Altos oficiais da ativa redigiram carta para pressionar comandante do Exército à ruptura institucional aberta

Em 2022, generais do Exército buscaram descredibilizar a carta ao considerá-la “apócrifa” e assinada majoritariamente por militares da reserva. Agora, a primeira evidência sobre a carta comprova que a redação da carta, ou seja, a principal iniciativa por trás do documento, na verdade o documento foi obra de altos oficiais da ativa.

Altos oficiais da ativa redigiram carta para pressionar comandante do Exército à ruptura institucional aberta

Em 2022, generais do Exército buscaram descredibilizar a carta ao considerá-la “apócrifa” e assinada majoritariamente por militares da reserva. Agora, a primeira evidência sobre a carta comprova que a redação da carta, ou seja, a principal iniciativa por trás do documento, na verdade o documento foi obra de altos oficiais da ativa.
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Ao menos dois coronéis da ativa redigiram uma carta divulgada no final de 2022 com o objetivo de pressionar o então comandante do Exército reacionário, Freire Gomes, a mobilizar as tropas para a culminação do golpe militar escancarado. Os nomes dos altos oficiais, descobertos a partir de metadados dos aparelhos confiscados de Mauro Cid, são Giovani Pasini e Alexandre Castilho Bitencourt da Silva. Com a nova informação, fica ainda mais explícita a participação de militares da cúpula da força da ativa na agitação e articulação golpistas, diferente da versão “legalista” que o Alto Comando das Forças Armadas propagandeia sobre as tropas.

Ambos os coronéis possuem uma carreira de longa data. Pasini foi aluno da Academia Militar das Agulhas Negras em 1997, onde se formou como oficial de artilharia. Em 2022, pediu licença da força para tentar ser deputado estadual no Rio Grande do Sul. Derrotado, voltou à Força até fevereiro de 2023, quando passou à reserva. Alexandre Bitentcourt se formou no mesmo ano que Pasini, também na Aman. Ele está na ativa até hoje e trabalha no Departamento-Geral de Pessoal do Exército. 

Coronel Giovani Pasiani e coronel Alexandre Castilho Bitencourt da Silva. Foto: Reprodução/Revista Fórum

A carta redigida pelos coronéis foi escrita e divulgada após as eleições, quando completavam-se quase um mês da montagem de acampamentos bolsonaristas na frente de quartéis do Exército pelo País, além das agitações de extrema-direita dos “galinhas verdes” por meio de bloqueios de ruas e ações explosivas. 

Na época, o jornal monopolista Folha de São Paulo entrou em contato com generais do Exército, que buscaram descredibilizar a carta ao considerá-la “apócrifa” e assinada majoritariamente por militares da reserva. Os generais afirmaram também que o conteúdo não correspondia com “o pensamento majoritário hoje na tropa”. Nenhuma prova foi apresentada para corroborar a afirmativa do generalato, uma vez que as assinaturas eram secretas. Agora, a primeira evidência sobre a carta comprova que a redação da carta, ou seja, a principal iniciativa por trás do documento foi, na verdade, obra de altos oficiais da ativa.

A responsabilidade do Alto Comando

Não há dúvidas de que, em muitos momentos-chave da agitação golpista de extrema-direita, os generais da reserva prestaram um papel central como porta-vozes do intervencionismo militar e até mesmo como pressionantes para a culminação do golpe mais célere e aberto. Foi o caso de figuras como Villas-Bôas, Augusto Heleno e, nos últimos anos, Braga Netto.

Mas isso não significa que a cúpula militar da ativa tenha se isentado da articulação golpista, muito menos que seja “legalista”. O último mês revelou que generais do Alto Comando do Exército como Estevam Theophilo, ex-chefe do Comando de Operações Terrestres, estavam inteiramente por dentro dos planos de ruptura institucional e pretendiam até mesmo comandar tropas durante o golpe – parte delas, oriundas dos kids preto, as Forças Especiais do Exército reacionário. É óbvio que, quem comanda e aceita participar de um golpe, está certo que tem tropas dispostas a pegar em armas e serem comandadas, o que põe em xeque a versão de alguns generais sobre “o pensamento majoritário hoje na tropa”. 

Generais só diferenciam-se em como fazer e quando fazer a intervenção. Foto: Reprodução

Afinal, no mesmo período em que a carta dos coronéis foi emitida, os comandantes das três forças militares reacionárias emitiram uma carta aberta que legitimava as mobilizações na frente dos quartéis que exigiam um golpe militar, em uma clara tentativa de disputar a base bolsonarista para seus próprios planos golpistas e manter a unidade das tropas. Eles sabiam que, nos quartéis, a disputa entre os planos de golpe da direita militar (um intervencionismo velado nas instituições) e da extrema-direita estava acirrada. Em muitas partes do país, o Exército também forneceu apoio logístico aos acampamentos.

Não há inocentes no Alto Comando das Forças Armadas. A responsabilidade dos generais oscila entre a daqueles que queriam uma ruptura aberta, como propunha a extrema-direita, e se mobilizaram ativamente para isso, e a dos à lá Freire Gomes, que preferiam uma intervenção militar velada, por trás das cortinas (respeitando, assim, as ordens do imperialismo norte-americano por não romper a “ordem institucional”), e que, por isso mesmo, não denunciaram seus pares que levavam adiante a agitação golpista, pois entre eles há diferenças apenas de como fazer e quando fazer a intervenção. Enfim, não há “ala legalista”: há apenas golpistas.

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