O auditório Esperança Garcia da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB) sediou, no dia 2 de julho, um ato público de “pedido de desculpas” promovido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) pelo desaparecimento forçado do advogado e guerrilheiro da Ação Libertadora Nacional (ALN), Paulo de Tarso Celestino da Silva. Quase 45 anos após sua captura por agentes da reação, em 12 de julho de 1971, a solenidade oficial buscou, de forma tardia, simular uma reparação histórica aos familiares e ao povo brasileiro.
O evento ocorreu na instituição onde Paulo de Tarso se graduou, simbolizando o esforço da burocracia estatal para gerenciar os efeitos de um crime que, durante décadas, foi negado e ocultado pelo aparato repressivo do regime militar-fascista brasileiro. Para a reitora da UnB, Rozana Naves, a realização do ato na instituição reforça a necessidade de combater o esquecimento institucionalizado: “O pedido público de desculpas reconhece uma das mais graves violações de direitos humanos da história brasileira: a perseguição, a prisão, a tortura, os assassinatos e o desaparecimento de pessoas durante a ditadura militar”, afirmou.
Durante o ato, a denúncia dos familiares expôs a dimensão trágica que os relatórios oficiais buscam atenuar. À correspondência local de AND, João Paulo de Tavares, sobrinho do revolucionário, classificou o momento como “difícil” para a família. Embora não tenha conhecido o tio pessoalmente, João Paulo relatou o peso dos traumas herdados das histórias contadas pela avó e pelo pai: “Nenhum pedido de desculpas, mesmo que formal, vai devolver o que nós perdemos. O desaparecimento do meu tio provocou uma sucessão de traumas na família”, lamentou.
O sobrinho destacou que o crime nunca foi tratado com clareza pelas autoridades, prevalecendo uma cultura de silêncio imposta pelo terror de Estado. “Eu não cheguei a conhecer o meu tio, mas sentia como o desaparecimento dele afetou a todos. O caso nunca era falado de forma aberta, sempre em sussurros, cercado de dúvidas e apreensão. Como não existia uma certeza sobre o destino de Paulo, a família viveu o luto sob o signo da incerteza”, relatou.
Jarbas Marques, militante histórico e colega de trajetória do guerrilheiro, recordou os anos de chumbo e a combatividade do companheiro: “Eu tive o privilégio de militar no movimento estudantil secundarista de Goiás. Depois, nós viemos para Brasília. Por ironia, devido à minha prisão em 1967, eu sou o único aluno da UnB que não terminou o curso porque a ditadura me prendeu por 10 anos”, relembrou. “Em 1967, havia cerca de 15 alunos da UnB presos em Juiz de Fora, na 4ª Região Militar. O Paulo já tinha entrado na OAB e atuou como advogado dos presos da UnB na auditoria de guerra de Juiz de Fora. Na clandestinidade, estive com o pai dele, o deputado cassado Pedro Celestino, do MDB de Goiás”, afirmou. A fala ressaltou a sólida formação jurídica do revolucionário, capaz de atuar na defesa de presos políticos com apenas seis meses de graduação.
“Esse ato aqui é um ato de respeito à história, à vida e à luta do Paulo Celestino e de outros presos políticos que morreram, que foram assassinados”, prosseguiu Jarbas. Contudo, o caráter meramente cerimonial do evento levanta sérios questionamentos sobre a eficácia de tais medidas diante de um velho Estado que, por décadas, garantiu a blindagem e a impunidade dos agentes da repressão responsáveis por atrocidades cometidas em nome da ordem latifundiária e burguesa. O “pedido de desculpas” só se materializou após reiteradas condenações e pressões políticas.

A ministra do MDHC, Janine Mello, pontuou que o ato reafirma o “compromisso” do governo com a memória e a não repetição de violações. Segundo a pasta, a cerimônia visa oferecer acesso à história vivida por Paulo de Tarso, que é considerado morto pela Lei 9.140, de 1995. No entanto, o mero reconhecimento oficial e condicionado ignora a continuidade das estruturas de repressão que, sob nova roupagem, seguem atuando contra o movimento popular e os defensores dos direitos do povo brasileiro.
A trajetória de um combatente da ALN
Nascido em Morrinhos, no estado de Goiás (GO), Paulo de Tarso Celestino da Silva foi um advogado combativo e militante da ALN que participou ativamente da resistência armada contra a ditadura civil-militar. Filho de Pedro Celestino da Silva, deputado federal cassado pelo Ato Institucional Número 5 (AI-5), Paulo graduou-se na UnB em 1969, onde presidiu a Federação dos Estudantes Universitários de Brasília — entidade estudantil classificada pelos órgãos de repressão como uma organização “subversiva”. A federação também foi presidida pelo líder estudantil Honestino Guimarães, igualmente assassinado pelo regime. Após a formatura, Paulo transferiu-se para Goiânia para exercer a advocacia popular.
O militante tornou-se um dos principais quadros da ALN após o assassinato de Joaquim Câmara Ferreira. Segundo documentos do extinto Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), a polícia política do regime, Paulo teria passado por treinamento de guerrilha em Cuba entre 1969 e 1970, retornando ao Brasil em março de 1971. Sua atuação revolucionária despertou o furor das forças de repressão, sendo julgado e condenado à revelia. Em 12 de julho de 1971, aos 27 anos, foi capturado no Rio de Janeiro por agentes do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), iniciando-se o processo de extermínio nas masmorras clandestinas da reação.
O pai de Paulo, Pedro Celestino, jamais cessou as buscas pelo filho. Em 1974, enviou uma carta ao general Golbery do Couto e Silva, então chefe da Casa Civil do regime militar, clamando pelo cumprimento de garantias mínimas: “Não venho pedir-lhe que o solte, mas o mínimo que se deve garantir à pessoa humana, isto é, seja processado oficialmente, com o direito de sua família dar-lhe assistência jurídica e principalmente humana”. O velho Estado brasileiro negou qualquer resposta, mantendo a farsa cínica de que os desaparecidos políticos estavam “foragidos”.

Essa mentira foi oficializada em 1975 pelo então ministro da “Justiça”, Armando Falcão, que em pronunciamento em cadeia nacional listou Paulo de Tarso entre os supostos “foragidos”. No dia seguinte, o pai de Paulo, em resposta pública veiculada no Jornal do Brasil, desmascarou o ministro, expondo as brutais contradições entre as alegações da pasta e as informações desencontradas repassadas pelo Ministério do Exército.
Atualmente, o corpo de Paulo de Tarso permanece desaparecido — reflexo do caráter criminoso dos agentes do regime que, sob o manto da impunidade, asseguraram que a verdade sobre os assassinatos fosse enterrada em valas clandestinas. A investigação do caso pela Comissão Nacional da Verdade e pela Comissão da Verdade Anísio Teixeira confirmou que a vida do jovem advogado foi ceifada sem qualquer rito processual. A trajetória de Paulo é um testemunho da brutalidade imposta àqueles que ousaram desafiar o poder das classes dominantes e o regime de exploração no Brasil.
A “Casa da Morte” e o terrorismo de Estado em Petrópolis
O destino trágico de Paulo de Tarso está diretamente ligado à “Casa da Morte”, um aparelho clandestino de tortura, conversão forçada e execução mantido pelo Centro de Informações do Exército (CIE) em Petrópolis, Rio de Janeiro (RJ). Localizado no imóvel número 668 da rua Arthur Barbosa, o local foi cedido ao Exército reacionário pelo proprietário Mário Lodders. Conforme o tenente-coronel reformado e torturador Paulo Malhães declarou em depoimento oficial, o centro foi desenhado especificamente para “pressionar presos políticos” a mudarem de lado, atuando como informantes infiltrados sob chantagem.

A única sobrevivente do centro de extermínio, Inês Etienne Romeu — dirigente das organizações Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) e Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop) —, trouxe a público os horrores praticados no local. Em depoimento, ela relatou os momentos finais de Paulo de Tarso, submetido a mais de 30 horas de tortura ininterrupta. “Obrigaram-no a ingerir uma grande quantidade de sal. Durante muitas horas, eu o ouvi suplicando por um pouco d’água”, descreveu Inês. O advogado foi colocado no pau de arara e recebeu sucessivas descargas elétricas até a morte.
Estima-se que ao menos 22 opositores do regime foram executados ou não resistiram às torturas no aparelho de Petrópolis. Entre os algozes identificados está o ex-paraquedista Antônio Waneir Pinheiro Lima, conhecido como “Camarão”, denunciado também por crimes de violência sexual. Inês Etienne Romeu, mantida em cativeiro por três meses, denunciou ter sido estuprada repetidas vezes pelo agente da repressão.
A responsabilização desses criminosos caminhou a passos lentos, esbarrando nas barreiras erguidas pela própria política de impunidade que vigora nas instituições do velho Estado. Somente em 2020, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou os sargentos Rubens Gomes Carneiro (o “Boamorte”) e Ubirajara Ribeiro de Souza (o “Zezão”), além do soldado Antônio Waneir Pinheiro Lima. O pedido incluía a perda de cargo público e o cancelamento de aposentadorias — medidas flagrantemente insuficientes diante da gravidade dos crimes contra a humanidade cometidos.
A impunidade histórica e a continuidade do terror contra o povo
Em 2025, uma Ação Civil Pública (ACP) resultou em sentença da 1ª Vara Federal de Petrópolis que declarou a responsabilidade dos ex-militares do CIE por violações graves, incluindo o sequestro, tortura e desaparecimento de Paulo de Tarso. A decisão judicial determinou que os réus ressarcissem à União o valor irrisório de R$ 110 mil, referente à indenização paga à família, além de condenações por danos morais coletivos. O juiz do caso destacou que a Lei de Anistia de 1979 não pode servir como escudo para proteger crimes contra a humanidade, classificados como imprescritíveis pelo Direito Internacional.
Embora a sentença represente uma vitória na esfera jurídica e administrativa, ela revela a incapacidade do Judiciário burguês em punir penalmente os torturadores. O pagamento de indenizações financeiras não apaga a trajetória de impunidade que protegeu esses agentes durante décadas. Muitos dos perpetradores morreram em liberdade e usufruindo de gordas pensões estatais, enquanto as famílias das vítimas continuam sem o direito de sepultar seus mortos.

Essa política de extermínio e perseguição política promovida pelo velho Estado guarda profundas semelhanças com a atual repressão desatada contra o movimento camponês combativo, em particular contra a Liga dos Camponeses Pobres (LCP). Na chamada “Operação Verde Brasil 1”, em 2019, sob o pretexto de fiscalização ambiental, forças militares invadiram violentamente moradias em Seringueiras, no estado de Rondônia (RO). Denúncias da Comissão Nacional das LCP apontam que, durante uma semana, as tropas cometeram todo tipo de intimidação, ameaça, abuso e humilhação contra as famílias trabalhadoras. O modus operandi permanece idêntico ao do regime passado: invasão ilegal de domicílios, caça a lideranças e perseguição a advogados populares que defendem o direito ao corte da terra.
Em 2021, a escalada repressiva materializou-se na operação de guerra “Nova Mutum”, um cerco militar-policial contra 800 famílias camponesas instaladas nas Áreas Tiago Campin dos Santos, Dois Amigos e Ademar Ferreira. Com um custo superior a R$ 1 milhão por dia aos cofres públicos, o velho Estado buscou desalojar pela força os trabalhadores, destruindo lavouras e habitações. A resistência camponesa foi contundente, rechaçando o cerco com barricadas e resultando na retomada vitoriosa dos lotes em 27 de novembro do mesmo ano.
No Senado Federal, avançam projetos de lei que visam legalizar e aprofundar as intervenções militares contra o povo. O projeto do parlamentar Eduardo Girão (Novo), que dispensa a necessidade de decretação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para a mobilização de tropas em áreas rurais, coloca sob a mira direta as ocupações camponesas, indígenas e quilombolas. A convergência de interesses entre a extrema-direita, o latifúndio agroexportador e a omissão conivente da falsa esquerda oportunista configura um cenário de cerco reacionário contra a luta pela terra. A Amazônia, cobiçada pelo imperialismo, torna-se o laboratório onde essa política de guerra civil contra as massas populares é continuamente refinada.
