268 anos da queda em combate de Sepé Tiaraju: Esta terra tem dono!

O dia 7 de fevereiro de 2023 marca os 268 anos da queda em combate de um dos grandes heróis do povo brasileiro: Sepé Tiaraju.

268 anos da queda em combate de Sepé Tiaraju: Esta terra tem dono!

O dia 7 de fevereiro de 2023 marca os 268 anos da queda em combate de um dos grandes heróis do povo brasileiro: Sepé Tiaraju.
Print Friendly, PDF & Email

O dia 7 de fevereiro de 2023 marca os 268 anos da queda em combate de um dos grandes heróis do povo brasileiro: Sepé Tiaraju.

Sepé Tiaraju foi um grande líder Guarani que combateu os colonizadores portugueses e espanhóis. Sua figura ainda hoje, mais de 250 anos de sua morte, constitui um símbolo de resistência e bravura contra a opressão. Suas estátuas decoram muitas cidades gaúchas. Rios, cidades e ruas são batizadas com seu nome. Em homenagem à sua memória e sua brava luta contra a opressão colonial, o nome de Sepé é tema de muitas canções do povo gaúcho, principalmente nas músicas das grandes vozes progressistas do povo como Cenair Maicá e Jayme Caetano Braun, sempre como muralha de ferro contra os inimigos do povo, outrora o colonialismo lusitano e espanhol, hoje contra o imperialismo.

Mesmo “branqueado”, como dizem os Guaranis, se referindo a muitas “maquiagens” feitas no guerreiro Djekupé A Djú, que era seu verdadeiro nome, para elevar o prestígio da Igreja Católica, o pintando de “índio cristão”, sua figura transcende o povo Guarani e ascende a figura popular para todo o povo brasileiro e todos os povos oprimidos do mundo. Trata-se de um alto farol de liberdade que ainda hoje faz soar seu grito: Essa Terra tem Dono! 

Sobrevivente nas tradições orais

A história do grande chefe indígena sobreviveu pelas tradições orais do povo. Djekupé A Djú nasceu em uma aldeia cuja localização não é exata, mas que ficava no Rio Grande do Sul, em meados dos anos de 1720. Naquele tempo, sua aldeia foi atacada por europeus, os Guarani das redondezas foram ajudar, mas encontraram a aldeia já dizimada. Entre os poucos sobreviventes, estava o pequeno Djekupé A Djú, na época de apenas dois anos de idade. Apesar da aldeia pertencer a outra tribo, os Guaranis o levaram e os criaram como um dos seus. 

Foi adotado por uma família de um poderoso e influente Pajé, e cresceu sendo preparado para levar uma vida espiritual quando crescesse. Mas a história o levou para outros rumos, marcado pela sua experiência com os colonos. Djekupé abandonou a religião para se dedicar aos trabalhos militares, se tornou um grande guerreiro. As histórias descrevem Djekupé com um forte espírito combativo e com sede de vingança contra os brancos, com um grande amor ao povo Guarani e a sua família, mas também como um grande orador. Tinha relações amistosas com os jesuítas e os Guarani dos sete povos das Missões, e ao contrário de muitos de seus contemporâneos, era conhecido por conseguir se comunicar bem com os brancos. Djekupé era fluente no espanhol, que aprendeu dos padres das reduções jesuíticas.

Guerreiro defensor da terra

Djekupé se tornou um grande líder, dedicando-se à incessante luta para que os Guarani mantivessem seu direito à terra. Mas a história não permitiria que isso acontecesse. O ano era 1750, na europa, Portugal e Espanha sentavam à mesa para redefinir a partilha de nossa América. Em troca da Colônia Del Sacramento, Portugal receberia a terra ocupada pelas missões Jesuíticas. Foi traçado um plano, os Lusitanos e os Castelhanos se uniriam para expropriar as terras e empurrar os Guaranis para o outro lado do Rio Uruguai.

Os padres deram a ordem para desocupar as missões, mas Djekupé se recusou, montando uma grande resistência ao lado de outros líderes Guarani, mas grande maioria desobedeceu os Jesuítas. Começava a guerra, o ano era 1753.

Ambos os portugueses e espanhóis foram recebidos pela fúria dos Guarani, em sua primeira investida com 1500 homens, os castelhanos foram derrotados pelos Guarani, obrigados a fugir para o outro lado do Rio Uruguai. Ao sul, Djekupé liderou um ataque a uma fortaleza portuguesa onde hoje fica a cidade de Rio Pardo. Nessa batalha, Djekupé acabou derrotado e foi feito prisioneiro, mas logo fugiu e começou uma guerra de guerrilhas contra os colonizadores. O fogo da revolta havia se espalhado por toda a região: os Charrua se juntaram à guerra do lado dos Guarani, em um poderoso levante dos povos indígenas contra os portugueses, que falharam miseravelmente em seu objetivo de aniquilar a guerrilha de Djekupé A Djú e acabaram forçados a aceitar um armistício temporário.

Em 1755, os castelhanos e portugueses se reagrupam e iniciaram uma nova ofensiva, desta vez vinda de Montevidéu. Mais de 3 mil homens avançaram contra as terras Guarani com o objetivo específico de matar Djekupé e destruir seus guerrilheiros. Por mais de um ano os europeus foram derrotados pela guerrilha, antes de atingiram uma revoravolta na batalha da Serra do Batavi.

Essa terra tem dono

Atraindo os guerrilheiros para uma reunião onde se poderia conseguir um novo armistício, os espanhóis receberam Djekupé na Serra do Batovi, onde hoje fica a cidade de São Gabriel, e cercando os emissários Guaranis, os espanhóis atacaram e apunhalam Djekupé pelas costas. Segundo se conta, foi nessa reunião que Djekupé, apunhalhado pelas costas, tombou firme e pronunciou sua famosa consigna: Co Yvy Oguereco Yara, Essa Terra tem dono.

Djekupé não pode participar da última grande batalha da guerra, a Batalha do Caibaté, onde os Guarani enfrentaram os portugueses em campo aberto e, mesmo enfrentando tropas numericamente superiores armadas de canhões, não recuaram nem fraquejaram. Mais de 1,5 mil tombaram na última grande batalha da guerra. Era o ano de 1756. A historiografia considera que a guerra se encerra em maio desse mesmo ano.

Essa mesma historiografia considera a chamada Guerra Guaranítica como uma derrota, e de fato, os objetivos da aliança Luso-Castelhana foram cumpridos, a guerrilha de Djekupé foi encerrada, e seu líder acabou tombando em batalha. Mas hoje, mais de 200 anos após o ocorrido, por todo o Rio Grande do Sul vigoram, ainda que reduzidos em número, o povo Guarani, que esteve aqui antes e permaneceu depois, segue firme na defesa de seus territórios. Se o objetivo era expulsar os Guaranis para o outro lado do Rio Uruguai, este objetivo falhou completamente. 

Diz-se também que Djekupé morreu. Mas, apesar de Djekupé A Djú ter tombado na guerra, seu nome vive, mais do que nunca, imortalizado no povo brasileiro. Mesmo que derrubassem todas as suas estátuas e se apagasse seu nome de todos os livros, Djekupé sobreviveria nas tradições orais do povo, como sobreviveu e ainda sobrevive por mais de 200 anos. Os comandantes e governadores portugueses e espanhóis não tiveram o mesmo destino, e hoje encontram-se esquecidos na história. Enquanto se lembrar a memória de Djekupé, ele permanecerá imortal.  

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
Agora, mais do que nunca, AND precisa do seu apoio. Assine o nosso Catarse, de acordo com sua possibilidade, e receba em troca recompensas e vantagens exclusivas.

Quero apoiar mensalmente!

Temas relacionados:

Matérias recentes: