O Boletim Novo Brasil reúne, semanalmente, fatos da luta pela terra e da Revolução Agrária em curso no País.
Esta edição, referente à semana de 27 de julho a 2 de agosto de 2026, destaca a mobilização impulsionada pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP) do Norte de Minas e Sul da Bahia contra a tentativa de expulsar centenas de famílias para a implantação das etapas 3 e 4 do Projeto Jaíba. Em panfletos distribuídos na região, a organização lançou as palavras de ordem “Levanta Jaíba!”, “Ninguém tem que sair!” e “A expulsão de milhares de camponeses pobres, médios e grandes de Jaíba e Matias Cardoso não vai passar!”.
As manifestações realizadas em 27 de junho e 11 de julho congregaram comunidades, associações camponesas, irrigantes e outros trabalhadores que exigem a permanência na terra, a titulação definitiva e condições para continuar produzindo. A luta ocorre em uma região marcada pela heroica resistência de Cachoeirinha e pela retomada de terras promovida desde a década de 1990.

Também são destaque as mobilizações indígenas contra o Marco Temporal e o chamado PL da Devastação; o anúncio das comemorações dos 20 anos da Ponte da Aliança Operária e Camponesa; os 31 anos da Heroica Resistência Camponesa de Santa Elina, hoje inteiramente tomada pelas massas organizadas; o ataque que derrubou e incendiou casas de 22 famílias no Acampamento Chaparral II; os novos relatos que reconstituem a preparação do Massacre de Eldorado dos Carajás; e a ofensiva do governo Tarcísio para legalizar terras públicas griladas no Pontal do Paranapanema.
O boletim registra ainda a suspensão parcial das operações da Sigma Lithium após anos de denúncias no Vale do Jequitinhonha, o avanço do grande garimpo sobre terras públicas em Mato Grosso e as lutas dos povos Avá-Guarani, Tikmũ’ũn-Maxakali, Jaminawa, Kalankó e Guarani Nhandeva em defesa de seus territórios.
Confira a última edição do Boletim Novo Brasil:

‘Lutar pela terra que é deles’: camponeses se levantam contra expulsões no Projeto Jaíba
Pelo menos 380 famílias de Jaíba e Matias Cardoso, no Norte de Minas, estão ameaçadas de expulsão de terras onde muitas delas vivem e trabalham há mais de quatro décadas. A Codevasf pretende retirar as famílias sob o pretexto de implantar as etapas 3 e 4 do Projeto Jaíba.
A denúncia foi lançada pela LCP do Norte de Minas e Sul da Bahia no boletim “Levanta Jaíba!”. Segundo a organização, reuniões convocadas pela Codevasf não tiveram o objetivo de ouvir os camponeses, mas de comunicar sua retirada e pressioná-los a aceitar indenizações insuficientes. A LCP denunciou ainda a existência de investidores interessados em comprar as terras de sequeiro por preços reduzidos e lucrar com sua valorização depois da instalação da irrigação.

A revolta das famílias resultou em duas grandes mobilizações. Em 27 de junho, camponeses realizaram uma carreata e uma passeata com tratores, motocicletas, automóveis e faixas contra as expulsões. Um dirigente camponês defendeu que nenhuma família deixe as terras onde vive e produz: “Eu acho que é um absurdo. O pessoal está certo: não deve sair, não deve sair da terra. Os produtores não devem sair da terra. Devem continuar na terra para produzir, porque Jaíba vai perder muito tirando esses produtores da terra.”
“Há muitos anos a gente mora lá e agora vem a Codevasf querendo tomar conta do que a gente construiu”, denunciou uma participante. Outra camponesa relacionou diretamente a permanência das famílias ao abastecimento das cidades: “Tem que lutar por ela, lutar pela terra que é deles, para o plantio. Como é que o povo vai comer?”.

Em 11 de julho, representantes de cerca de 30 associações e comunidades voltaram às ruas de Jaíba. As famílias marcharam com faixas que afirmavam: “Lutar e produzir sempre, desistir jamais!”, “Terra para quem nela vive e trabalha!”, “Queremos segurança para produzir” e “Estamos na terra desde 1996. Exigimos o reconhecimento dos nossos direitos e o título definitivo”.
Participaram famílias de Serra Azul, Lagoa dos Patos, PA Canadá e de outras comunidades. Uma camponesa denunciou que as famílias do PA Canadá aguardam há 17 anos pela regularização das terras pelo Incra. Durante a marcha, um dirigente convocou a união dos camponeses com os demais trabalhadores e comerciantes do município:
“Vamos unir camponeses, comerciantes e trabalhadores em geral de Jaíba para defender o direito de todos os camponeses que produzem em suas terras de permanecer nelas. Vamos organizar todos para se somarem contra a ameaça de despejo das famílias camponesas de Serra Azul, para a ampliação das etapas 3 e 4 do projeto. Nós sabemos o que se comercializa na feira e o que se produz nesta cidade. Lutamos pelo direito de estar na terra, permanecer na terra, produzir, comercializar e viver com dignidade. Viva a luta pela terra!”




As famílias também denunciam as condições impostas aos pequenos produtores das etapas 1 e 2. Além das taxas elevadas, faltam condições para escoar a produção, enquanto canais e estradas permanecem abandonados. Mais de 20 lotes de cinco hectares estão parcialmente alagados desde 2024, impedindo o cultivo em parte das terras, mas as cobranças continuam. A LCP adverte que a expulsão dos pequenos produtores prepara a privatização do projeto e a entrega das áreas valorizadas a grandes empreendimentos ligados principalmente à produção de soja para exportação.
O Norte de Minas possui uma longa história de resistência. Em Cachoeirinha, mais de 200 famílias enfrentaram, em 1967, tropas da Polícia Militar e pistoleiros comandados pelo coronel Georgino Jorge de Souza. Casas e roças foram incendiadas, camponeses foram assassinados e 64 crianças morreram de fome, frio e sarampo durante a perseguição. Mesmo expulsas, as famílias permaneceram próximas às terras e continuaram lutando.

Em maio de 2000, depois do 1º Congresso da LCP do Norte de Minas, as famílias retomaram a Fazenda Ypiranga e constituíram a Comunidade Vitória. Os camponeses realizaram o Corte Popular, dividiram a terra, construíram estradas e reservatórios, conquistaram energia elétrica e passaram a abastecer Verdelândia e cidades vizinhas com alimentos. Em 2014, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais reconheceu a posse das famílias e anulou uma ordem de despejo.
Moradores relataram ao AND que o prestígio da LCP é enorme entre os camponeses e as associações de Jaíba. As conquistas históricas dirigidas pela Liga são lembradas pelas famílias quando se discute como enfrentar a Codevasf e impedir as expulsões. Novas decisões foram adiadas para setembro, e a organização camponesa prepara outra mobilização para o início do mês.
Povos indígenas convocam mobilizações contra novas barreiras às demarcações
Organizações indígenas de diferentes regiões convocaram mobilizações entre 7 e 18 de agosto, período em que o Supremo Tribunal Federal (STF) deve voltar a analisar recursos relacionados à chamada Lei do Marco Temporal. Lideranças reunidas na Aldeia Piaraçu, em Mato Grosso, exigiram que o julgamento ocorra presencialmente, e não apenas por meio da plataforma virtual do tribunal.
O STF declarou inconstitucional a tese segundo a qual os povos somente teriam direito às terras ocupadas em outubro de 1988. A decisão, entretanto, manteve dispositivos que podem paralisar as demarcações e atacar as retomadas. Entre eles estão a indenização pelo valor da própria terra a ocupantes que apresentem títulos considerados de boa-fé, o direito de permanecerem no território até o pagamento e a possibilidade de oferecer aos indígenas terras diferentes das tradicionalmente ocupadas.
Outro dispositivo pune as retomadas, colocando o respectivo processo demarcatório no fim da fila da Funai. A decisão também admite remoções imediatas e impõe prazos para que os povos apresentem suas reivindicações, apesar de o próprio velho Estado ter paralisado centenas de processos durante décadas.
As novas normas transferem para os povos indígenas o custo da omissão estatal e transformam as indenizações aos ocupantes em outra barreira financeira às demarcações. Lideranças e organizações preparam atos em Brasília (DF) e nos territórios para acompanhar o julgamento e defender o direito às retomadas.
Ponte da Aliança Operária e Camponesa completa 20 anos
Operários da construção civil e camponeses anunciaram, entre 31 de julho e 1º de agosto, a preparação das comemorações pelos 20 anos da Ponte da Aliança Operária e Camponesa, construída sobre o Ribeirão Arapuim, entre os municípios de Varzelândia e São João da Ponte.
O comunicado foi firmado pelo Sindicato dos Trabalhadores da Construção de Belo Horizonte e Região (STIC-BH) – o Marreta –, pela Liga Operária, pela LCP do Norte de Minas e Sul da Bahia e por comunidades camponesas e quilombolas da região.
Antes da construção, as famílias dependiam de uma pequena passagem de madeira para atravessar o ribeirão. Durante as chuvas, pessoas e animais morreram nas águas, enquanto o caminho alternativo exigia mais de duas horas de deslocamento. A obra havia sido prometida incontáveis vezes por candidatos durante as farsas eleitorais, mas nunca foi realizada.

Em 2006, operários e camponeses assumiram a construção. Trabalhadores da cidade levaram conhecimento técnico, ferramentas e materiais, enquanto as comunidades organizaram a alimentação, o alojamento e o transporte. Durante uma semana decisiva, mulheres camponesas trabalharam diretamente como pedreiras, serventes e carpinteiras.
A ponte foi batizada em homenagem à aliança entre o proletariado e o campesinato e aos lutadores populares do Norte de Minas, entre eles Saluzinho da Grota, Padre Gangana e Antônio Dó. “A ponte não é grande em tamanho, mas em significado”, afirma o comunicado das organizações.
Entre 18 e 20 de setembro, uma caravana de operários seguirá para o Norte de Minas. A programação reunirá um ato comemorativo, atividades nas comunidades e a Festa da Produção dos Companheiros do Para Terra.
Batalha de Santa Elina permanece viva nas novas tomadas de terra
No dia 9 de agosto, completam-se 31 anos da Heroica Resistência Camponesa de Santa Elina. Em 1995, famílias que haviam tomado as terras da fazenda Santa Elina, em Corumbiara (RO), enfrentaram uma operação conduzida por tropas policiais e pistoleiros a soldo do latifúndio.
Os camponeses resistiram durante horas ao ataque. Homens, mulheres e crianças foram mortos, feridos, torturados e presos. A resistência tornou-se um marco para a reorganização do movimento camponês combativo em Rondônia e para o desenvolvimento da LCP.

O massacre, porém, não impediu a conquista das terras. Em 2010, famílias organizadas pelo Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina (Codevise), com o apoio da LCP, retomaram a maior parte da antiga fazenda. Os camponeses realizaram o Corte Popular e distribuíram os lotes entre as famílias. Nessas terras surgiram as áreas Zé Bentão, Renato Nathan, Alzira Monteiro, Alberico Carvalho e Maranatã I e II, onde milhares de camponeses passaram a viver e produzir.
Em agosto de 2020, no 25º aniversário da batalha, famílias dirigidas pela LCP tomaram os cerca de 6 mil hectares restantes, então chamados de fazenda Nossa Senhora Aparecida, e levantaram o Acampamento Manoel Ribeiro, em Chupinguaia. Com essa ação, toda a antiga fazenda Santa Elina foi tomada pelas massas camponesas.
Em 2025, no 30º aniversário da batalha, centenas de camponeses, indígenas, estudantes e apoiadores marcharam pelas ruas de Corumbiara. Sobreviventes participaram do ato, que denunciou a impunidade dos responsáveis e reafirmou a palavra de ordem “Conquistar a terra! Destruir o latifúndio!”. Para este ano, o Comitê de Apoio ao AND de Porto Velho (RO) e o Comitê de Apoio à Luta pela Terra (CALT) convocaram um ato para 15 de agosto, às 14h, na capital rondoniense.

‘Raimundo Nonato, presente na luta!’: completa-se um ano do assassinato do camponês pelo BOPE
Em 8 de agosto, completa-se um ano do assassinato do camponês Raimundo Nonato de Souza Gomes por tropas sanguinárias do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar de Rondônia (PM-RO). Ele foi executado durante uma incursão armada contra a Área Valdiro Chagas, em Machadinho d’Oeste (RO), enquanto fazia a guarda dos demais camponeses.
A operação ocorreu na véspera do 30º aniversário da Heroica Resistência Camponesa de Santa Elina. Helicópteros realizaram voos rasantes, policiais dispararam contra a área e barracos, plantações, criações e pertences das famílias foram destruídos. Nos dias seguintes, camponeses denunciaram novas ameaças e agressões praticadas por policiais e pistoleiros.

Raimundo Nonato havia chegado à Área Valdiro Chagas menos de dois meses antes, movido pela aspiração de conquistar terra para trabalhar e melhorar as condições de vida de sua família. Seus companheiros o recordam como um trabalhador disciplinado, disposto a cumprir todas as tarefas coletivas e firme diante das dificuldades. Mesmo durante um período em que esteve preso, conquistou o respeito dos demais, foi escolhido como representante dos detentos e concluiu o ensino médio.
Ao completar seis meses do assassinato, os moradores da Área Valdiro Chagas afirmaram que seu exemplo permaneceria fortalecendo a luta pela terra: “O exemplo do companheiro regará nosso ímpeto em manter a sagrada luta pela terra viva em nosso País”. Companheiro Raimundo Nonato, presente na luta!

Declaração da LCP sobre Operação Godos volta ao debate e expõe oportunismo eleitoreiro
A declaração da LCP sobre a chamada “Operação Godos” voltou a gerar rebuliço em Rondônia depois que o advogado Luiz Carlos Teodoro foi lançado como pré-candidato da sigla oportunista PSOL ao governo estadual. A menção ao seu nome na nota camponesa passou a alimentar uma disputa interna entre siglas e grupos interessados nos arranjos eleitoreiros de 2026.
A operação foi realizada em novembro de 2025 pelo Ministério Público de Rondônia e pela PM-RO contra a Área Tiago Campin dos Santos, em Nova Mutum Paraná. Segundo a LCP, nenhum dos presos integrava a organização e a ofensiva buscou destruir as conquistas de mais de 600 famílias camponesas.
Durante a operação, casas foram arrombadas, bens foram levados e moradores foram presos. O camponês Elias foi executado por agentes do Bope, e sua companheira foi atingida por tiros. A advogada Lenir Correia, que se recuperava de cirurgias e precisava de insulina e cuidados permanentes, também foi presa e mantida sem condições adequadas para tratar as feridas.

A LCP afirmou que a associação utilizada para representar parte dos ocupantes havia sido organizada por Teodoro com elementos contrários à luta. A organização também acusou o advogado e um funcionário conhecido como “Flávio do Incra” de tentar separar os camponeses da Liga sob a promessa de que somente receberiam terras caso abandonassem a organização.
Em 28 de julho, o presidente da Federação Rede/PSOL em Rondônia enviou uma carta às direções das duas siglas exigindo que o partido se pronunciasse sobre as acusações da LCP. O documento pergunta qual é a posição oficial do PSOL diante da denúncia de que Teodoro teria participado da criação da associação e atuado contra a organização camponesa, mas ressalva que as acusações “não constituem prova” e evita assumir posição sobre seu conteúdo.
Diante da nova polêmica, setores da falsa esquerda eleitoreira divulgaram cartas e declarações para defender seus arranjos de campanha. A controvérsia, porém, não altera o conteúdo da denúncia da LCP: a “Operação Godos” serviu para atacar famílias camponesas e criminalizar a luta pela terra.
A Comissão Nacional da LCP reafirmou: a Liga “não é organização criminosa, muito menos terrorista”, mas uma organização “classista e combativa dos camponeses pobres do Brasil”.

Bruno Scheid responde ao AND com palavrões, mas não apresenta provas contra a LCP
O latifundiário e candidato ao Senado Bruno Scheid respondeu, em 28 de julho, à reportagem do AND que expôs sua campanha contra a LCP. Sem contestar os fatos apresentados, Scheid chamou o jornal de “jornaleco” e declarou: “Vá à merda vocês”.
A reportagem mostrou que Scheid utiliza uma suposta agressão ocorrida em 2018 para apresentar-se como vítima da LCP, embora não tenha divulgado provas que vinculem a organização ao episódio. Em discursos para proprietários rurais, ele chamou a Liga de “facção criminosa”, defendeu a prisão de camponeses e afirmou que pensa diariamente em como “pisar no pescoço” da organização.
Scheid também tenta apresentar-se como representante do setor ruralista, embora o ex-secretário de Agricultura de Rondônia Evandro Padovani tenha afirmado, em 2022, que ele não representava o setor agropecuário e era desconhecido apesar de viver havia 22 anos no estado. O candidato acumulou ainda 11 entradas no Palácio do Planalto entre setembro de 2021 e fevereiro de 2022, embora somente três aparecessem nos registros oficiais de compromissos.

TO: ataque derruba e incendeia casas de 22 famílias camponesas
Famílias do Acampamento Chaparral II, na divisa entre Araguaína e Pau D’Arco (TO), tiveram casas derrubadas e incendiadas em uma nova ofensiva contra sua permanência nas terras públicas do Loteamento Muricizal. O fogo atingiu também áreas do Cerrado, enquanto cercas e estruturas construídas pelas famílias foram destruídas.
O ataque ocorreu depois que os camponeses retomaram parcelas das glebas 03 e 06. Certidões dos imóveis confirmam que as áreas pertencem à União e não possuem título particular válido. Mesmo assim, as famílias aguardam desde 2010 que o Incra cumpra a destinação da terra.
Em dezembro de 2023, um despejo movido pela Agropecuária Chaparral atingiu não somente os lotes discutidos no processo, mas também terras públicas que sequer faziam parte da ação. Casas e pertences foram queimados, roças foram destruídas e animais morreram ou foram abandonados. As famílias reorganizaram o acampamento e retornaram às terras.

MT: milhares recordam heróis do povo e reafirmam luta contra o latifúndio
Milhares de pessoas reuniram-se em Ribeirão Cascalheira (MT), durante a 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana. A atividade, realizada em 18 e 19 de julho e repercutida no fim do mês, marcou os 50 anos do assassinato do padre João Bosco Penido Burnier.
Burnier foi baleado em 1976 quando tentava impedir que policiais torturassem as camponesas Margarida e Santana. A romaria também homenageou camponeses, indígenas, religiosos e lutadores assassinados pelo latifúndio, por empresas e por agentes do velho Estado.

Maria Petronila Neto, integrante da Coordenação Executiva Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), participou da atividade. No programa A Propósito #361, transmitido pelo AND em 23 de abril, ela havia ressaltado que o massacre dos pobres do campo não decorre apenas da omissão estatal: “Não se trata apenas de conivência do Estado. […] Existe uma atuação explícita”. Segundo Petrô, enquanto processos favoráveis ao latifúndio avançam rapidamente, medidas que poderiam beneficiar os camponeses são retardadas ou inviabilizadas, e a polícia é colocada “a serviço da eliminação da resistência”.
Petrô também destacou a contribuição decisiva do campesinato para o povo das cidades: “Não é o latifundiário quem oferece alimentação à população urbana. Quem produz e coloca comida saudável na mesa é o camponês”. Para ela, é necessário apresentar a produção das áreas ocupadas, enfrentar a criminalização da luta pela terra e fortalecer a organização popular.
“A sociedade, munida da consciência política de quem realmente produz e alimenta o povo, precisa se somar à luta”, afirmou. Ao defender a mobilização direta, Petrô concluiu: “O povo deve conhecer seus direitos, organizar-se, cobrar e exigir de pé”. E recordou a formulação de dom Tomás Balduíno: “Direito não se pede de joelhos; exige-se de pé”.
SP: Tarcísio acelera entrega de terras públicas griladas ao latifúndio
O governo de Tarcísio de Freitas acelerou a regularização de latifúndios instalados sobre terras públicas, principalmente no Pontal do Paranapanema. A Lei estadual nº 17.557/2022 permite que os ocupantes comprem as áreas com descontos de até 90% sobre o valor de mercado.
Ao menos 250 imóveis, que somam aproximadamente 131 mil hectares, já concluíram as etapas técnicas do programa. Cerca de 7 mil famílias camponesas vivem em acampamentos na região, organizadas por forças como a Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e reivindicam que as terras públicas sejam destinadas a quem nelas pretende viver, trabalhar e produzir.
Em entrevista concedida em 2023, Leandro Dias, coordenador da FNL, denunciou que mais de 300 mil hectares do Pontal eram terras devolutas e que os ocupantes particulares não possuíam direito sobre elas: “Eles são invasores de uma terra pública, que pela Constituição tem que ser destinada à reforma agrária”. Sobre a espera por medidas dos governos, foi categórico: “Nós estamos cientes que a reforma agrária por dentro do Estado não vai sair”.
A legislação passou ainda a permitir que grandes imóveis sejam fracionados durante a regularização, contornando o limite de 2,5 mil hectares para alienações sem aprovação do Congresso. O programa foi prorrogado até dezembro de 2026 e transformado por Tarcísio e seus aliados em plataforma eleitoral junto ao latifúndio paulista.
A constitucionalidade da lei está em julgamento no STF. Cármen Lúcia votou pela derrubada da medida, mas a análise foi interrompida por um pedido de vista de Gilmar Mendes. Enquanto o julgamento permanece suspenso, o governo acelera as titulações para consolidar a apropriação privada das terras públicas e criar fatos consumados contra as reivindicações camponesas.

MT: grande garimpo avança sobre terra pública enquanto 74 famílias esperam do lado de fora
Mesmo após o reconhecimento definitivo de que parte da Fazenda Cinco Estrelas, em Novo Mundo (MT), pertence à União, 74 famílias selecionadas para receber parcelas da área continuam vivendo em barracos fora da propriedade. Enquanto os camponeses esperam, um grande garimpo instalou máquinas, cercas e estruturas de extração dentro das terras públicas.
A fazenda possui 4.354 hectares. Desse total, cerca de 2 mil hectares foram reconhecidos como patrimônio federal desde 1977. Em fevereiro, o juízo federal de Sinop determinou a saída dos ocupantes particulares, depois que o Tribunal Regional Federal da 1ª Região confirmou a titularidade da União.

O prazo de desocupação, entretanto, foi prorrogado por cinco meses. Depois da primeira ordem de saída, uma cooperativa de mineração solicitou licenças para explorar ouro na área. Três dias após a prorrogação, a Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso emitiu licenças prévia, de instalação e de operação.
Imagens feitas em junho mostraram escavadeiras, solo revolvido, novas cercas e portões. Moradores relataram movimentação de trabalhadores durante o dia e a noite, com uma draga já em operação e outras em montagem.
A demora repete a história da própria área. Em 2003, 140 trabalhadores foram resgatados de condições de trabalho escravo na Fazenda Cinco Estrelas. Eles viviam em barracos e galpões, sem salário regular e sob vigilância armada, enquanto dívidas fraudulentas eram utilizadas para impedir sua saída.
Outra investigação divulgada no início de agosto revelou que quatro empresas mineradoras de Mato Grosso, autuadas por manter mercúrio sem origem legal declarada, informaram R$ 927 milhões em vendas de ouro. Com exceção de uma, as empresas são investigadas na Operação Hermes, que apura redes de importação e distribuição clandestina do metal.
O caso da Fazenda Cinco Estrelas expõe o grande garimpo ilegal: atividade mecanizada e financiada por proprietários de máquinas, empresários e compradores de ouro, distinta do garimpo individual praticado por trabalhadores pobres. Enquanto os burocratas do velho Estado mantêm as famílias do lado de fora, máquinas e dragas entram rapidamente na terra pública.
PR: dezenas de ataques contra Avá-Guarani resultam em somente um processo
Uma série de reportagens publicada em 30 de julho reuniu casos de ataques praticados contra comunidades Avá-Guarani na região de Guaíra, no oeste do Paraná. Entre 2023 e 2025, os indígenas denunciaram tiroteios, emboscadas, incêndios, torturas, atropelamentos e assassinatos. Apesar da repetição dos crimes, somente um processo criminal havia sido aberto.
As reportagens mostram que o Judiciário age com maior rapidez para ordenar despejos, demolições e medidas contra indígenas do que para responsabilizar os autores das agressões. Em julho, a 1ª Vara Federal de Guaíra chegou a autorizar a destruição de casas e a retirada de crianças durante uma tentativa de expulsar famílias do Sítio Boa Vista, dentro do Tekoha Guasu Guavirá. A ordem foi posteriormente suspensa pelo TRF-4.
Um documento do Ministério Público Federal (MPF) também apontou um suspeito de participar da decapitação de um indígena antes mesmo da conclusão do inquérito. Em 2024 e 2025, dezenas de Avá-Guarani foram baleados em ataques contra retomadas, inclusive crianças.
Em setembro de 2025, estudantes realizaram uma missão de solidariedade à aldeia Yvy Okaju e ergueram a faixa: “Viva a luta dos Avá-Guarani! Abaixo os crimes do latifúndio!”. As novas denúncias reafirmam a necessidade de ampliar a solidariedade às retomadas e exigir a responsabilização dos grupos paramilitares e de seus mandantes.

PE: documentário denuncia adoecimento causado por empreendimentos eólicos
O documentário “Ventos para Saúde” foi disponibilizado na Internet com relatos de camponeses atingidos pela expansão de empreendimentos eólicos no Agreste pernambucano. A produção registra os processos de adoecimento, a alteração das condições de vida e os conflitos provocados pela instalação de aerogeradores nas proximidades das casas e das áreas de produção. O estudo investiga os efeitos dos empreendimentos sobre a saúde mental, o sono, a vida comunitária e a permanência das famílias em seus territórios.
No Agreste, famílias já denunciaram ruídos permanentes, adoecimento, perdas na produção e pressão para deixar suas casas. A Agência Estadual de Meio Ambiente chegou a negar a renovação da licença de operação de um complexo em razão dos efeitos da poluição sonora sobre camponeses e animais. Posteriormente, um acordo permitiu a continuidade das atividades, apesar das reivindicações apresentadas pelas famílias atingidas.
PA: novos relatos reconstituem o Massacre de Eldorado dos Carajás
Trinta anos depois do Massacre de Eldorado dos Carajás, novos depoimentos e documentos levantam questões ainda não respondidas sobre a preparação, o financiamento e a logística da operação policial que assassinou 21 camponeses na Curva do S, no sudeste do Pará. A apuração, publicada em 30 de julho pelo Repórter Brasil, examinou milhares de páginas dos autos e ouviu sobreviventes, advogados e outras pessoas ligadas ao caso.
Poucas semanas após o massacre, o então gerente de uma fazenda afirmou à Polícia Federal, ao Ministério Público e ao Judiciário que latifundiários da região teriam arrecadado cerca de R$ 85 mil – aproximadamente R$ 500 mil em valores atuais – para financiar a operação. Segundo o depoimento, os organizadores diziam que “dez integrantes do MST deveriam morrer”. A denúncia nunca foi comprovada de forma conclusiva, mas tampouco foi inteiramente esclarecida: cerca de 20 nomes reunidos pela Polícia Federal não resultaram em qualquer indiciamento.
Também permanece sem explicação um telefonema realizado na véspera do massacre. Um homem que se apresentou como funcionário da então estatal Companhia Vale do Rio Doce pediu à empresa Transbrasiliana dois ônibus para transportar policiais do 4º Batalhão da PM. O suposto funcionário, identificado apenas como “James”, nunca foi localizado.
No dia seguinte, a PM requisitou formalmente veículos da mesma empresa para levar a tropa à Curva do S. Documentos mostram ainda que a Vale mantinha relações financeiras e operacionais com unidades policiais da região, embora não comprovem participação direta da mineradora no massacre.
Nos dias anteriores ao ataque, representantes do latifúndio pressionaram o governo do Pará por uma ação “enérgica”, ameaçaram recorrer às armas, entregaram listas com nomes de dirigentes camponeses e afirmaram possuir infiltrados entre os manifestantes. Relatórios internos da PM classificaram a situação como de “iminência de guerra civil” e recomendaram “táticas militares”. Dos 155 policiais envolvidos, somente os dois comandantes foram condenados.
Os novos relatos reforçam que o massacre não foi um descontrole isolado de policiais, mas ocorreu em meio à ação articulada do latifúndio, ao avanço da mineração na região de Carajás e à mobilização do aparato repressivo do velho Estado contra a luta pela terra.

MG: Tikmũ’ũn-Maxakali cobram medidas diante de crise agravada pela negligência do velho Estado
Lideranças Tikmũ’ũn-Maxakali reuniram-se, nos dias 22 e 23 de julho, com representantes de mais de 40 instituições para denunciar a crise enfrentada pelo povo e cobrar medidas concretas. No primeiro dia, os encontros ocorreram nos territórios de Pradinho e Água Boa. No segundo, em Águas Formosas, participaram representantes de Pradinho, Água Boa, Aldeia Verde, Aldeia-Escola-Floresta e Cachoeirinha.
As comunidades denunciaram a falta de água potável, saneamento e atendimento de saúde, a insegurança alimentar e a redução de seus territórios. Essas condições, mantidas por décadas de omissão do velho Estado, estão relacionadas à elevada mortalidade infantil e ao baixo número de indígenas que ultrapassam os 60 anos.

Ao fim das reuniões, as instituições formalizaram uma carta de compromissos. Os Tikmũ’ũn-Maxakali, contudo, acumulam uma longa experiência de promessas e medidas anunciadas que não interromperam as mortes evitáveis nem asseguraram condições dignas de permanência nos territórios.
Entre as iniciativas construídas pelo próprio povo está o Hãmhi Terra Viva, que forma agentes agroflorestais e viveiristas Tikmũ’ũn-Maxakali para recuperar áreas degradadas. A organização comunitária, porém, não retira dos governos e organismos estatais a responsabilidade histórica pela crise.
AC: Jaminawa e Jaminawa-Arara exigem energia elétrica nas aldeias
As comunidades Jaminawa e Jaminawa-Arara da Terra Indígena Jaminawa Igarapé Preto, no Acre, reivindicaram a garantia do fornecimento de energia elétrica às aldeias. Em uma carta elaborada ao MPF durante reunião realizada na Aldeia Nova Vida II, em 24 de julho, os indígenas afirmam que a “ausência de fornecimento de energia compromete direitos fundamentais e afeta diretamente as condições de vida nas comunidades”.
Sem eletricidade, as famílias não conseguem conservar adequadamente alimentos e medicamentos, utilizar equipamentos destinados à educação e à comunicação nem manter estruturas básicas de atendimento à saúde. A cobrança soma-se às mobilizações realizadas em 2026 por povos do Acre, que denunciaram invasões territoriais, restrições ao acesso à água, ameaças e ausência de serviços públicos básicos.
A carta exige uma solução efetiva, e não novas promessas dos organismos do velho Estado, para garantir às famílias condições mínimas de permanência e organização dentro do território.
MG: mobilização no Jequitinhonha força suspensão parcial das operações da Sigma Lithium
Depois de anos de protestos e denúncias das comunidades do Vale do Jequitinhonha, a Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais suspendeu parte das operações da Sigma Lithium nas cavas Norte e Sul do empreendimento Grota do Cirilo, entre Araçuaí e Itinga.
As fiscalizações apontaram danos a cursos d’água e áreas de preservação, desmatamento irregular, captação de água subterrânea e início de atividades antes do período autorizado pelas licenças. A mineradora negou irregularidades.

As comunidades de Piauí Poço Dantas, Ponte do Piauí e Santa Luzia denunciam há anos poeira, ruídos, explosões, rachaduras nas casas e isolamento provocado pelas estruturas minerárias. Uma decisão anterior determinou reassentamento opcional para famílias atingidas, contratação de assessoria técnica, suspensão de operações barulhentas à noite e depósito de R$ 50 milhões para assegurar futuras reparações.
A Sigma é a maior produtora de lítio do País. A corporação é negociada nas bolsas de Toronto e Nasdaq e integra a cadeia imperialista de produção de baterias e veículos elétricos. A propaganda da chamada “transição energética” é utilizada para apresentar como progresso a extração destinada ao exterior, enquanto as comunidades ficam com a poeira, a destruição das águas e as explosões.

Amazônia: retirada de parcas travas pode liberar 1,4 milhão de hectares ao latifúndio
Uma análise divulgada em 27 de julho calcula que o desmonte da Moratória da Soja poderá provocar a devastação adicional de 1,4 milhão de hectares da Amazônia até 2036. A área corresponde a cerca de 17% de tudo o que foi desmatado no bioma brasileiro durante a década anterior.
O estudo estima ainda a liberação de mais 745 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. Outros 9,1 milhões de hectares de imóveis privados que podem ser legalmente desmatados e 28 milhões de hectares de terras públicas ainda não destinadas também ficarão sob maior pressão.

A moratória era um acordo voluntário pelo qual comerciantes afirmavam não adquirir soja produzida em áreas desmatadas recentemente. A medida nunca impediu a expansão da fronteira agrícola: a soja avançou por áreas abertas anteriormente, empurrou a pecuária e a grilagem para novas regiões e elevou o preço das terras.
Mesmo essa trava burocrática limitada passou a ser abandonada por empresas e entidades do setor em 2026. Cargill, Bunge, ADM e Amaggi controlam parcelas importantes da compra, do armazenamento, do financiamento e da exportação do grão.
A retirada da medida ocorre enquanto sucessivos governos destinam centenas de bilhões de reais ao latifúndio agroexportador por meio de crédito subsidiado, obras logísticas e isenções. O resultado é a valorização especulativa das terras, a expulsão de camponeses, indígenas e quilombolas e a ampliação da produção de mercadorias para os monopólios imperialistas.

MS: Guarani Nhandeva exigem reparação após barragem destruir córrego
Quase dez anos depois do rompimento de uma barragem da Usina Rio Paraná, o povo Guarani Nhandeva continua lutando pela recuperação da Terra Indígena Cerrito, em Eldorado (MS).
O rompimento atingiu o córrego Duarte-Kuê, provocou grandes processos erosivos, assoreou o leito, destruiu a mata ciliar e matou peixes. A água que antes era utilizada para beber, pescar e produzir tornou-se imprópria.

As monoculturas de soja e cana-de-açúcar que cercam a terra indígena também lançam agrotóxicos sobre nascentes e cursos d’água. Vistorias do Ibama e do Imasul confirmaram os danos em 2017, e a usina foi multada em mais de R$ 22 milhões. A recuperação do território, porém, continua pendente.
Jovens Guarani Nhandeva participam do levantamento dos danos e da defesa das águas. A situação mostra que a luta prossegue mesmo após a homologação da terra: o território precisa ser defendido continuamente contra os empreendimentos que o cercam e destroem suas condições materiais de existência.
PA: povos do campo articulam resistência contra mineração e corredores de exportação
Camponeses, indígenas, quilombolas e ribeirinhos reuniram-se em 2 e 3 de agosto, em Belém e Moju (PA), durante o I Seminário Estadual sobre a defesa dos territórios e a resistência aos megaprojetos da mineração e do latifúndio agroexportador.
A atividade reuniu denúncias sobre monoculturas, mineradoras, hidrelétricas e criminalização dos povos do campo. Os participantes buscaram construir um plano unificado de mobilizações e trocar experiências de ocupação, retomada e defesa dos territórios.

Organizações do Pará divulgaram também uma carta entregue a Luiz Inácio (PT) em 23 de julho contra a ampliação dos projetos portuários e logísticos sobre o rio Tapajós. O documento denuncia a tentativa de transformar a região em uma “zona de sacrifício para benefício dos bilionários do agronegócio”.
Os projetos do chamado Arco Norte formam corredores para o transporte de soja e minérios aos portos amazônicos. Concebidos desde o regime militar fascista, eles incluem hidrovias, portos, dragagens e ferrovias. O Decreto nº 12.600/2025, assinado por Luiz Inácio, incluiu os rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização, abrindo caminho para concessões privadas sem consulta aos povos atingidos.

SE: cerca de 10 mil camponeses marcham em Aracaju e cobram terra
Cerca de 10 mil pessoas marcharam em Aracaju (SE) em uma mobilização que reuniu famílias de assentamentos e acampamentos, trabalhadores urbanos e organizações populares.
Os camponeses cobraram a destinação de terras, melhorias nas áreas conquistadas, apoio à produção e condições para permanecer no campo. A marcha percorreu as ruas da capital e apresentou a força das famílias organizadas de diferentes regiões do estado.
Embora a direção do ato tenha utilizado as formulações burocráticas da chamada “reforma agrária popular”, a dimensão da mobilização expressa a permanência da questão agrária e a disposição das massas camponesas de lutar pela terra.

AL: retomada e organização marcam 28 anos de resistência do povo Kalankó
O povo Kalankó celebrou, em 27 de julho, 28 anos de organização coletiva no sertão de Alagoas. A defesa da terra tornou-se o eixo dessa trajetória, diante da concentração fundiária e das tentativas de negar a existência do povo e sua ocupação tradicional.
Em 2010, os Kalankó retomaram parte do território. A ação fortaleceu a organização das famílias e pressionou a Funai a criar um grupo técnico para realizar os estudos de identificação e delimitação. A retomada também impulsionou conquistas na educação e na saúde indígenas.
Hoje, o território permanece ameaçado pelo latifúndio agroexportador, por grandes empreendimentos hídricos e pelas medidas que restringem as demarcações. “A conquista de direitos não acontece de forma espontânea. Ela é resultado da organização coletiva, da participação comunitária, da mobilização permanente e da resistência cotidiana”, afirmou o povo Kalankó.
