A farsa contra o Irã e seus agentes no Brasil

A farsa contra o Irã e seus agentes no Brasil

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General Qasem Soleimani, assassinado em um atentado terrorista promovido pelo USA. Foto: Banco de Dados AND

O assassinato do general Qasem Soleimani teve como efeito colateral, no Brasil, a importação de uma farsa geopolítica que vitima a Argentina e o Irã há 26 anos. Já no dia do crime (03/01), Jair Bolsonaro, a revista Veja e o jornal do Opus Dei (Gazeta do Povo) o acusaram pela morte de 85 pessoas no atentado a bomba contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) e a Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA), ocorrido em 1994.

Soleimani nunca figurou entre os dignitários iranianos acusados por esse crime. E eles são inocentes.

Nenhuma organização ou Estado em luta contra Israel jamais teve como alvo a comunidade judaica de país algum. No Irã, vivem milhares de judeus. Mesmo sem ter, numa teocracia, igualdade de direitos com os muçulmanos, eles têm representação no parlamento, escolas públicas adaptadas à sua crença e até direito a consumir, para fins religiosos, álcool – um tabu para o islã.

Em 2004, o jornalista argentino Horacio Verbitsky denunciou com provas que os governos da Argentina e de Israel haviam combinado direcionar as investigações. Seus colegas e compatriotas Juan José Salinas e Daniel Schnitman, que conhecem o assunto em profundidade, são taxativos ao negar a responsabilidade iraniana. (O site de Salinas, Pájaro Rojo, é a melhor fonte sobre o tema).

Embaixador de seu país na Argentina à época do atentado, o hoje secretário geral da Organização de Cooperação Econômica, Hadi Soleimanpour chegou a ser preso em Londres em 2003. Constatando a inconsistência das “provas” contra ele, um tribunal inglês negou sua extradição à Argentina, o pôs em liberdade e condenou o Reino Unido a indenizar o Irã por sua prisão.

O juiz que pedira sua extradição, Juan José Galeano foi demitido em 2005 e condenado, em 2019, a seis anos de cadeia por manipular o processo. Também foram sentenciados à prisão dois promotores do caso, Eamon Mullen e José Barbaccia, e o chefe dos serviços de inteligência argentinos à época do atentado, Hugo Anzorreguy. Presidente da DAIA à época, o ex-banqueiro Ruben Beraja também foi processado por desviar a investigação, mas absolvido por falta de provas.

Beraja teria aplicado um golpe em dois traficantes internacionais de armas e drogas com quem fazia negócios: Monzer Al Kassar (sírio) e Ghaith Pharaon (saudita), ensejando a represália que é uma das hipóteses plausíveis sobre o atentado. (A outra é que os serviços secretos israelenses o teriam cometido. Soa fantasiosa por todos os ângulos, menos os que mais comumente levam à resposta sobre mistérios desse tipo: cui bono e o perfil dos mortos: havia trabalhadores manuais ou administrativos de baixa hierarquia, estudantes e transeuntes; nenhum dirigente).

Após revelada a farsa do primeiro processo e revogadas pela Interpol as ordens de captura internacional, o novo juiz do caso, Rodolfo Canicoba Corral decretou, em 2007, a prisão de um ex-ministro-chefe da inteligência iraniana, dois generais da Guarda Revolucionária e dois diplomatas. A Interpol acatou esses novos pedidos, rechaçando apenas os relativos a Soleimanpour, ao ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani e ao ex-chanceler Ali Akbar Velayati.

Canicoba fez isso a pedido do promotor Alberto Nisman, cuja subordinação ao aparato de inteligência argentino – que, por sua vez, agia por delegação do Mossad e da CIA – foi revelada pelo Wikileaks. Em 2016, Verbitsky publicou o número da conta de Nisman num banco israelense no Uruguai, as datas e valores de 12 transferências recebidas entre 2010 e 2014, totalizando US$ 282 mil. O remetente era o jornal Israel Ayan, de Sheldon Adelson – membro ativo do lobby sionista nos EUA e sócio do fundo de investimentos NML, que, na mesma época, litigava contra a Argentina para cobrar pelo valor de face títulos de dívida adquiridos por centavos.

No início de 2015, Nisman processou a então presidenta Cristina Fernández de Kirchner; seu chanceler, Héctor Timerman; e mais seis pessoas, acusando-os de acobertar os iranianos. Além de resistir a pagar as centenas de milhões de dólares pleiteadas pelo NML, Cristina e Timerman haviam assinado, em 2013, um acordo com o Irã para que uma comissão tomasse depoimentos em Teerã – solução inspirada na do caso Lockerbie entre Inglaterra e Líbia.

Em sintonia com o interesse israelense de não esclarecer nada, Nisman alegou que o acordo visava assegurar a impunidade dos persas. Segundo ele, Cristina e Timerman estariam tentando revogar as ordens de captura da Interpol – algo desmentido por seu então diretor, o estadunidense Ronald Noble, que, há 5 anos, tenta ser ouvido pelos juízes argentinos como testemunha. Em troca, também segundo o promotor, o Irã forneceria petróleo à Argentina – que é autossuficiente.

Dias depois, Nisman apareceu morto – que se saiba, por mão própria. A então deputada Patricia Bullrich acusou um “comando misto venezuelano-iraniano treinado em Cuba” de tê-lo matado. Convém desconfiar de suicídios em meio a tramas de poder, mas, se Nisman foi assassinado, o critério cui bono aponta noutra direção.

Só o interesse geopolítico israelense e estadunidense extraiu dividendos da morte de Nisman. Nos 4 anos seguintes, com Bullrich, como ministra da Segurança de Maurício Macri, a CIA e o Mossad aprofundaram sua presença na Argentina, conseguiram que o país passasse a tratar oficialmente o Hesbolá como organização terrorista e incrementaram a vigilância e a perseguição às comunidades árabes e muçulmanas em Buenos Aires e na tríplice fronteira.

Essas informações não chegam ao leitor brasileiro, exposto a fabulações como a de que Soleimani teria arquitetado a morte de Nisman, publicada no UOL por Diego Schelp. Os jornalistas brasileiros que escrevem sobre o tema atuam como agentes da contrainformação israelense. Uns, de modo discreto, como Sylvia Colombo, da Folha de São Paulo – que omite persistentemente informações como as publicadas por Verbitsky, amplamente conhecidas na Argentina, onde mora. Outros, de forma demasiado clara, como Mario Chimanovitch – que, já em 1994, propagava a acusação contra o Irã na revista Quanto É?, perdão, IstoÉ, e, em 2013, clamava, na mesma Folha, por uma lei antiterrorista no Brasil invocando o caso AMIA.

Bombeiros e equipes de resgate procuram sobreviventes entre os escombros do centro da Comunidade Judaica em Buenos Aires, depois de um carro-bomba destruir o edifício em 18 de julho de 1994. Foto: AP

Notas:

Uma foto do cabograma remetido por Otegui ao ministério de Relações Exteriores argentinos pode ser vista em https://www.elcohetealaluna.com/nisman-y-los-buitres/. Ver também https://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-38318-2004-07-18.html 

ttp://pajarhorojo.com.ar/?cat=5

 https://www.publico.es/internacional/nisman-fiscal-desenmascarado-wikileaks.html 

https://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-291002-2016-01-24.html e https://www.elcohetealaluna.com/nisman-y-los-buitres/

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1250952-brasil-permanece-sem-estrategia-antiterror.shtml 

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