Bloqueio de estrada isola Terra Indígena Paquiçamba em meio a impasse fundiário arrastado há décadas pelo velho Estado

Posseiros, camponeses assentados e proprietários que vivem há décadas na região contestam a ampliação do território Yudjá; o impasse fundiário deixado pelo velho Estado é explorado por setores latifundiários e bolsonaristas para arregimentar essas famílias contra os indígenas e jogar “massas contra massas”.
Moradores da Gleba Paquiçamba questionam equipe da Funai, acompanhada pela Força Nacional, durante a retomada dos trabalhos de demarcação em 21 de setembro, em Vitória do Xingu (PA). (Foto: Reprodução/A Voz do Xingu)
Moradores da Gleba Paquiçamba questionam equipe da Funai, acompanhada pela Força Nacional, durante a retomada dos trabalhos de demarcação em 21 de setembro, em Vitória do Xingu (PA). (Foto: Reprodução/A Voz do Xingu)
Moradores da Gleba Paquiçamba questionam equipe da Funai, acompanhada pela Força Nacional, durante a retomada dos trabalhos de demarcação em 21 de setembro, em Vitória do Xingu (PA). (Foto: Reprodução/A Voz do Xingu)

Bloqueio de estrada isola Terra Indígena Paquiçamba em meio a impasse fundiário arrastado há décadas pelo velho Estado

Posseiros, camponeses assentados e proprietários que vivem há décadas na região contestam a ampliação do território Yudjá; o impasse fundiário deixado pelo velho Estado é explorado por setores latifundiários e bolsonaristas para arregimentar essas famílias contra os indígenas e jogar “massas contra massas”.

Segundo denúncias veiculadas nas “redes sociais”, desde 23 de setembro está bloqueada a única estrada que dá acesso à Terra Indígena (TI) Paquiçamba, do povo Juruna (Yudjá), em Vitória do Xingu (PA), na região da Volta Grande do rio Xingu. A mobilização envolve famílias camponesas que contestam a ampliação da TI, parte delas estabelecida há décadas em lotes assentados ou titulados pelo próprio Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Com o bloqueio, os Yudjá estão impedidos de escoar sua produção e comprar alimentos na cidade, enquanto cerca de 60 estudantes do ensino médio não conseguem assistir às aulas. Até equipes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) estão impedidas de acessar a área.

A presença camponesa na Gleba Paquiçamba remonta a décadas. Muitos dos atuais moradores vieram de diferentes regiões do País e foram assentados. Estudos realizados ainda durante o licenciamento de Belo Monte registravam na gleba lotes de 50 a 200 hectares e presença majoritária de posseiros, revelando também diferenças no interior do próprio campesinato: os pequenos produtores viviam sobretudo do cultivo de arroz, milho, feijão e mandioca, enquanto produtores em melhores condições econômicas se dedicavam à produção comercial e à criação de gado.

É sobre essa composição heterogênea e sobre o conflito fundiário que o velho Estado brasileiro arrasta há décadas que atuam as organizações ruralistas e bandos bolsonaristas da região. Camponeses que vivem e trabalham em suas parcelas e temem perdê-las sem indenização ou outra solução concreta são reunidos, sob a denominação indistinta de “produtores rurais”, a proprietários mais capitalizados, grileiros e latifundiários. O conflito criado e arrastado durante décadas pelo velho Estado oferece, assim, terreno para que o latifúndio, particularmente seus setores bolsonaristas, arregimente parcelas do próprio campesinato contra os Yudjá, jogando “massas contra massas”.

LCP emite comunicado: ‘Os paramilitares bolsonaristas estão levando sua guerra covarde ao campo, é guerra o que eles vão ter!’ – A Nova Democracia
“Nós camponeses somos os palestinos do Brasil e lutamos contra um inimigo armado até os dentes; mas assim como o Povo Palestino, nossa luta é justa e venceremos inevitavelmente! Há exatos 75 anos, o povo chinês, em mais de 27 anos de guerra popular prolongada, derrotou três grandes inimigos que pesavam sobre o povo e a nação chinesa: o imperialismo, o capitalismo burocrático e o latifúndio feudal e semifeudal. Do mesmo modo, o povo palestino e o povo brasileiro, assegurarão a sua completa libertação, mesmo que a luta cobre muito tempo para se cumprir, nossa causa triunfará inevitavelmente!”, declara a LCP
anovademocracia.com.br

Essa composição apareceu concretamente em um protesto realizado em 15 de maio diante da sede da Funai, em Altamira. Cerca de 200 proprietários rurais e representantes de sindicatos e associações participaram da reunião, entre eles famílias que afirmaram viver na região havia mais de 40 anos e ter sido assentadas pelo próprio Incra. Reportagem de Sumaúma registrou no mesmo ato pequenos e médios agricultores, latifundiários e grileiros e afirmou que a mobilização era liderada pelo Sindicato Rural de Altamira (Siralta). A Associação dos Produtores Rurais da Volta Grande do Xingu (Apropavix), que ingressou no sistema judiciário contra os trabalhos de demarcação, diz ter entre suas finalidades “apoiar e capacitar pequenos produtores rurais”. 

Em 6 de junho, o Fórum da Transamazônica, organizado pelo Siralta e pelo movimento Direita Xingu, reuniu dirigentes ruralistas, políticos e nomes da direita e da extrema direita e serviu também para mobilizar a posterior visita do candidato reacionário Flávio Bolsonaro (PL) a Altamira. A recepção ao “Rachadinha” foi convocada, entre outros, pelo influencer bolsonarista Thiago Freitas e pelo Direita Xingu, do publicitário Marth Uchôa. 

Pistolagem a soldo do latifúndio

Em julho, o monopólio de imprensa Folha de S.Paulo informou que a atuação de pistoleiros a soldo do latifúndio estava comprometendo a demarcação da TI e ameaçando a integridade dos indígenas, servidores e técnicos responsáveis pelo processo. Diante das ameaças, a Funai registrou ocorrência na Polícia Federal (PF) de Altamira. No dia 12 de maio, um servidor do órgão denunciou que latifundiários foram à sede da Funai para tentar descobrir onde a equipe de demarcação passaria a noite e, em tom de ameaça, afirmaram que havia pistoleiros na região.

Editorial – Governo é cúmplice da guerra bolsonarista no campo – A Nova Democracia
A ofensiva do latifúndio bolsonarista contra as massas camponesas, indígenas, ribeirinhos e quilombolas, na busca insana por abocanhar enormes porções de terras devolutas ou de preservação, é uma luta armada contra o povo, sob os auspícios do governo de turno, que nada faz
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Somam-se também a esses bandos paramilitares agentes das forças de repressão do velho Estado. Há registros de policiais atuando lado a lado com pistoleiros, como na macabra chacina de Pau D’Arco (PA), onde dez camponeses foram sumariamente executados numa operação das polícias Civil e Militar em 2017, ou trabalhando a soldo de latifundiários para expulsar comunidades. Na região do Xingu, o delegado Ivan Pinto da Silva, que chefiou a Delegacia de Conflitos Agrários (Deca) de Altamira foi investigado por suspeita de conduzir ao menos oito despejos ilegais, violentos e sem ordem judicial, incluindo ações em Anapu e São Félix do Xingu. A Repórter Brasil também documentou a presença de policiais da ativa e aposentados em empresas de “segurança privada” contratadas por fazendeiros em conflitos rurais no Pará.

A disputa territorial, por sua vez, vem de muito antes dos atuais confrontos. Situada na área de influência direta da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, a TI Paquiçamba sofre severas alterações no regime de vazão do Xingu, que atingem diretamente a pesca, a navegação e a subsistência dos Yudjá. A área original da TI, com 4.348 hectares, foi homologada em 1991. Os Yudjá passaram a exigir, a partir de 2000, a revisão dos limites por considerarem que a demarcação havia excluído ilhas e outras áreas essenciais às suas atividades produtivas. Em 2012, a Funai aprovou novos estudos propondo a ampliação para cerca de 15,7 mil hectares, e a nova área foi declarada pelo Ministério da Justiça em 2014. A demarcação física começou em 2023, mas foi interrompida diante de ameaças e obstruções e retomada em 2026.

Moradores da Gleba Paquiçamba protestam contra a ampliação da Terra Indígena em setembro. Famílias da região afirmam viver há cerca de quatro décadas em lotes assentados ou titulados pelo Incra. Foto: Reprodução/A Voz do Xingu

Velho Estado arrasta impasse e fortalece o latifúndio

A responsabilidade do próprio velho Estado burocrático-latifundiário aparece de forma ainda mais evidente na solução jamais executada para essa sobreposição fundiária. De um lado, os Yudjá reivindicam a recomposição de um território cuja primeira demarcação deixou de fora áreas reconhecidas posteriormente pela Funai como de ocupação tradicional; de outro, há famílias camponesas que foram assentadas, tituladas ou permaneceram durante décadas em parcelas da mesma região. A promessa de solução estatal para essa sobreposição tampouco é nova: em 2015, a Funai já registrava como necessária à Paquiçamba a “desintrusão completa, com indenização de benfeitorias dos ocupantes de boa-fé e reassentamento dos clientes da reforma agrária”.

Mais de uma década depois, a medida permanece sem execução. O levantamento fundiário foi concluído em 2016 e reconheceu como de boa-fé 33 das 36 ocupações não indígenas identificadas, mas uma nota técnica de 2020 registrou que, apesar de haver autorização para o pagamento das indenizações, o processo não havia avançado. Naquele ano, a própria Funai informou que as indenizações sequer haviam entrado em seu planejamento anual.

Enquanto prolonga essa irresolução, o velho Estado brasileiro fortalece o latifúndio agroexportador e despeja benesses como o Plano Safra: em 2026, o programa destinou R$ 525,1 bilhões à chamada “agricultura empresarial”, dos quais R$ 452,5 bilhões foram destinados aos grandes latifundiários e cooperativas, contra R$ 72,6 bilhões à categoria oficial dos “médios produtores”.

Esse financiamento estatal fortalece o peso econômico do latifúndio e alimenta a valorização das terras, acirrando a disputa fundiária e a sanha por expandir suas fronteiras mediante a expulsão e a violência reacionária contra camponeses, indígenas e quilombolas. A contradição de classes no campo não opõe os Yudjá aos camponeses que vivem de seu próprio trabalho, mas as massas do campo ao sistema latifundiário, que concentra a terra, arregimenta em sua defesa setores do próprio campesinato e constitui a base semifeudal sobre a qual se desenvolve o capitalismo burocrático, subordinado ao imperialismo, principalmente ianque.

Não por acaso, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), organização combativa do campesinato brasileiro, ao defender a unidade entre a luta pela terra e a resistência dos povos originários, afirma que ambas “têm o mesmo inimigo comum e imediato: os latifundiários”. Em outra declaração, a Comissão Nacional das LCP afirmou que “as lutas dos Povos Indígenas se unirão cada vez mais com as lutas destas outras forças para a destruição dos latifúndios”. Para a organização, essa unidade deve reunir camponeses, indígenas e quilombolas contra o sistema latifundiário e convergir na Revolução Agrária. 

Não por acaso, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), organização combativa do campesinato brasileiro, ao defender a unidade entre a luta pela terra e a resistência dos povos originários, afirma que ambas “têm o mesmo inimigo comum e imediato: os latifundiários”. Em outra declaração, a Comissão Nacional das LCP reafirmou que “as lutas dos Povos Indígenas se unirão cada vez mais com as lutas” dos camponeses, quilombolas, da classe operária e dos demais trabalhadores das cidades, das mulheres do povo, dos estudantes e dos intelectuais honestos “para a destruição dos latifúndios”. Mais recentemente, a organização sintetizou essa convergência ao declarar que “só há um caminho para os camponeses, indígenas e quilombolas: é o caminho da Revolução Agrária”.

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