RJ: Moradores levantam barricadas em protesto contra a falta de luz em diversos bairros

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Reproduzimos a seguir a matéria publicada no blog passa-palavra.


Rio de Janeiro com militares nas ruas: a tempestade foi mais longa que o Carnaval

O carnaval do Rio de Janeiro é considerado um dos mais longos das cidades brasileiras. Enquanto em muitas cidades os blocos e festas duram até a “quarta feira de cinzas”, aqui é de costume que ele dure até o fim de semana seguinte, mesmo que as pessoas retornem para suas rotinas de trabalho e estudo em funcionamento normal na quinta e na sexta feira. São dias de interrupção dos trabalhos rotineiros, para que as festas tomem conta da cidade. Mas esse clima foi interrompido por uma brusca tempestade no dia 14 de Fevereiro, típica do severo verão carioca, mas um tanto mais bruta que outras chuvas da estação. Causou destruições pela cidade, deixando em torno de 2 mil pessoas desabrigadas. Com os ventos fortes e as quedas de mil e trezentas árvores de grande porte, fios elétricos foram derrubados dos postes. Isso deixou mais de 100 mil pessoas sem energia elétrica em suas habitações. Consequentemente, pela falta de energia para o bombeamento, algumas residências ficaram sem água. Além do saldo de 5 mortos e muitos feridos, tem a destruição de algumas clínicas médicas.

Moradores erguem barricada no bairro Riachuelo, 16/02

O temporal causou destruições em vias públicas, promovendo obstrução em muitas avenidas, viadutos e ruas. O trânsito parado foi uma das consequências, que dificultaram a mobilidade. Isso promoveu o atraso no atendimento para recuperação e reestabilização de serviços, como a energia elétrica da empresa Light. Os prazos dados pela companhia foram de no mínimo 3 dias até uma semana, ou sem resposta. Um claro resultado do planejamento urbano e as estruturas da cidade, que priorizam a acumulação de capital nos trajetos de rotina de trabalho e produção comercial. A recuperação de um serviço para garantir as condições de vida de trabalhadores e suas atividades foi atrasada. Ao mesmo tempo em que foi vista “a olhos nus” nos meios de comunicação corporativos a atenção à manutenção de empreendimentos mais estratégicos ou mais caros: como vias principais e a ciclovia Tim Maia, que passa pela Zona Sul e sofreu mais um desabamento. A Light declarou que os bairros mais atingidos com “apagões” são Campo Grande, Jacarepaguá e Ilha do Governador, todos no subúrbio.

Assim, além de perdas de bens e imóveis, danificados com os alagamentos e desabamentos, muitas pessoas tiveram suas vidas interrompidas devido ao atraso no retorno de luz e água. Logo, por meio do que seria uma tragédia promovida por um fenômeno natural, foi exposta a lógica da cidade e sua estrutura capitalista. Além de não promover as infraestruturas básicas para resistir às catástrofes, como, por exemplo, um simples alarme contra temporais em favelas para alertar moradores a se retirar do local, não há atendimento mínimo para retorno de serviços essenciais para a reprodução da vida cotidiana. Mesmo que haja, sempre é em preferência de estabelecimentos de vias em melhores condições para garantir a produção de mercadorias, do que a recuperação do valor perdido por cada membro da classe trabalhadora.

Enquanto essa contradição é exposta, uma série de mobilizações e ações de moradores aconteceram em diversos bairros e regiões do Rio de Janeiro. Assim, novamente foi posta à prova a disputa entre a prioridade do que se pode chamar de “condição geral de produção” da cidade: (1) ou a infra estrutura da cidade priorizando as vias, avenidas, ferrovias e viadutos que transportam pessoas que conseguiram manter seu deslocamento ao trabalho ou ao consumo, apesar da catástrofe; (2) ou a infraestrutura de luz, água, alimentação, higiene, descanso e saúde, que garantem a reprodução biológica e social da vida de trabalhadores, garantindo o retorno às suas vidas com condições de exercer suas atividades, antes da obrigação de cumprir uma atividade de trabalho que valorize o mercado, que seria a ida ao emprego e ao consumo.

Já era possível visualizar o conflito colocado, diante das perdas para muito além de 2 mil desabrigados e 100 mil sem luz elétrica ou água, por conta da catástrofe da tempestade. Mas também a prioridade e divisão de gestão foi exposta: o serviço de tipo (2) foi encarregado pela empresa Light, cuja tutela entrou em choque com a prioridade dada aos serviços de tipo (1), a passagem das vias principais, em detrimento das ruas do subúrbio carioca. Dado tal atraso, foi possível elaborar um cronograma de protestos em diversos locais da cidade, exigindo o retorno de luz e água, ocorridos nas 72 horas seguintes ao temporal. Ainda é possível que alguns ocorridos não estejam nessa lista, muitos entre os que estão não possuem uma precisão de hora ou fato detalhado do acontecimento. Em sua maioria, moradores estenderam faixas ou construíram barricadas, com fogo muitas vezes, para bloquear o trânsito.

Moradores exigem luz em Deodoro, 16/02.

Dia 14 de fevereiro
– Estrada dos Bandeirantes, no BRT Arroio-Pavuna, na Zona Oeste: barricada de fogo com faixas.

Dia 15 de fevereiro
– Estrada do Guerengue, na Taquara: barricada com cartazes e faixas.
– Bairro do Riachuelo, Av. Marechal Rondon: barricada com cartazes e faixas.
– Engenho de Dentro. Rua 2 de Fevereiro: barricada com cartazes e faixas.
– Gardênia Azul, Av. Ayrton Senna barricada de fogo e intervenção policial.
– Manguinhos: barricada de fogo, com cartazes e faixas.
– Avenida Cesário de Melo, à noite. – Santa Cruz.

16 de Fevereiro
Bairro Santa Cruz:
– Areia Branca, em frente a igreja São Benedito, às 22h. Houve intervenção policial.
– Avenida João XXIII, 22h, com faixas.
– Estrada de Sepetiba, barricada com fogo às 22h.
– Rua Felipe Cardoso, fechamento parcial da Via, fim da tarde.
– Rua Vitor Dumas, barricada de fogo. Fim da tarde.
– Reta do Rio Grande, Lote 61. Às 15h. Bloqueio com árvores.
– Estrada da Pedra, noite. Barricada com fogo
* Brás de Pina, Avenida Brasil: bloqueio com faixas.
* Deodoro (foto acima).
* Jacaré, Rua Lino Teixeira (foto acima). Barricada de fogo em árvores.
* Ramos, Av Brasil.
* Vila Kennedy, Av Brasil.
* Bairro Senador Camará, Av. Santa Cruz: barricada e tentativa de saque do supermercado Prezunic (foto abaixo).
* Rua 46, Estrada do Magarça, entrada do bairro Maravilha, em Campo Grande.
* Bairro Mangueira, Av Marechal Rondon: barricada com cartazes e faixas.
* Rua Magalhães Castro, bairro Riachuelo (foto acima).

17 de fevereiro
– Praça Seca na Rua Cândido Benício, na altura da Rua Pinto Teles, no sentido Taquara.
– Bangu, Rua Barão de Capanema.: barricada.
– Cidade de Deus: barricada de fogo.
– Pingo d’Água, 13h em Guaratiba: barricada.

É preciso observar o caráter “semi-espontâneo” dessas manifestações, ou seja, elas não contaram com uma organização política ou instituição que tenha uma comunicação pública, que se coloque como porta-voz ou organizadora dessas ações. Isso já mostra uma cultura de mobilização, unida ao senso de necessidade e percebido pela contradição vivida. Muitas vezes isso é escancarado pela mídia ou pela própria experiência cotidiana de conflito, diante da exploração capitalista nas relações sociais, que visam despender da classe trabalhadora mais tempo na produção de mercadoria (no trabalho), em (1), do que na própria qualidade de sua vida, em (2).

O protesto da Light na Marechal Rondon

Diante do clima de carnaval, foi interessante observar o protesto do dia 16, sexta feira, na Avenida Marechal Rondon, no bairro da Mangueira, onde uma participante, funcionária de telemarketing em dois turnos, desabafou que não estava ali para “mudar o mundo”, mas sim para garantir a cerveja gelada do fim de semana. Esta cerveja gelada, que vinha de um pequeno estabelecimento comercial, estava sem garantir esse seu tempo de lazer, pois o serviço de eletricidade garantido pela empresa Light não estava cumprindo sua funcionalidade. Essa estrutura de controle, promovida por uma empresa, podemos chamar de “Estado Amplo”, é uma forma de reproduzir a exploração. Onde um trabalhador garante seu papel social nas relações sociais, tendo acesso à essa condição geral de produção, que é a luz elétrica, inclusive para um lazer: tempo necessário, não remunerado e que serve para garantir o retorno de seu salário às mercadorias compradas para investir em si próprio. Tal atividade garante a reprodução das relações sociais, na medida que o retorno ao tempo de trabalho diário seja sempre maior que o tempo empregado em tais investimentos em si, como o lazer. Mas quando um estabelecimento comercial tem suas atividades interrompidas por falta de eletricidade, a cerveja fica quente rapidamente, no verão carioca de 45 graus. A lógica do capital insiste em priorizar as vias e retorno de valores perdidos na tempestade, em detrimento da qualidade de vida da classe trabalhadora, perde a estabilidade dessa relação social diante das tragédias urbanas. Logo, não está em jogo somente o pequeno comércio do bar, mas o lazer de trabalhadores.

Logo, se precipitam os protestos, quando moradores de bairros percebem que precisam tomar o controle da cidade para ter a retomada dos valores perdidos na tragédia das chuvas. Assim, fazem protestos, barricadas e tomam o controle do deslocamento, mostrando que o caminho para recuperar o investimento em suas vidas é o inverso dos capitalistas, que priorizam a abertura e a integridade de vias para recuperar o mercado. Uma visão mais romantizada das lutas sociais, poderia dizer que a trabalhadora de telemarketing não tem politização por querer “somente a sua cervejinha gelada”. Mas é desse desejo pelo tempo de lazer empregado em si mesma, em sua força de trabalho, que pode nascer a experiência de luta, que mostra a necessidade de romper com a relações capitalistas para garantir sua qualidade de vida.

Além das barricadas, a tática dos moradores da Av Marechal Rondon foi certeira: cada carro da Light que passava era rendido pela manifestação. Somente liberariam caso a energia elétrica fosse restabelecida, os funcionários da empresa estavam liberados para ir aonde quiserem. Mulheres ficavam na frente e paravam os carros para explicar o motivo do bloqueio no trânsito, outras vezes de forma afetuosa e outras mais hostis. Dependia da receptividade do motorista. Diante do impasse, o discurso de que a luz não poderia ser ligada naquele dia, só no próximo fim de semana, de técnicos da Light e de empresas de ônibus que ali paravam, foi desmentido em algumas horas por operadores. A reivindicação foi atendida e a luz foi religada. A pequena vitória foi comemorada no bar, que agora poderia ter cerveja gelada.

Diante das chuvas, que tendem a se repetir, os atingidos seguem fazendo pedidos de doação. Mas outro problema é deparado ao seu encontro: a tomada do controle da secretaria de segurança pública do estado do RJ pelas Forças Armadas através de um decreto do presidente Michel Temer, depois de um pedido do governador Pezão por uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem) respondido com um decreto de intervenção que durará até dezembro de 2018. Não há elementos para comprovar que os últimos acontecimentos justifiquem uma posição de militares no papel de polícia. Mas talvez seja preciso analisar a questão dentro da noção militar da “guerra irregular”[1], predominante na noção de guerra divulgada pela segurança pública do Brasil. Assim, percebendo a sintonia do movimento da classe trabalhadora e sua possibilidade de formulação autônoma e o quanto isso se choca com uma política de repressão que visa ter seus avanços no controle social.


Notas:

[1] VISACRO, Alessandro. Guerra irregular: terrorismo, guerrilha e movimentos de resistência ao longo da história. São Paulo: Contexto, 2009.

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