Covid-19: Índios sioux enfrentam Trump e protegem seu território

Covid-19: Índios sioux enfrentam Trump e protegem seu território

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Duas tribos indígenas do USA, a Sioux do rio Cheyenne e a Oglala Sioux, estão desprezando ordens governamentais e desafiando abertamente o arquirreacionário e genocida Donald Trump, presidente do país, e sua fervorosa aliada governadora do estado do Dakota do Sul. Preocupados com o coronavírus, os índios trancaram as estradas próximas às suas comunidades e as mantêm assim há mais de 15 dias, mesmo sob ameaças de todo tipo.

O portal informativo Democracy Now (D.N.) descreveu a situação do seguinte modo: “…(em Dakota do Sul) está se intensificando um enfrentamento em relação à segurança e à soberania…(os 2 grupos de índios) estabeleceram postos de controle nas estradas que conduzem a seus territórios para se assegurarem de que todos aqueles que procurem ingressar nas terras tribais viajem por uma razão aprovada e essencial, e não apresentem sintomas de COVID-19.”

No dia 8 de maio os nativos rebeldes foram intimados a sair das rodovias em 48 horas. “…A governadora Kristi Noem (Partido Republicano,o mesmo de Trump) que se encontra entre os oito governadores do país que se negaram a adotar o confinamiento, exigiu que (os indígenas) retirassem os controles das estradas; caso contrário enfrentariam uma intervenção do governo.Os postos de controle continuaram de pé” – noticiou o D.N. após alguns dias, registrando a persistência do movimento tribal.

MILÍCIAS ARMADAS ANTI-CONFINAMENTO

Além das medidas oficiais contra si, os indígenas também corriam o risco de ser agredidos por milicianos direitistas, brancos, fortemente armados, que desde abril ameaçam os que adotam a quarentena no USA, inclusive autoridades do Partido Democrata e de outros segmentos de oposição a Trump.

As tribos não se amedrontaram, mesmo sabendo que a governadora Noem é uma forte apoiadora desses criminosos de direita, conforme disse o D.N. O presidente da comunidade Sioux do rio Cheyenne, Harold Frazier, explicou em uma entrevista ao mencionado portal: “O objetivo principal desses postos de controle é manter nosso povo seguro. Por nossa carência de instalações médicas, observamos com atenção os nossos parentes do sul, a Nação Navajo, e vemos o que está ocorrendo alí. Perfeitamente o mesmo poderia acontecer a nós”.(OBS: Frazier se referia ao registro massivo de COVID-19 na reserva Navajo, nos estados de Arizona, Utah e Novo México, que obrigou os líderes tribais a decretarem confinamento.Ali, até 22 de maio, 4.253 índios se infectaram e 46 morreram.)

Quanto à reserva de Frazier, ela conta só com 8 camas na clínica e não possui UTI. O hospital mais próximo, em Rapid City, está a 3 horas dalí. Apesar de que Dakota do Sul atualmente tem uma das taxas de infecção de crescimento mais rápido do país, Kristi Noem está promovendo um retorno à “normalidade”, o que poderia fazer disparar o risco de mortes pela COVID-19. O estado registrava até sábado (23 de maio) 4.468 pessoas infectadas e 50 mortas.

Importante destacar que o Dakota do Sul sedia um enorme abatedouro da Smithfield Foods, onde se processam cerca de 20.000 suínos por dia. Esta planta se converteu no mais intenso foco de Covid-19 no país. Mais de 3.000 casos e 34 das mortes do estado provêm do condado de Minnehaha, onde se encontram as instalações da empresa.

TRUCULÊNCIA NÃO DEU CERTO

Ao ser ignorada e desobedecida pelos sioux amotinados a governadora decidiu apelar a Trump, para que o governo federal intercedesse de alguma forma para resolver seu conflito com as duas tribos, já que uma das rodovias ocupadas pertence à União. Semana passada, dia 20, Noem enviou mensagens à Casa Branca, ao Departamento de Justiça, além da bancada de congressistas do Partido Republicano ligados a Dakota do Sul. Porém,até o término da confecção desta reportagem não havia chegado à governadora nenhuma resposta efetiva de Washington. Provavelmente o silêncio estava relacionado às eleições deste ano, cujo resultado os trumpistas supostamente não desejariam ver “atrapalhado” em função de uma eventual ocorrência negativa no estado, onde o Partido sempre costuma ter uma boa performance.

Constatando que os ventos não estavam favoráveis a ela, Kristi Noem resolveu amenizar sua truculência. Desistiu de continuar esbravejando prazos para a liberação das rodovias e pediu aos índios que considerassem negociar com o governo estadual. Até o fechamento desta edição de AND as tribos seguiam nas estradas, em sua atividade de autoproteção. Nada indicava que iriam mudar de idéia.

‘CAPITALISMO DE AMIGOS’

O presidente da tribo Oglala Sioux, Julian Bear Runner, explicou assim a decisão de criar os postos de controle contra a pandemia: “A governadora Noem julgou equivocadamente o nível de compromisso que temos para proteger a nossa gente mais vulnerável do ‘capitalismo de amigos’, das ameaças para nos obrigar a abrir nossa economia como eles querem”.

Tudo indica que a governadora estava, de algum modo, chantageando as lideranças indígenas com base na rentabilidade milionária de empreendimentos que outras tribos estão exercendo em diversos estados do USA, como cassinos, hotéis e restaurantes.  

Prosseguiu Bear Runner: “Não há forma de avaliar o que teremos a perder se deixamos que nos insultem desta maneira. Meus ancestrais têm estado aqui por milhares de anos. Está demonstrado que tudo o que eles (os capitalistas) tem trazido a nossas terras é veneno”.

HERDEIROS DE TOURO SENTADO            

Conforme o portal D.N. “o espírito depredador dos colonos brancos não é algo desconhecido para estas duas tribos, que fazem parte do povo Oceti Sakowin. O chefe  Touro Sentado observou em 1877: ‘O amor às posses materiais é uma enfermidade que eles (os brancos)têm. Apropriam-se de nossa mãe, a Terra, para seu uso próprio, e colocam cercas nela para separar de seus vizinhos; a desfiguram com a construção de edificios e seu lixo…Tudo isto é um sacrilégio”.

A nação Sioux, compreendida por dakotas (ou santees), nacotas (ou yanktons) e lacotas (ou tetons), vivia originariamente perto do lago Superior, atual  Minnesota.Em meados do século XVIII, guerras com os índios Ojibwas conduziram os Sioux para o oeste. Uma parte ocupou as Grandes Planícies, outros foram para os atuais estados de Dakota do Norte e Dakota do Sul, outros  para a região conhecida como Black Hills(oeste de Dakota do Sul e leste de Wyoming e Montana).

Em meados do século XIX, colonizadores brancos começaram a entrar no território Sioux. A tribo lutou por muitos anos para deter as invasões de sua terra, sendo Touro Sentado e Cavalo Louco famosos chefes que lideraram os combates.

Em 1889, mesmo ano em que a Dakota do Sul tornou-se um estado do USA, um movimento nativo teve início nas reservas indígenas Sioux do estado. Este movimento pedia pelo direito ao retorno das antigas tradições e estilos de vida entre a população indígena. O nome deste movimento era Ghost Dance e foi considerado uma ameaça pelo governo. O líder, Touro Sentado, foi assassinado por policiais enviados para prendê-lo. Muitos dos seus seguidores armaram-se e juntaram-se sob a liderança de Pé Grande. Soldados foram enviados para “apenas para desarmar” os nativos. Porém os militares brancos acabaram trucidando cerca de 300 Sioux, inclusive mulheres, crianças e idosos, no Massacre de Wounded Knee. Após esse genocídio a maioria dos Sioux mudou-se para reservas.

RECUSARAM DINHEIRO

Em 1973, o vilarejo de Wounded Knee foi ocupado por cerca de 200 nativos americanos armados. Os índios exigiam que o governo do estado do Dakota do Sul desse maior atenção aos problemas enfrentados pelas tribos. A vila foi ocupada por 71 dias, sendo que diversos tiroteios ocorreram entre os nativos americanos e tropas militares, resultando na morte de 2 indígenas.

Em 1980, a Suprema Corte dos Estados Unidos ordenou que o governo do USA pagasse 105 milhões de dólares aos Sioux de Dakota do Sul, como indenização pela terra confiscada. A tribo recusou o dinheiro e, altivamente, falou que iria continuar lutando pelos seus direitos, inclusive de obter o retorno de seus territórios.

Segundo o censo de 2010, há cerca de 170 mil pessoas de origem Sioux nos USA. Um grupo vive no Canadá.

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