldados do exército no Complexo da Penha. Em outra cena, um menino de no máximo 10 anos parte para cima de um soldado e o agride com socos e pontapés. Segundo repórteres da TV Record e a força de pacificação, as crianças estariam hostilizando soldados por ordem do tráfico. Verdade seja dita: a atitude das crianças ilustra pontualmente o sentimento de revolta de todos os moradores da região, homens, mulheres, crianças, idosos, a opinião majoritária da população grita em alto em bom som “Fora exército do Alemão e da Penha”.

No dia 9 de março, um rapaz que não quis se identificar, nem gravar entrevista, disse ter sido torturado com choques e golpes de cassetete. Ele voltava para casa com a namorada quando presenciou uma perseguição de militares a traficantes. Os militares perguntaram se ele sabia quem eram os bandidos. Ele disse que não e recebeu a resposta: “Vamos ver se você não sabe”. O rapaz foi algemado e levado para um local escuro e cercado de árvores. Em seguida, foi amarrado e torturado, versão confirmada pelo exame de corpo de delito. Por sorte, o jovem conseguiu se desvencilhar das amarras e fugir pela mata.

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... onde 800 PMs formam as duas primeiras UPPs

Ao saber do que havia acontecido, moradores se revoltaram contra os militares e saíram de casa para protestar. O exército, então, atirou balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta contra a massa, ferindo mulheres, idosos e crianças. Segundo Dona Edna Maria, de 62 anos, moradora da Vila Cruzeiro, sua neta de quatro meses e sua filha ficaram sufocadas com o spray de pimenta.

Eles [militares do exército] estavam aqui na rua e minha filha estava passando com a minha neta no colo. Eles disseram que não queriam ninguém na rua. Minha filha não respondeu e eles jogaram spray de pimenta nela. Com uma criança de quatro meses no colo. O rapaz que estava subindo ainda defendeu a minha filha. Ele disse ‘vocês não podem fazer isso com morador’. Eles queriam prender o rapaz. Chegaram a dar voz de prisão. Mas nós brigamos para impedir. Eles não podem fazer isso. O rapaz estava defendendo uma mulher e uma criança. Minha neta ficou desacordada — relata.

Outra senhora, dona Andrelina de Jesus, de 65 anos, disse que sua casa foi invadida pelo gás de pimenta sufocando ela e sua família.

Eles não respeitam ninguém. Chegam jogando bomba, spray de pimenta na casa dos outros. Nossa casa fica que a gente não aguenta. Eu estou com a barriga operada, inchada, fico sufocada com o spray e começo a vomitar. Meus netos ficam aqui em casa desesperados, porque eles já chegam com a pistola na mão. Qualquer coisa, eles dão um tiro e dizem que não foram eles que atiraram. Há 40 anos que eu moro aqui e nunca pensei que fosse passar por isso. Nós sempre fomos respeitados — conta.


Bala de borracha tira a visão de jovem trabalhador

Quando nossa reportagem esteve no Complexo da Penha para apurar as denúncias de abusos cometidos pelo exército no dia 9 de março, o jovem Wanderlan Silva, de 29 anos, foi um de nossos entrevistados. Há oito meses, ele teria perdido a visão de um dos olhos depois de ser atingido por um tiro de bala de borracha disparado por soldados da força de pacificação.

Foi em julho que tudo aconteceu. Nós estávamos em um bar aqui na comunidade. Os soldados chegaram no carro de número 34 já falando que era pra todo mundo ir para casa, jogando spray de pimenta e xingando os moradores. Uma moradora começou a filmar e eles não gostaram. Começaram a dar tiros de bala de borracha. Eu estava escondido, mas quando eu corri pra socorrer a minha tia eles deram um tiro na altura da minha cabeça que acertou a minha vista. Quando eu me virei, eles ainda deram três tiros de bala de borracha nas minhas costas. Além disso, eu não consegui o benefício do INSS, porque eu estava sem poder trabalhar. Eu peguei um laudo com o oftalmologista do HCE [Hospital Central do Exército], mostrei para o pessoal do INSS, mas eles disseram que o laudo não valia de nada. O que aconteceu? Meu patrão me mandou embora. E agora? Eu vou ficar desempregado? — pergunta ele.

Eu estou até evitando ficar na comunidade, porque você não pode falar nada com eles que eles já jogam spray de pimenta, metem a porrada, não querem nem saber. Quer dizer: nós somos trabalhadores, trabalhamos a semana inteira, queremos chegar em casa, relaxar, descansar, nos divertir e não podemos. Meu sentimento é de muita revolta, porque eu perdi a minha visão, perdi meu emprego, um companheiro meu foi espancado pelos soldados esses dias. Quase mataram o garoto. Eles vão acabar matando alguém aqui na Vila Cruzeiro — reclama.


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