AM: Imperialismo avança com o lobby para mineração em TI

Governo amazonense apresentou ata de reunião com suposto apoio indígena para megaprojeto em TI, mas documento foi desmentido por lideranças locais.

AM: Imperialismo avança com o lobby para mineração em TI

Governo amazonense apresentou ata de reunião com suposto apoio indígena para megaprojeto em TI, mas documento foi desmentido por lideranças locais.
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No dia 25 de setembro, o governador do estado do Amazonas Wilson Lima (União Brasil) juntamente com uma comissão política e empresarial se reuniram com indígenas da etnia Mura em um encontro no qual foi entregue uma ata de assembleia sinalizando um suposto apoio dos povos indígenas da etnia à mineração de potássio na Aldeia Soares, TI do município de Autazes, localizado a 118 km de distância de Manaus. A ata, contudo, foi desmentida pelos indígenas, que negam qualquer tipo de apoio ao empreendimento.

O governador do Amazonas declarou ao monopólio da imprensa local que “a gente está falando aqui de uma outra matriz econômica no estado do Amazonas. Nós temos a Zona Franca, nós não abrimos mão dela, temos a questão do gás natural, que a gente já conseguiu avançar muito, e o próximo passo é agora a questão do potássio”.

O prefeito de Autazes, Anderson Cavalcante (PSC), que também esteve presente na reunião, já afirmou diversas vezes que, caso o projeto seja aprovado, o município ficará rico. Afirmações como essas são comuns na instalação de megaprojetos, que geram grandes riquezas que ficam restritas aos poucos latifundiários ou grandes empresários envolvidos no projeto, em detrimento da piora das condições de vida das massas populares locais.

Localização de projeto em TI. Foto: Amazonia Real

Esse documento representaria um sinal verde ao “Projeto Autazes” da empresa Potássio Brasil Ltda que estava presente na reunião e ansiando há anos por essa “autorização” dos povos originários daquela região.

Esse posicionamento, entretanto, foi de imediato revertido. Segundo a agência de jornalismo investigativo Amazônia Real, o Tuxaua Sérgio Nascimento, liderança da Aldeia Soares, nega de forma resoluta que há apoio à mineração vinda dos povos da região. No mesmo dia da reunião, na segunda-feira, a liderança indígena questionou por meio de carta esse posicionamento tomado à revelia pelas lideranças do povo Mura.

Juntamente com mais 5 lideranças locais do povo Mura, Sérgio enviou essa semana ao MPF um documento onde explicita que os povos da região “não pactuam com qualquer questão aprovada por trás das costas, onde nem a aldeia nem o tuxaua foram comunicados”.

Indígenas Tuxaua Sergio e Vava. Foto: Amazonia Real

Seria uma abordagem superficial, entretanto, entender esse fato enquanto apenas uma divergência entre os povos indígenas sobre um tema polêmico. Sendo assim, é necessário conduzir uma análise mais a fundo de que interesses se escondem por trás desse projeto.

Projeto nacional, interesses do imperialismo

O presidente atual da empresa Potássio Brasil, Adriano Espeschit, ressaltou, durante a reunião governamental, que o Brasil é extremamente dependente da produção do minério e se vê obrigado a comprar de países imperialistas mesmo tendo vastas reservas em seu território. Seriam, porém, interesses verdadeiramente nacionais que movem esse empreendimento?

Ao investigar a fundo a empresa Potássio do Brasil Ltda, vê-se que “do Brasil” é apenas um nome artístico. A empresa teve início em 2009 e, em seu próprio site oficial, afirma ser controlada por “investidores brasileiros e estrangeiros”.

O que não se fala no site, mas que a pesquisa do portal Capital Reset aponta é que na verdade a Potássio do Brasil Ltda foi fundada por uma empresa canadense de nome Forbes&Manhattan.

Os diretores da F&M se consagraram no mercado mundial da mineração com duas décadas de trabalho, identificando em países estrangeiros (muitos deles, semicoloniais, como o caso do Brasil) pontos estratégicos de mineração, realizando lobbys governamentais para a exploração econômica e abrindo o seu capital ou vendendo a grandes investidores.

No caso do chamado “Projeto Autazes”, já há uma série de interesses de países imperialistas disputando o lucro. Até 2022 foram investidos US$ 200 milhões e estima-se que, uma vez concluído o projeto, a empresa passará a valer de US$ 5 à US$8 bilhões.

Os investidores estrangeiros são muitos: além da própria F&M, que mantém controle de 14% dos fundos de investimento, destaca-se também a CD Capital, um fundo londrino especialista em mineração com 34% das ações e com 23% o The Sentient Group, mais um fundo canadense com foco em recursos minerais.

Com relação aos investidores brasileiros, têm-se dois conglomerados manauaras que disputam pelas migalhas dos lucros frutos dessa exploração. Esses são: o Grupo Simões – considerado o maior conglomerado empresarial da região norte do Brasil – assim como a Família Benchimol, fundadores da rede varejista Bemol que contam com 3% e 4% das ações, respectivamente.

A investigação do Portal Reset avança ainda ao apontar que possivelmente haverá envolvimento cada vez maior de empresas estatais chinesas, em especial a Citic, que em 2021 assinou um contrato para construção do complexo.

O latifúndio brasileiro, vinculado e submisso desde sempre ao imperialismo, também busca sua fatia das riquezas nacionais. O ex-ministro da agricultura de Michel Temer e latifundiário Blairo Maggi, conhecido popularmente como “Rei da Soja”, já declarou à Reuters em 2022 “estar interessado no projeto”.

Cooptação de lideranças indígenas

Como fica claro, há interesses poderosos no que diz respeito a fazer com que esse projeto aconteça e a velha política do imperialismo perpassa não somente a questão econômica, mas desenvolve seus próprios colaboradores na política, em especial, achando seus aliados dentre as oligarquias locais.

O já citado pelo AND, presidente estadual do Partido dos Trabalhadores no Amazonas e Deputado Estadual Sinésio Campos, não deixaria de influenciar nessa história, pois é um dos políticos locais que mais se destaca no que diz respeito ao lobby de mineração em áreas indígenas.

Sinésio, além de ser um dos presentes na reunião do governo citada anteriormente, representa essa voz de apoio irrestrita à exploração predatória dos territórios amazônicos, independente dos impactos causados aos indígenas e camponeses que lá habitam há décadas. O político petista é historicamente acusado por movimentos sociais de cooptar indígenas nos interiores do estado em prol de forjar um suposto clamor por essas pautas.

Essa cooptação, porém, não para por aí. A própria empresa tem feito dezenas de promessas, mas sem dar nenhuma garantia, quando as promessas não são o suficiente, os moradores do local afirmam que a empresa passa para assédio e ameaças. Espeschit, presidente da companhia, afirma a todo o momento que na realidade não há terra indígena na região, apenas “alguns ribeirinhos”, segundo ele.

Espeschit, na reunião com as lideranças e o governo no dia 22/09 afirmou de forma resoluta: “O que a gente pede a vocês é o seguinte: vocês aprovando esse projeto, não pode haver criação de terra indígena. Se aprovar e criar a terra indígena, vai inviabilizar do mesmo jeito. O que a empresa vem trazer para vocês… a gente assumiu o compromisso de adquirir … essa parte é muito importante.. de comprar uma área dez vezes mais do que a gente vai ocupar a superfície. Aquela área da planta e do porto vai dar 500 hectares. Nós estamos assumindo compromisso de comprar 5 mil hectares. E esses 5 mil hectares estariam disponíveis, a partir de hoje, se vocês votarem favoráveis, ao plano Bem Viver Mura, caso vocês aprovem o projeto”

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
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