Armênia: entre três senhores e nenhuma garantia

Há poucos dias surpreendeu a declaração do chefe de governo da República do Artsaque encerrando a independência política de facto do enclave armênio nas montanhas do Cáucaso depois de trinta anos de resistência contra os interesses azeris nas montanhas do Carabaque.

Armênia: entre três senhores e nenhuma garantia

Há poucos dias surpreendeu a declaração do chefe de governo da República do Artsaque encerrando a independência política de facto do enclave armênio nas montanhas do Cáucaso depois de trinta anos de resistência contra os interesses azeris nas montanhas do Carabaque.
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Há poucos dias surpreendeu a declaração do chefe de governo da República do Artsaque encerrando a independência política de facto do enclave armênio nas montanhas do Cáucaso depois de trinta anos de resistência contra os interesses azeris nas montanhas do Carabaque. Esta declaração ocorreu após a última ofensiva vitoriosa do Azerbaijão em setembro contra o território remanescente da República do Artsaque que destruiu suas defesas, adentrando em seu território sem ser parado sob protestos armênios.

A República do Artsaque, ou República do Nagorno-Karabakh (até 2018), ou República do Alto Carabaque, é um estado não-reconhecido pela comunidade internacional resultado de um levantamento da população local de maioria armênia e cristã ortodoxa oriental contra a recém-fundada República do Azerbaijão de maioria azeri (etnia turca) e islâmica xiita no rescaldo da dissolução da União Soviética. A partir deste momento todo o Cáucaso, que historicamente sempre possuiu grande diversidade étnica e cultural, se viu dividido em três estados (Geórgia, Armênia e Azerbaijão), que outrora fazendo parte de estados multiétnicos como foi a URSS e os impérios antigos, buscaram afirmar sua identidade na homogeneidade da etnia e religião. Assim a dispersão dos povos caucasianos pela região, resultado de relações não-sectárias entre seus povos, se tornou um elemento de conflito. 

Os conflitos entre armênios e azeris começaram a aparecer na década de 1980 quando, por resultado nas malfadada (mesmo para os espúrios objetivos) Perestroyka e Glasnost, ressurgiu o nacionalismo chauvinista no seio dos povos que compunham a URSS. Esses passaram a disputar a posse de territórios mesmo antes da independência política das Repúblicas Socialistas Soviéticas – RSS que passaram a disputar os territórios, criar bloqueios econômicos e milícias étnicas além de favorecer pogroms. Com a independência política, o conflito intercomunitário ganhou a qualidade de conflito internacional. 

Na primeira guerra do Carabaque iniciada em 1988 pelas milícias étnicas e concluída em 1994, resultou numa condição favorável à Armênia. No cessar fogo, mediado pelo Grupo de Minsk (USA, Rússia e França) a maior parte do território do Alto Carabaque se tornou território da República do Nagorno-Karabakh (que em 2018 trocou de nome para República do Artsaque), independente politicamente de facto, mas sem reconhecimento internacional, apoiada pela Armênia, enquanto o Azerbaijão foi forçado a recuar, embora não reconhecesse o resultado do conflito e reivindicava a totalidade do Alto Carabaque como seu território.

O conflito permaneceu praticamente congelado entre 1994 e 2020, hora ou outra, eclodindo pequenas escaramuças nas zonas de fronteira. Com o desmoronamento da esfera de influência russa através de distúrbios pró-USA na Geórgia, Ucrânia e Armênia e o recrudescimento do expansionismo da Turquia sob Erdogan no Oriente Médio, o Azerbaijão viu uma condição favorável para descongelar a guerra com o vizinho. A aproximação entre Turquia e Azerbaijão, reforçada no chauvinismo pan-túrquico de seus mandatários, Erdogan e Aliyev, como do último com Israel, foi essencial para o rearmamento azeri para a retomada da guerra. Nos conflitos entre 2020-2023, foi evidente o uso de armamento turco (entre eles o temido drone Bayraktar) e mercenários sírios jihadistas (rebeldes sírios anti-Assad patrocinados pela Turquia) pelo Azerbaijão contra a Armênia e o Artsaque. 

No entorno do Cáucaso as relações são complexas. A princípio “defensora” da Armênia no Cáucaso pelo tratado da OTSC – Organização do Tratado de Segurança, a Rússia, concentrada na Ucrânia e na Síria abriu mão de defender o aliado, que desde 2017 também apresentava dubiedade em sua fidelidade, ao se aproximar dos USA e União Europeia. Moscou, envolvida na guerra da Ucrânia e Síria, não estava disposta a abrir uma nova frente de batalha no Cáucaso e, a despeito seu desinteresse na guerra entre seus dois vizinhos, após o esgotamento da via diplomática-dissuasória resumiu sua intervenção à manutenção da abertura do Corredor de Lacchin entre Artsaque e a Armênia, então fechado pelo Azerbaijão, para evacuação da população armênia.

Ao Sul, o Irã interessado em conter o expansionismo do Azerbaijão que poderia levar a implicações com própria minoria azeri que habita o noroeste do país e também interessada de neutralizar a presença turca no Oriente Médio e Cáucaso, se manifestou favorável aos interesses armênios cristãos contra os correligionários xiitas do Azerbaijão, posicionando tropas na fronteira com este país.

Ao Oeste, a Turquia de Erdogan, que sonha com a restauração do poderio sultanesco sobre o Oriente Médio enquanto conduz operações militares na Síria, Iraque e Líbia, cobriu a aposta iraniana, aproveitando de sua importância geográfica que a torna essencial para o escoamento dos produtos russos pelo Mar Negro que garantiria a não-intervenção de Moscou em um possível conflito turco-iraniano.

Já a França de Macron que há pouco havia reconhecido a independência de Artsaque (2020), quando nem mesmo a Armênia ou a Rússia haviam feito, diante de sua invasão pelas tropas azeris, pouco fez senão lamber suas próprias feridas da crise social interna e do colapso da Françafrique

Por fim, nenhum dos supostos aliados da Armênia ou Artsaque moveu uma pena na defesa daqueles armênios que emigram às dezenas de milhares para República da Armênia através do Corredor de Lacchin mantido pela Rússia. A própria República Armênia, aliás, sem contar com o apoio externo e inferior militar, econômica e militarmente em relação ao Azerbaijão (e a Turquia), permanece inerte ao ataque azeri ao território de seus compatriotas. 

Mais uma vez, como na Anatólia Oriental há cem anos atrás, os armênios recebem garantias das grandes potências imperialistas (na época dos USA de Wilson) de autodeterminação e são traídos. Durante a Grande Guerra (1914-1918) e os conflitos que seguiram a dissolução do Império Russo e Império-Turco Otomano (1917-1923), o regime militar de Enver Pasha, que governou o Império Otomano em nome do sultão-califa decorativo Mehmed VI, realizou um brutal genocídio (ainda não reconhecido na Turquia) contra a população armênia na Anatólia levando a sua erradicação na península com o beneplácito das potências aliadas que haviam prometido um estado armênio se estendendo do Mar Negro ao Cáucaso para os nacionalistas burgueses armênios. Até hoje o único país a favorecer a autodeterminação ao povo armênio foi a URSS (em 1920 com a criação da RSS Armênia dentro da URSS).

Hoje, enquanto a maioria esmagadora da população armênia do Artsaque foge através do corredor de Lacchin para a República da Armênia temendo uma nova limpeza étnica com o beneplácito azeri-turco, um novo quadro se pinta no Cáucaso:

A hegemonia da Rússia sob a cordilheira, reafirmada na invasão à Geórgia de 2008, se revelou frágil quando Moscou, atolada na Ucrânia, não conseguiu dissuadir uma guerra em seu próprio “quintal” e nem mesmo responder ao ataque de mísseis azeris que abateu “acidentalmente” algumas de suas tropas “de paz” em Lacchin.

Como na geopolítica não existe espaço vazio, decerto a percepção do enfraquecimento russa na região atrairá à cobiça de outras potências, provavelmente da OTAN e provavelmente a estratégia dos ianques.

A Turquia, satisfeita com mais um lance de “grande potência” bem sucedido –  necessário para fortalecer o regime fascistizante de Erdogan, diante da crise econômica interna e migratória em suas fronteiras em muito resultado de sua política externa favorável a desestabilização do Oriente Médio – provavelmente não se fará satisfeita com fortalecimento do aliado e tentará explorar outra oportunidade de “conquistas” externas. 

A Armênia, que desde 2017 caminha para aproximação aos USA e União Europeia, ainda mais desiludida com a “proteção” da Rússia, poderá se aproximar ainda mais das potências da OTAN para contrapor o cerco turco-azeri que, por sua vez, deverá se concentrar no corredor de Zangezur que hoje separa o território contíguo do Azerbaijão do seu enclave de Nakichevan, que faz fronteira com a Armênia e Turquia. Com a possível conquista deste corredor seria possível conectar Ancara e Baku sem passar pelo território armênio, como cortar uma passagem estratégica entre Irã, Armênia e Rússia. A OTAN, por fim, a maior beneficiária da guerra no Cáucaso, também não será um aliado fiel a Armênia, pois depende da Turquia para sua política de contenção à Rússia e do petróleo do Azerbaijão cujos gasodutos passam pela Geórgia e Turquia antes de chegar à Europa.

Sem mais delongas sobre os infortúnios do povo armênio, no Artsaque como em sua própria república residual, cabe aos povos oprimidos do mundo os seguintes aprendizados sobre o ocorrido:

  1. “O poder nasce da boca do fuzil” afirmava um sábio chinês. Apesar da simpatia conquistada pela defesa do Artsaque contra os ataques azeris, geralmente capitaneada pela sua numerosa população em diáspora, entre elas do ex-vocalista da banda System of Down, o armênio-estadunidense Serj Tankian, esta não foi efetiva em impedir o ataque azeri. 
  2. A geopolítica sob o regime imperialista é indiferente a detalhes de ordem cultural quando não servem aos seus objetivos verdadeiros. De pouco valeu o fato da Armênia e Artsaque serem repúblicas democráticas sob modelo ocidental e religiosamente cristãs (inclusive a Armênia foi o primeiro país do mundo a se converter ao cristianismo, antes mesmo do Império Romano) e o Azerbaijão ser uma “autocracia” (na linguagem estadunidense) islâmica xiita para conquistar algum apoio militar na comunidade internacional. É um bom aprendizado para os idealistas, sejam aqueles que consideram a Rússia a defensora da ortodoxia ou os USA e a França os defensores da democracia. 
  3.  Nem os USA, nem a Rússia e nem a França defenderão a Armênia ou o povo armênio no Artsaque se não for de seu interesse próprio. Decerto uma boa diplomacia é desejável para a manutenção da paz em suas fronteiras, mas é ainda melhor a existência de um poder militar que sustente a dissuasão a possíveis agressores e a independência frente aos jogos de poder das grandes potências.

Também evoca aprendizados aos povos oprimidos outro acontecimento ocorrido no Cáucaso há pouco mais de 100 anos, em Baku, capital do Azerbaijão. Lá mesmo, de onde ecoam os devaneios pan-turquistas de Aliyev-Erdogan, comunistas e militantes da libertação nacional de inúmeras nações, inclusive, armênios e azeris, planejavam juntos ações para fazer garantir sua autodeterminação e integridade territorial de suas nações.


¹ A Turquia controla desde 1453 os estreitos de Bósforo e Dardanelos que ligam o Mar Negro ao Mar Mediterrâneo.

² Países da África Ocidental que mesmo após independência na década de 1960 permanecem vinculados à França por laços coloniais na emissão de moedas e manutenção de bases militares francesas. 

³  A invasão russa à Geórgia em 2008 foi seguida da rápida capitulação desta e da cessão de facto dos seus territórios separatistas Abecásia e Ossétia do Sul à ocupação russa

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