Editorial semanal – A cabeça da serpente golpista

Editorial semanal – A cabeça da serpente golpista

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Segundo jornalista da CNN, com informações vazadas de bastidores, o Alto Comando do Exército discutiu, durante reuniões em novembro, se tomaria ou não a iniciativa por uma “intervenção militar” antes da posse de Luiz Inácio. Ainda segundo o monopólio de imprensa, por maioria, os generais reacionários concluíram que não era o momento de culminar o golpe. A informação dá conta ainda que um dos principais articuladores da propaganda golpista seria Walter Braga Netto, general de quatro estrelas da reserva e candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro, o Fraco. Obviamente, o general negou, mas não convenceu.

O veículo norte-americano no Brasil ainda destaca que na Marinha foi onde houve maior apoio à ruptura institucional, então chefiada pelo almirante Garnier Santos – o mesmo que, irado, sequer participou da cerimônia na qual passaria o comando. A jornalista Marcela Matos, da revista Veja, informa ainda que corre comentários nos bastidores do novo governo sobre uma articulação que envolveu fuzileiros navais, que estariam mobilizados para iniciar um motim como chispa do movimento golpista. A iniciativa foi abortada, pois não teria havido unidade no Alto Comando das Forças Armadas (ACFA). Teria sido por essa razão que o general Braga Netto aconselhou acampados que pediam golpe militar em Brasília a esperar e “não perder a fé”?

Segundo a CNN, por essa razão, em novembro, fotos de cinco oficiais-generais das Forças Armadas foram divulgadas pela extrema-direita com a sentença: “generais melancias que impediram intervenção militar” (melancias, quer dizer, “verde por fora, vermelho por dentro”).

O jornalista ultrarreacionário William Waack também informa que, segundo fontes no ACFA, os generais têm, fundamentalmente, duas opiniões sobre as eleições: uma parte, francamente minoritária, considera que houve fraude eleitoral, e a imensa maioria considera – em palavras literais – que “as eleições foram estranhas”, isto é, que teria havido ingerência do STF no processo eleitoral e antes dele em favorecimento de Lula.

Em sendo tudo verdade – e nada indica que seja de tudo mentira – trata-se de uma forte mensagem: as Forças Armadas reacionárias estão, de fato, convictas de que poderão ter que culminar um golpe militar, sendo a divergência a definição quanto ao momento e situação. Afinal, a lógica diz que se o ACFA considerasse um princípio a não-intervenção, não a teria discutido como possibilidade (sem mencionar a defesa explícita, desde sempre feita na caserna, inclusive publicamente, de que as Forças Armadas supostamente têm mandato para intervir).

Fato é que a maioria do ACFA – direita hegemônica – não quer errar o timing, porque um golpe militar precipitado pode levantar um mar de massas em resposta e prejudicar seu plano contrarrevolucionário de ser reconhecidas as Forças Armadas como Poder Moderador, condição para melhor combater as massas revolucionárias que se sublevarão inevitavelmente. Mas, assim como sabe que não pode errar o timing, igualmente está convicta de que, mais cedo do que tarde, terá que se lançar no culminar do golpe de Estado. Isto porque as Forças Armadas reacionárias são, no Brasil, não somente medula do velho Estado o qual sustenta, são também tutoras deste Estado e de seus governos de turno e, pretendem-se, de toda a Nação.

As tão propaladas remoções e demissões de militares, em especial do ex-comandante do Exército, Júlio César Arruda, por insubordinação ao recusar-se cumprir ordem do presidente da república, e a substituição pelo novo comandante Tomás Miguel Ribeiro Paiva estão sendo usadas, uma vez mais, para enganar a opinião pública de que o País vive normalidade. Longe disso, o Brasil está diante da maior crise militar dos últimos 35 anos.

Sendo assim, é estupidez completa crer que a nomeação deste ou daquele general com pele de cordeiro para o cargo de comandante possa transformar a natureza mesma das forças – cujo ACFA, inclusive, é formado na mesma cartilha e cursos definidos pelo regime militar, cursos que o governo do oportunismo, em mais de 14 anos de gerência, nunca teve peito para mudar, e tampouco o fará agora. Esse movimento golpista, que agora todos veem, foi concebido no ACFA como resposta preventiva ao provável levantamento popular revolucionário ante a putrefação política, como parte da decomposição da base econômica a que chegou o sistema de exploração e opressão secularmente vigente, e que as rebeliões de 2013/14 prenunciavam de ocorrer. Ele veio à luz em 2015 com a cruzada anticorrupção, a princípio incentivado pela Rede Globo com sua ode à Lava Jato, e agora já dá seus primeiros suspiros de vida adulta. Não há remédio que dê jeito: é preciso enterrá-lo.

Todos os democratas e revolucionários devem ter em claro que é preciso combinar a denúncia com a mobilização de massas, educá-las no espírito de assegurar suas liberdades democráticas como a menina dos olhos, porque são as melhores condições para a defesa dos seus interesses mais sentidos. Isso só é possível através de levantá-las em defesa dos seus interesses básicos, por arrancar da reação melhorias em suas condições de vida através das tomadas de terras no campo, greves e marchas nas cidades, enfim, na luta de classes: ali aprenderão a desmascarar golpistas de alto coturno, que comem na mesma mesa dos exploradores e saqueadores do povo e da Nação enquanto arrotam patriotismo barato para a pequena burguesia hipnotizada. Ademais, e principalmente: é preciso instruir as massas, especialmente os operários, camponeses, juventude e pequenos proprietários de que poderão ter tudo o que querem hoje e muito mais com o Poder político nas mãos, arrancado à força de seus algozes, na luta prolongada e cheia de peripécias, pela Revolução Democrática, Agrária e Anti-imperialista.

Imagem em destaque: As Forças Armadas reacionárias são não somente medula do velho Estado o qual sustenta, são também tutoras deste Estado e de seus governos de turno e, pretendem-se, de toda a Nação. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
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