Bruno, 2 anos: Os amigos índios revolucionaram a defesa da terra

Tribos do Vale do Javari aprimoram as estratégias de organização e autodefesa.

Bruno, 2 anos: Os amigos índios revolucionaram a defesa da terra

Tribos do Vale do Javari aprimoram as estratégias de organização e autodefesa.
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As tribos do Vale do Javari (AM) tornaram-se guerreiras da autodefesa, montando estratégias de organização, monitoramento e vigilância próprias das suas áreas, inspiradas pela memória do amigo assassinado há 2 anos no Amazonas, Bruno Pereira. Conhecida como EVU (Equipe de Vigilância da Univaja, União dos Povos Indígenas do Vale do Javari) é a entidade que tem feito tal trabalho. Um incentivador da criação da EVU foi justo Bruno Pereira de Araújo, o ambientalista morto.

Por isso o seu assassinato e do repórter inglês Dom Phillips, em maio de 2022, não resultou na vitória dos planos do governo ultrarreacionário de Bolsonaro e generais, de enfraquecimento dos grupos nativos amazônicos. Ao contrário.

Sem esperar ajuda de fora

“O Bruno lutava como um de nós”, disse o atual coordenador da Univaja, Buche (da etnia) Matis. 

“Ele veio para estruturar e mostrar que nós podíamos proteger nosso próprio território, com ajuda da tecnologia e colaborando com as autoridades (com as denúncias dos crimes detectados). Porque, se esperarmos por ajuda externa, não vai dar certo”, completou o líder dos Matis. 

Hoje, a equipe de monitoramento territorial da Univaja, que foi chefiada por Bruno numa época, dobrou de tamanho, de 20 para 40 pessoas, disse Murilo Pajolla, da página jornalística Brasil de Fato.

Além dos Matis, nela estão guerreiros dos povos Kanamari, Mayoruna/Matsés, Kulina Pano, Marubo, Korubo, Tsohom.

Mulheres no comando de drones

Um aspecto importante dessa revolução foi a entrada das mulheres indígenas na EVU. Seguindo sugestão do amigo morto, as mulheres decidiram aprender novos conhecimentos associados à tecnologia e proteção do território, inclusive fazendo cursos de pilotagem de drones.

Quem conta um pouco dessa história é Silvana, amiga próxima de Bruno, que se tornou uma das principais lideranças femininas da sua etnia, a marubo, e também da Univaja : 

“Ele dizia para a gente se preparar, para a gente estudar e ganhar espaço até nas universidades dos nawa (não-indígenas).Depois de formados poderíamos transmitir os conhecimentos aos demais jovens nas aldeias.”

Índios descobriram corpos e assassinos

“Hoje temos vários jovens formados atuando como multiplicadores”, diz Buche.

O próprio coordenador da Univaja é um exemplo.  Cursou a faculdade de Administração e é pós-graduado em Gestão Pública. Eleito em 2023 como chefe da Univaja, representa as 26 etnias que vivem nos 8,5 milhões de hectares daquele território.

O líder Matis ensina às novas gerações a importância estratégica de conciliar a cultura ancestral com o conhecimento acumulado na academia pelos não- indígenas.

Foi dessa maneira que Buche, junto a Paulo Marubo e outros índios,coordenou as buscas pelos corpos de Bruno e Dom na floresta amazônica. E também achou as primeiras pistas dos matadores, conforme reportagem da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

Relembrando o homicídio

Bruno Pereira de Araújo e Dom Phillips (jornalista britânico do The Guardian), desapareceram em 5 de junho de 2022, quando navegavam na região do Vale do Javari. Ao sair a notícia, ambos foram insultados pelo então presidente, Jair Bolsonaro, como pessoas irresponsáveis e malvistas.

Bruno, logo no início do governo bolsonarista, foi punido por sua total dedicação e solidariedade aos povos indígenas. Foi exonerado da Funai (Fundação Nacional do Índio), do cargo de chefia do setor de Índios Isolados e de Recente Contato, pelo ministro da Justiça Sérgio Moro e pelo presidente da Fundação, o policial Marcelo Xavier.

Os restos mortais de Bruno e Dom foram encontrados 10 dias depois, em meio à floresta. Agora,passados 2 anos, a Polícia Federal (PF) indiciou 3 acusados pelos crimes, que devem ir a júri popular em 2025.

Os acusados,que estão presos, são Amarildo da Costa de Oliveira; o irmão dele, Oseney da Costa de Oliveira, e Jefferson da Silva Lima. Todos praticantes de pesca ilegal e com ligação a grupos criminosos. Segundo o MPF, 2 deles perseguiram Bruno e Dom de barco e atiraram neles. Esquartejaram e queimaram os corpos, antes de os ocultarem na mata.

Ruben Dario da Silva Villar, conhecido como “Colômbia”, foi apontado pela PF como o mandante dos assassinatos. Ele está preso por outros crimes. 

Missionários aliados a Bolsonaro

A região onde houve os homicídios é rota de entrada do tráfico de drogas, sofre com pesca e caça ilegais, além do garimpo proibido em terras indígenas e da ação ilegal de missionários evangélicos internacionais que invadem comunidades locais com objetivo de catequizá-las.

Um desses evangélicos, Ricardo Lopes Dias, da Missão Novas Tribos do Brasil (financiada por grupos estadunidenses e suspeita de vínculo com órgãos de espionagem dos USA) chegou a ocupar cargo na Funai bolsonarista.

Em um vídeo gravado em 2020 e divulgado após seu desaparecimento, Bruno Pereira denunciou a presença destes e outros invasores na região e os riscos à segurança dos povos indígenas do Vale do Javari que isso representava.Apesar da eficácia da EVU, a área segue violenta e com muitos desafios. 


Este texto expressa a opinião do autor.

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