“De nunca sairá: ainda hoje.”
(Bertolt Brecht, Elogio da dialética, 1934)
Joseph Conrad diz, logo nas primeiras páginas de Coração das Trevas: “A conquista da terra, que na maior parte significa tomá-la daqueles que têm uma tez diferente ou narizes um pouco mais achatados que os nossos, não é uma coisa bonita quando se olha para ela de perto demais. O que a redime é apenas a ideia.”
Sim! A “ideia”! A tão bela e civilizatória “ideia”! Que foi feito, afinal, da hegeliana “Ideia”, cujo espírito marchava com Napoleão sobre Jena, e que prenunciava a superação de toda contradição e o reino da liberdade? Que foi feito do hierático “fardo do homem branco” de Rudyard Kipling que bateu às portas do século XX? No Congo, onde a história de Conrad se passa, essa mesma “ideia” ceifou a vida de dez milhões de pessoas sob o mando do rei Leopoldo II, a quem a Conferência de Berlim, no ápice da partilha final do mundo entre as potências, reconheceu como soberano de um território que ainda não era sequer colônia da Bélgica – era propriedade privada de um homem só. E quanto ao depois?
Fukuyama, o arauto de todo o cretinismo da teoria burguesa contemporânea, não nos deixa ter dúvidas sobre seu destino. Diz com uma clareza de embrulhar o estômago: “Poderíamos resumir o conteúdo do Estado universal homogêneo como a democracia liberal na esfera política, combinada com o fácil acesso a videocassetes e aparelhos de som na esfera econômica.”
Duas bombas atômicas lançadas contra Hiroshima e Nagasaki, o genocídio de um terço da população coreana, as guerras na Indochina, um milhão de mortos na guerra entre Iraque e Irã, as guerras do Golfo e a balcanização da Iugoslávia, os cinco milhões de mortos na “guerra ao terror”. É este o preço do “fácil acesso” a eletrônicos. Não apenas! Também da “benção” da “democracia liberal”, núcleo “espiritual” do “Estado universal homogêneo” e a realização mesma da “ideia”, que agora acompanha os drones no lugar de Napoleão.
Removida a metafísica, o que resta é a coisa nua: o Estado não é reconciliação de nenhum espírito consigo mesmo, mas um corpo especial de homens armados, com prisões e demais anexos, erguido no interior da sociedade civil no momento em que esta se cinde irreconciliavelmente em classes, para garantir a uma delas a posse do que a outra produz.

Nos países imperialistas, esse corpo veste e tenta manter intacta, tanto quanto pode, a toga da “democracia liberal”: regula-se por parlamentos, tem seu poder de classe mediado – mas nunca suprimido – pela forma republicana, pode dar-se ao luxo da dissimulação constitucional. Nas semicolônias, a toga está perenemente rasgada ao meio e qualquer vento mostra as nádegas nuas do monstro que esconde: o Estado burguês contemporâneo, ali, não substitui o velho Estado latifundiário; soma-se a ele. Imperialismo, feudalismo (ou seus resíduos semifeudais no campo) e capitalismo burocrático conformam uma só aliança de classe em que se administra, em nome do capital estrangeiro, um aparato que superpõe uma burocracia formalmente moderna ao mando do coronel, do latifundiário – o que não é segredo algum para qualquer um que se afasta alguns quilômetros dos grandes centros.
Quanto ao “fácil acesso a videocassetes e aparelhos de som”, ele assume, nas potências, a forma do consumismo zumbificado e do entorpecimento produzido pela expansão do crédito, que desemboca no endividamento permanente; nas semicolônias, a forma de breves e danosas bolhas de consumo – produzidas pela exportação de capitais, pela destruição das indústrias nacionais que a acompanha e pelo barateamento da mão de obra colocada em serviço das transnacionais – nas quais uma pequena parcela pode experimentar, como se momentaneamente transportada à Times Square, os “benefícios” da produção monopolista que corrói qualquer mínima possibilidade de desenvolvimento nacional, até que a crise a arruíne também e lhe sobre ainda menos.
A história, onde existe, reside na guerra constante do “Estado universal homogêneo” contra a “instabilidade regional”, o “regime desonesto”, a “ameaça à segurança internacional”, diz-nos a “ideia”. Fora dessa guerra, segue o conto, nada acontece: tudo é perfeito e o melhor dos mundos possíveis; dentro dela, tudo o que acontece é, por definição, resíduo, patologia a ser tratada pelo mesmo sistema que outrora carregava o “fardo” da “missão civilizadora” e hoje se jacta da “intervenção humanitária” e da “guerra ao terror”. A palavra muda e até se adequa às sensibilidades contemporâneas, quando necessário; a bomba, a base militar e o empréstimo do FMI continuam cumprindo a mesma função.
A “ideia” chega às terras “incivilizadas” para lançá-las nesse “além-história” quando, do sangue derramado, começam a brotar, agora, os telefones celulares; mais precisamente, quando as riquezas do país começam a ser açambarcadas pelo imperialismo, como no caso da Venezuela atual, onde as massas resistem em armas e por isso são um obstáculo a ser extirpado. O “Estado universal homogêneo”, a sua “democracia liberal”, curiosamente traz consigo, às vezes, como na Líbia, o retorno da escravidão; outras, como no Iraque, a destruição das estruturas estatais, a dissolução do exército e o caos institucional permanente; e, sempre, a ruína material sobre a qual se promete edificar a prosperidade. Assim se realiza a “ideia”: onde antes havia “instabilidade”, deixa-se um mercado cativo; onde havia um país, abre-se uma semicolônia (concretamente: digladiam-se os países imperialistas pela repartilha das semicolônias); onde havia um povo, deseja-se mão de obra barata e um conjunto de consumidores em potencial – se ousarem reclamar, que se tornem mais carne de sacrifício, pelo que serão eventualmente tomados reclamem ou não.
Hegel ainda tinha sobre si a sombra do romântico, sob a qual a razão podia permitir-se sonhar – luxo de época, dir-se-ia, esse de errar com paixão, mesmo que uma paixão racional; Conrad e Kipling, lidos a contrapelo, fazem-nos considerar que a hipocrisia era, quem sabe, uma dignidade última, a última cortesia que o carrasco ainda prestava à vítima: a de fingir, ao menos, que não gostava do ofício. Mas o que dizer dessa coisa grotesca que hoje se exibe sem pudor algum e encontra em figuras cada vez mais depravadas, entre canibais e pedófilos, sua manifestação necessária? A “ideia”, há muito, deixou de ser sonho – deixou até de ser pesadelo, pois o pesadelo ainda supõe alguém que, ao despertar, se perturbe com o que sonhou –, e tornou-se na alma penada de um morto que caminha ostentando as carnes roídas por vermes e chamando de “progresso” o fedor que exala de si.

Como poderia ser diferente? Assim são as “ideias” que querem sobreviver sem corpo vivo que as sustente, insistindo em declamar coisas grandiosas. E é fundamental compreendê-lo, pois haverá quem, afirmando estar contra a feiura aparente da “ideia” efetivamente realizada, diga o contrário – os que se enganam de boa-fé e os que se enganam porque lhes convém. Dirão que não se trata, hoje, senão de realizar de outra maneira a mesma “ideia”, trazendo ao primeiro plano aquilo que foi esquecido pela velha forma de universalismo, sejam as identidades ou as formas de distribuição de certas utopias muito bonitas para três séculos atrás e totalmente impossíveis.
Em que grande confusão entram quando veem os aviões e drones da “ideia” podre atacando a “não-ideia” viva! Que difícil lhes parece escolher entre a defesa da nação que resiste à agressão estrangeira e a do império que concentra quase um sexto da população carcerária mundial – parcela que, em suas prisões, permanece legalmente escravizada –, que em Guantánamo manteve homens presos por décadas sem acusação nem julgamento, sob torturas hoje fartamente documentadas, e que, apesar disso, propagandeia, como se lhe coubesse alguma superioridade moral, os maus-tratos infligidos pelo seu alvo aos prisioneiros de guerra que este capturou! A trapalhada, para alguns deles, se desfaria facilmente se retirássemos do cálculo os rendosos acordos editoriais e os convites para palestras acadêmicas, mas já isso seria como tirar da criança o doce.
A “ideia” insiste em revelar sua velha substância, apesar dos sonhos breves e meio melancólicos de quem procura “resolver”, provisoriamente e sem finalidade real, nas palavras escritas e incessantemente revisadas para a próxima impressão, aquilo que a realidade não admite. Não é possível corrigir os efeitos da contradição sem tocar na contradição que os produz. Quando muito, consegue-se administrar algumas de suas manifestações até estourar a nova crise. Ao fim do dia, não há maneira de tornar a exploração mais inclusiva, a pobreza mais digna, a dominação mais representativa e o imperialismo mais apresentável, seja ele conduzido por um único país ou por um bloco ou outro de países. E é igualmente impossível retomar, senão quando muito bem protegidos da realidade, o ofício especulativo e esteticista como se fosse a maneira de sair triunfante do meio das tripas e da miséria.
Platão, em que pese sua filiação à sociedade escravista ateniense e a metafísica de suas concepções, ainda sabia disso melhor que os epígonos do idealismo contemporâneo. Antes do escolasticismo castrá-la, sua tão famosa interpretação do amor, do Eros, dizia que o amante ideal é aquele que sente o desejo mais intenso possível. O verdadeiro amante, ao ver o corpo belo, sente um “calafrio” e um “ardor” (as penas da alma que estão renascendo). O Eros ideal não é frio; é um fogo sagrado. Mas o amante não deseja apenas possuir o corpo do amado para sempre (isso seria degradante), mas sim gerar virtude, sabedoria e bons discursos na alma do amado. É um amor pedagógico e fecundo. O amante quer tornar o amado melhor, e, ao fazer isso, ambos se tornam mais sábios e imortais. Diferente do amor não correspondido pelo qual é tomado, o amor platônico, em sua descrição inicial, exige que o amado também seja virtuoso e corresponda filosoficamente. No Fedro, a alma do amado, ao ser cortejada com respeito, sente um “amor reflexo” – um Eros que espelha o do amante, criando uma amizade perfeita baseada na admiração mútua pela Beleza e pela Verdade.
Em termos menos abstratos e mais resumidos, o amor do amante, em busca do Eros, de sua perfeição, da relação tão humana entre dois seres e da expectativa da elevação de um através do outro, depende da carne do que é amado, encontra nela a primeira porta pela qual adentrar; mas não encerra no desejo de possuí-la sua busca, que, a partir dela, dirige-se às formas mais elevadas de amar conjuntamente. Igualmente, se a carne e o espírito do amado não correspondem, não pode haver amor verdadeiro – e a busca precisa ser retomada.
Não é essa uma experiência comum? Tão comum é a busca quanto o sofrimento de descobri-la frustrada. Mas ao sofrimento momentâneo não deve corresponder, indefinidamente, o sofrimento como uma atitude, precisamente a resultante dessa coisa degradada que chama-se vulgarmente “amor platônico”, por vezes muito “casto” (leia-se covarde) para se deixar confirmar ou ser rejeitado, pois também a covardia de confessar-se ou de ir além do que se confirma impossível é fruto de um apetite irracional às avessas, o deixar-se esfomear para possuir, na ideia estacionária – que é estacionária pois a ideia move-se apenas através da luta entre contrários –, aquilo que já não se dirige nem ao corpo nem ao espírito: a capacidade de tiranizar o amado apenas idealizado, devorando internamente o que dele se queria extrair. Ironicamente, o tirano mais acovardado torna-se o maior escravo de seus próprios impulsos, vivendo numa angústia permanente. E, certamente, muitas músicas já foram escritas sobre isso, das belas Wanderlieder alemãs às menos belas sofrências.
Mas, deixando o amor de lado, que é demasiado complexo e ademais está melhor na poesia, e também Platão, que, por seu lado, detestava a poesia e desprezava constantemente a matéria, preservemos da coisa apenas o seu princípio que pode ser aproveitado: a ideia, qualquer seja, tem na carne, isto é, na matéria, o seu fundamento, aquilo que nos causa “ardor” e nos faz querer mais, nos faz buscar o movimento ascensional em que se realiza a junção entre o que é material e o que se projeta para além, se não para os céus, para o que a história nos permite afirmar como possível. Quando ambas as coisas andam em conjunto, desenvolve-se uma espécie de fé que guia, uma possibilidade de encontrar, na escuridão momentânea, no terreno ainda não pisado, um caminho. E quando não andam? Em termos psicológicos, o amor pela matéria morta resolve-se no luto, e tanto o luto quanto o movimento frustrado devem se resolver na retomada do caminho ou resultam em melancolia.

Por que, então, em política, deveríamos nos sentir autorizados e justificados a tentar restaurar a “ideia” morta, o caminho que dela se desviou e não pode a encontrar, o “ardor” que não tem equivalente na matéria e na ideia que dela pode ser extraída? O que faz ser tão apetitosa a perspectiva de tornar-mo-nos “artistas da fome” em benefício de ninguém? Ora, o personagem kafkiano ao menos tinha a desculpa de nunca ter encontrado comida que lhe agradasse! A realidade social, a história, porém, é muito menos desoladora. Deu-nos a todos, matéria e ideia, uma perspectiva que permite o otimismo e que não depende, de forma alguma, da “ideia” que se redime “por si só”, apesar do gangsterismo que a suporta ou, desfeito o véu da hipocrisia, até mesmo através dele.
A triunfal marcha de Napoleão sobre Jena desembocou, décadas depois, na repressão ao proletariado nas Jornadas de Junho de 1848, quando forças burguesas e feudais se ergueram em uníssono contra a insurreição operária; os restos mortais do cavaleiro do apocalipse burguês, da “revelação” que a tudo consumaria, por uma dessas coincidências simbólicas que a história insiste em nos dar, foram repatriados às criptas francesas antes disso, em 1840, por iniciativa do mesmo Adolphe Thiers, então presidente do Conselho sob o reinado de Luís Filipe I, que, em 1871, conduziria a ainda mais sangrenta repressão à Comuna de Paris. A “ideia” de Conrad e o “fardo do homem branco” de Kipling, por sua vez, encontraram seu corpo histórico esquartejado no Congo, onde a violência colonial produziu uma catástrofe demográfica de proporções extraordinárias, e na Europa banhada em sangue de trabalhadores pela Primeira Guerra Mundial imperialista, numa guerra que só serviu, de um lado, à acirrar ainda mais a contradição entre as potências e a decomposição imperialista, e, de outro, à apressar o caminho da revolução, essa sim viva, que varreu da terra o czarismo, o bastião de todo atraso histórico no continente, o qual a “civilização” europeia tudo fez para reabilitar.
É agora possível crer que essa mesma “ideia” acompanha a bomba atômica e o drone empunhados pelo imperialismo como ameaça contra o mundo todo? Ou que há como desatar uma coisa da outra e crer apenas na “ideia” contra a bomba atômica e o drone assim empunhados? Em ambos os casos, o que se pretende é separar aquilo que a história uniu; preservar a “ideia”, já apodrecida, e rejeitar o corpo que a apodreceu. Certamente não encontraremos, de uma forma ou de outra, reflexo de um amor apropriado a quem deseja a paz e o desenvolvimento da sociedade, a libertação das energias criadoras das grandes massas e o fim das formas de exploração e opressão impostas pelo imperialismo. Teremos, se quisermos defendê-la, essa “ideia”, de nos tornarmos covardes diante daquilo que ela efetivamente se tornou. E nada há de mais degradante, como atitude diante da realidade, que a covardia de recusar suas consequências.

A “ideia” que morre, que já morreu é a que se divorciou das condições materiais de sua realização – divórcio imposto por quem, servindo-se dela, tinha nisso seu interesse; satisfeito esse interesse, a “ideia” permanece, desde então, em pura impotência diante da realidade. A ideia que vive, que se verifica dia após dia, na sociedade em geral, é aquela que espelha a busca por uma sociedade em que a Beleza e a Verdade, a Justiça e a Razão que cantaram o galo gaulês – ou, de modo mais simples e potente, o fim da exploração do homem pelo homem, o único dos grandes objetivos que leva certamente a todos os outros – possam conformar-se à matéria, sem recurso metafísico: não a universalidade que se contenta em ser apenas especulativa, declarando-se sem nunca se realizar, mas aquela que a sociedade sem classes, e só ela, fará nascer. Segue-se que a ideia adquire sua vida e concretude no processo histórico que, quebrando primeiro as correntes do imperialismo e do feudalismo na nova democracia, e depois dando cabo da burguesia enquanto classe no socialismo, conduz a humanidade, degrau a degrau, ao salto do reino da necessidade para o reino da liberdade.
E que contra essa ideia viva se ergam tantos e todos os diversos obstáculos da velha ordem é bom: isso comprova, precisamente, sua pujança e o terror que causa às classes dominantes. Estas, se já não se dão sequer ao trabalho de lamentar hipocritamente – salvo por meio de um ou outro espetáculo cinematográfico emburrecedor – a sanguinolência necessária para manter o mundo em cadeias, se já não sonham nem têm pesadelos com seu percurso sinistro, ainda despertam aterrorizadas ao saber que aqueles que pretendiam trancafiar, pela miséria e a ameaça ou pelas formas diversas de entorpecimento dos sentidos, no espaço constrito de sua decadente sociedade, martelam decididamente a Caixa de Pandora até que a tenham reduzida a pó, não temem mais os males por ela libertados e redescobrem a esperança que a burguesia, ao passar à contrarrevolução, pretendeu tomar de todos.
Que, assim, se enterre a “ideia”, isto é, o cadáver do corpo social que a sustentava e que, ao morrer, a deixou em pura impotência, à mercê tanto dos covardes que se recusam à autópsia por apego quanto dos que, sabendo-a morta, lucram com sua decomposição. Que se enterre, pois, sem temor de que se perca com ela alguma serventia: já não há, para ela, qualquer uma; ela nada é senão a representação espiritual dos vermes que roem as carnes desse mesmo corpo. E que viva a ideia: aquela que encontramos na matéria viva da luta, o corpo que cada povo, e o conjunto de todos eles, lhe dá ao realizá-la; aquela que só vive porque as massas a fazem viver, que só se transforma porque a luta a transforma e que, transformada por ela, é lançada, sempre jovem, contra toda a velharia que quer impedir seu avanço!
