O Brasil da viola

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Preocupado em manter viva a cultura regional da viola, o violeiro e pesquisador Cacai Nunes esta à frente do projeto Acervo Origens, um extenso trabalho de catalogação e divulgação da música cultural de todo o país. Pernambucano, radicado desde os cinco anos de idade em Brasília, é um apaixonado pela viola e interessado em que o instrumento chegue a outros universos musicais, além da música caipira, acreditando ter potencial para isso.

— O Acervo Origens é um grande projeto de pesquisa e divulgação da música brasileira. Sabemos que cada vez mais tem gente interessada em conhecer essa música, que vem sendo registrada desde o início do século 20, nos discos de acetato. Sabemos também que essa música não existe no mercado. Boa parte dos registros feitos no passado está nas mãos de grandes gravadoras, que se recusam a publicar — conta Cacai.

— Tenho um extenso acervo de Lps na minha casa, que consegui em sebos ou em coleções particulares, e esse trabalho é disponibilizado na internet num blog, o www.acervoorigens.com, e em um programa na rádio Nacional de Brasília aos sábados as 19:00h, que também pode ser ouvido pelo blog. São espaços que servem para desaguar toda minha pesquisa — explica.

— Além disso, o Acervo Origens realiza e disponibiliza no blog atividades como Forró de Vitrola, um trabalho no qual fazemos uma discoteca somente com vinil, e o Intervalo Cultural, um projeto que leva a viola para as escolas rurais. Andamos mais de 100/120 quilômetros para encontrar e nos apresentar nas escolas do Distrito Federal — fala, acrescentando que o Forró de Vitrola é transmitido ao vivo pelo twitter do acervo origens.

No ano passado, o Acervo realizou o projeto Um Brasil de Viola, um importante apanhado do que existe de viola no país.

— Claro que não é tudo, por ser muita coisa, mas mostramos a diversidade do instrumento, suas muitas linguagens, registrando vivências diferentes de violeiros. Durante seis meses, passamos por nove estados brasileiros. Na Paraíba, por exemplo, registramos violeiros que têm a vivência da poesia e do repente. Na Bahia, os que têm convívio entre os sambas chulas, os sambas de roda lá do recôncavo — conta Cacai.

— Em Goiás e Minas, os violeiros tradicionais, tocadores do sertão, com conhecimento de toques ancestrais. Muitos deles são apenas violeiros de folias de reis e outras folias. Aqui no Distrito Federal, o Roberto Corrêa, o primeiro a montar um método de ensino do instrumento, levando a viola à academia, e a dupla Zé Mulato e Cassiano, umas das mais representativas — continua.

— No Mato Grosso registrei os tocadores de viola de cocho, que é aquela viola feita com uma tora de madeira escavada, comum no estado. No Paraná, foram os tocadores de viola fandango e, em São Paulo, uma orquestra de Viola onde há um encontro de gerações tocando um repertório selecionado — acrescenta.

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Segundo Cacai, a viola tem competentes violeiros para trabalhar a música caipira, mas também potencial para tocar outros tipos de música brasileira.

— Gosto muito de instrumentistas brasileiros que fazem a nossa música com novas roupagens. Inclusive, a música que faço não classifico como caipira, apesar de ser violeiro. Ela é um misto de informações que tenho de música regional do país inteiro. Tem choro, samba, forró, baião e outros elementos da música brasileira — comenta.

Música brasileira com viola

— Mesmo antes de tocar viola, eu já tinha interesse em tocar música brasileira, e conhecer os seus registros. Assim, comecei a comprar muitos vinis e fui realizando eventos de música aqui em Brasília. O primeiro foi o Forró Lorota Boa, onde utilizava muito da pesquisa do repertório dos Lps. Tinha uma banda, que era a Lorota Boa, e nos dedicávamos a tocar esse repertório — lembra Cacai.

— Depois, fui fazer a Festa Origens, que deu o nome ao Acervo Origens. E tudo isso era gravado, porque sentia a necessidade de registrar e compartilhar, levar até o maior número possível de pessoas, multiplicando os interessados em música brasileira — diz.

Cacai lançou seu primeiro CD O Avesso em 2006 e, com ele, viajou pelo país e exterior.

— É um disco todo instrumental. Além das minhas composições, gravei Pixinguinha, Dilermando Reis e Chiquinha Gonzaga, compositores que fizeram parte do início da minha vida de instrumentista, de violeiro. Os arranjos são todos meus para viola caipira. Posso dizer que é um disco de música instrumental brasileira, sem classificação de estilos. É música brasileira com informações de músicas de vários lugares do país — declara.

— E esse disco já me levou para tocar em festivais na África, França, Holanda, Suíça, Espanha, Estados Unidos, Colômbia, e mais lugares. E essa música brasileira sem rótulo específico mostrou que pode conquistar pessoas de várias partes do mundo — continua.

— No momento, estou terminando os arranjos do meu próximo disco, que será gravado de forma independente, todo ao vivo, sem corte, em uma chácara aqui em Brasília. Será todo instrumental e deverá ter umas informações mais percussivas da música afro-brasileira, que tenho bastante vivência. Mas o repertório ainda não está totalmente definido — finaliza Cacai Nunes.



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