RJ: Rocinha é alvo da vez em guerra do velho Estado contra o povo

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Fotos: Ellan Lustosa / A Nova Democracia.

A presente matéria será publicada na próxima edição impressa (nº 197) do AND.

A Rocinha, uma das maiores favelas da América Latina, é alvo de intervenção das Forças Armadas desde o dia 22 de setembro. A ocupação da comunidade por militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica é por tempo indeterminado e, até o fechamento desta matéria, já registra três assassinatos, além de uma série de denúncias de invasões a casas e comércios e agressões contra as massas trabalhadoras locais.

Como expressão da guerra civil reacionária que se abate sobre o povo, a presença das tropas federais no morro localizado na zona sul ocorreu depois de cinco dias consecutivos de incursões policiais e da disputa pelo controle do tráfico por diferentes grupos varejistas.

As Forças Armadas realizaram o cerco à comunidade com aproximadamente 1.000 homens, dez blindados e um helicóptero. Os agentes da reação, enviados por Temer/PMDB, chegaram à Rocinha por volta de 15h30, atendendo ao pedido do gerente Pezão/PMDB, feito no fim da manhã.

Veículos militares desfilaram ostensivamente pela autoestrada Lagoa-Barra, em uma cena típica de quem se encaminha para uma guerra. Ao todo, foram 50 veículos utilizados na ação, entre tanques, jipes, caminhões, ônibus e ambulâncias.

Cerca de 15 agentes do Exército reacionário fizeram a primeira incursão na favela ao descer de rapel do helicóptero blindado da Força Aérea Brasileira (FAB) em direção à mata que existe no alto da favela. O espaço aéreo chegou a ser fechado por algumas horas.

Seguindo o mesmo modus operandi da ocupação recente que impôs terror ao povo do Jacarezinho (zona norte), as Forças Armadas deram cobertura para a ação genocida do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e da Tropa de Choque da Polícia Militar (PM).

Moradores tiveram suas casas arrombadas e vasculhadas por agentes do velho Estado. Muitas pessoas não puderam sequer voltar do serviço porque foram impedidas de entrar na favela por policiais fortemente armados. Outras procuraram refúgio em casas de amigos e familiares em bairros distantes do confronto.

Segundo a página “Rocinha em Foco”, trabalhadores de várias partes da favela foram agredidos verbal e fisicamente por PMs. Com a interrupção do transporte local, feito geralmente por motos e vans, diversos moradores foram obrigados a subir a pé o morro.

Em entrevista à reportagem de AND, a estudante de psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luana Gonçalves, moradora da Rocinha, relatou a invasão:

Quando eu estava voltando para casa, um policial do Bope observava atentamente as pessoas que desciam do ônibus. Liguei para meu marido para que ele viesse antes de anoitecer, pois não queria subir a comunidade à noite. Eu estava com medo do que poderia acontecer.

Luana prossegue denunciando a atuação das Forças Armadas na operação, o que, diferentemente do que foi divulgado pelo monopólio de comunicação, não trouxe tranquilidade e segurança aos moradores:

Na descida da minha casa tinha um tanque de guerra. Imagina o que é isso? Realmente não me sinto segura, me sinto acuada e sitiada.

“Você está no trabalho e recebe a notícia que sua casa foi arrombada por policiais. Isso é um absurdo!”, escreveu uma moradora da Rocinha numa rede social. Nas imagens que acompanham a publicação, é possível ver a destruição promovida pelos agentes da repressão: a porta da casa foi destruída; as gavetas de armários e cômodas completamente reviradas; as roupas e pertences pessoais dos moradores foram jogados no canto de um dos quartos.

Diante das covardes agressões, um ônibus foi incendiado na orla de São Conrado, bairro próximo à Rocinha, na manhã de 22/09.

Velho Estado quer mais repressão

Cobrando mais mortras da reacionarização do velho Estado, Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, pediu publicamente a saída de Roberto Sá, secretário de “segurança” do Rio. Para Maia, houve demora no envio das Forças Armadas à Rocinha.

O preposto do Fundo Monetário Internacional (FMI) no país, Henrique Meirelles, também declarou apoio à ação militar. “Têm forças de segurança federais no Rio, o Exército está lá, isso é importante”, disse, em entrevista ao monopólio de comunicação.

O jornal O Globo, cabeça do monopólio da imprensa reacionária, por sua vez, declarou abertamente sua posição de apoio à guerra civil de baixa intensidade que se abate sobre o proletariado e as massas populares do Rio e, em particular, sobre a Rocinha. Intitulada “Ordem é asfixia até o fim”, a publicação defendeu, no dia 23 de setembro, a ação do Estado policial de realizar, sob pretexto de apreender armas e drogas, as invasões sem mandato de casas na comunidade. Um mandado coletivo de busca estaria sendo tramado nos bastidores.

Escolas e unidades de saúde fechadas

Em 22/09, quinto dia seguido de confrontos armados, cerca de 5 mil estudantes ficaram sem aula na Rocinha e em escolas particulares da Gávea. As unidades de saúde que funcionam na comunidade da zona sul também fecharam as portas, incluindo a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), um dos poucos serviços oferecidos à população local.

UPP na Rocinha é mais genocídio

Em 2011, a Rocinha foi utilizada pelo gerente Cabral/PMDB e pelo arquirreacionário José Mariano Beltrame como modelo de “pacificação” implementado pelo projeto das Unidades de Polícia “Pacificadora” (UPPs), cujo principal objetivo era cercar militarmente a população pobre da cidade tendo em vista a aproximação dos megaeventos esportivos.  

À época, militares também foram convocados para garantir a instalação da UPP na comunidade que fica próxima aos bairros mais ricos do Rio, como Leblon, São Conrado e Gávea.

A comprovação da tortura e do assassinato do pedreiro Amarildo, em 2013, tornou-se o caso mais emblemático da política genocida de militarização das favelas e periferias da cidade.

Mais favelas invadidas

No mesmo dia da invasão da Rocinha, pelo menos mais outras sete favelas foram acossadas pelas forças de repressão do velho Estado: Complexo do Alemão (zona norte), Complexo da Maré (zona norte), morro Dona Marta (zona sul), Chapéu Mangueira (zona sul), Vila Kennedy (zona oeste), além de Jorge Turco (zona norte) e Palmeirinha (zona norte).

Uma adolescente de 16 anos foi atingida por estilhaços de bala quando seguia em direção ao colégio no Complexo da Maré. Levada para o Hospital Getúlio Vargas, ela recebeu alta ainda naquele dia.

No Complexo do Alemão, um jovem de 18 anos, identificado como Lenilson Alles Novaes Santos, foi atingido na coxa direita por um tiro quando estava no pátio do Centro de Atenção Integral à Criança. Ele foi levado à UPA da favela e seu quadro de saúde é estável, até a publicação desta matéria.

Cárcere privado de jovens

Um homem morreu e outro ficou ferido em um confronto armado ocorrido na comunidade do Jacarezinho, dois dias depois da agressão à Rocinha. A ação realizada pela Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil aconteceu numa localidade conhecida como Morrinho. Naquele momento, ocorria uma festa dentro de uma casa da comunidade. Testemunhas disseram que policiais invadiram o local e, após liberarem pessoas menores de 18 anos, passaram a impedir a saída de cerca de 60 jovens, mantidos ali sob regime de cárcere privado.

Após um tumulto entre os policiais e os moradores que reivindicavam ver seus familiares, os jovens foram levadas para a Cidade da Polícia, próxima ao Jacarezinho. Somente às 4h do dia 25 de setembro, eles foram liberados. Moradores indignados com os abusos e arbitrariedades protestaram na porta da central da Polícia Civil.

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