ES: 200 famílias ocupam área da Suzano em Aracruz

18/04/2023
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250 camponeses ocuparam área da Suzano no ES. Foto: MST/Reprodução

Cerca de 200 famílias camponesas ocuparam uma área do monopólio latifundiário Suzano Papel e Celulose LTDA em Aracruz, no norte do Espírito Santo, na madrugada do dia 17 de abril. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) denuncia que a fazenda é de propriedade da União e foi grilada pela Aracruz Celulose, empresa adquirida pela Suzano há cinco anos. No mesmo dia, a “Justiça” do Espírito Santo atendeu ao pedido da Suzano de reintegração de posse da terra ocupada.

O juiz Fábio Massariol, da Comarca de Aracruz, autorizou a polícia a usar a força para retirar as famílias e estabeleceu multa de R$ 5 mil por hora para cada camponês que descumprir o pedido. A rapidez em decretar a reintegração à favor do latifúndio contrasta com a morosidade com que o judiciário do velho Estado atua nos processos de titulação de terras para os camponeses pobres e nas entregas de terra à camponeses sem terra através da falida “reforma agrária”.

A ocupação faz parte do Abril Vermelho, uma jornada de luta pela terra em memória do massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 17/04/1996.

Velha inimiga dos camponeses

Segundo os camponeses, a Suzano é a maior inimiga do campesinato do estado. O monopólio latifundiário concentra a maior parte das terras do ES e a tendência é continuar avançando com eucaliptos, principalmente no norte. Em comunicado oficial, o MST denunciou que a Aracruz Celulose, atual Suzano, “grila terra no estado [ES] há mais de três décadas, nos municípios de Serra, Aracruz, Linhares, São Mateus e Conceição da Barra. Chegando no total de mais de 11 mil hectares”. 

O histórico de grilagens da empresa remonta aos tempos do regime militar. A antiga Aracruz Celulose, fundada em 1972, foi acusada de fraudar a titulação de mais de 50 terrenos rurais logo nos seus primeiros anos, entre 1973 e 1975. O esquema foi descoberto pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Aracruz, em 2002.

As famílias camponesas de todo o Brasil repudiam a Suzano Papel e Celulose LTDA e os  impactos ambientais irreversíveis que a empresa causa, como assoreamento de rios, enchentes, deslizamentos de terra, secas prolongadas e incêndios devastadores. Enquanto leva miséria aos camponeses, somente no terceiro bimestre de 2022, a empresa latifundiária teve R$ 5,44 bilhões de lucros, e a venda de celulose e papel ultrapassou as marcas de 2,8 e 311 milhões de toneladas, respectivamente. 

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Suzano mente e camponeses elevam sua luta

A Suzano já havia firmado um acordo em 2015 que previa a indicação de propriedades rurais a serem adquiridas pelo Incra para fins de “reforma agrária”. Dos 12 imóveis indicados (que custariam no total R$ 200 milhões), o Incra comprou somente dois e paralisou o processo. Frente a isso, camponeses de todos o Brasil se mobilizaram em tomadas de terras no final de fevereiro, ocupando três latifúndios eucalipteiros da Suzano em Teixeira de Freitas, Mucuri e Caravelas, no sul da Bahia, e um agora, em 17/04, no ES.

Filme se repete

Na ocasião das ocupações das terras da Suzano na Bahia, logo nos primeiros dias, as famílias foram despejadas e uma reunião entre Paulo Teixeira, ministro do Desenvolvimento Agrário do governo Lula/Alckmin, Incra, MST e Suzano foi marcada. Nela, o ministro admitiu que, devido à diferença entre o quanto é necessário para realizar o assentamento das 1,5 mil famílias e o valor irrisório que o Incra tem em seus cofres para a “Reforma Agrária”, não há garantia para assentar as famílias em luta que ocuparam as terras.

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Contra o latifúndio e em busca de terra para quem nela trabalha, camponeses de todo o país têm organizado ocupações e tomadas de terra. No sul da Bahia, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) denunciou o governador da Bahia (Jerônimo Rodrigues/PT) e a “justiça” por uma ação de reintegração de posse realizada por policiais e pistoleiros que despejou 250 famílias em 31 de março. Em panfleto, a LCP afirmou que “a única solução para essa grave crise econômica é tomar as terras do latifúndio e entregá-las aos camponeses pobres sem terra ou com pouca terra, aos trabalhadores desempregados, aos pais e mães de família, para que possam produzir alimentos nas terras abandonadas pelo latifúndio parasita”.

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