EUA mobiliza três B-52 com capacidade nuclear nas cercanias do Brasil em missão para ‘dissuadir adversários’

O governo brasileiro e a Aeronáutica não foram informados da manobra porque, segundo as informações de apuração, “o espaço aéreo nacional não seria utilizado”. A ausência de aviso, contudo, não eliminou a repercussão da operação em Brasília.
Bombardeiro B-52H. Legenda: Divulgação/Boeing
Bombardeiro B-52H. Legenda: Divulgação/Boeing
Bombardeiro B-52H. Legenda: Divulgação/Boeing

EUA mobiliza três B-52 com capacidade nuclear nas cercanias do Brasil em missão para ‘dissuadir adversários’

O governo brasileiro e a Aeronáutica não foram informados da manobra porque, segundo as informações de apuração, “o espaço aéreo nacional não seria utilizado”. A ausência de aviso, contudo, não eliminou a repercussão da operação em Brasília.

Três bombardeiros estratégicos B-52H Stratofortress decolaram em 11 de agosto da Base Aérea de Minot, na Dakota do Norte, para uma operação planejada de até 29 horas no Cone Sul, apoiada por sete aviões-tanque e coordenada com caças F-16 da Argentina e do Chile. As aeronaves retornaram cerca de seis horas e meia depois, possivelmente após uma falha ainda não confirmada em um KC-135, mas o Comando Sul informou ao monopólio de imprensa Folha de São Paulo que a missão “foi postergada devido a outras exigências operacionais”, mantendo de pé uma operação que seria inédita pelo grau de integração com os dois governos lacaios fora de exercício multinacional.

O governo brasileiro e a Aeronáutica não foram informados da manobra porque, segundo as informações de apuração, “o espaço aéreo nacional não seria utilizado”. A ausência de aviso, contudo, não eliminou a repercussão da operação em Brasília. Oficiais da Força Aérea Brasileira ouvidos pela Folha chamaram atenção para o momento escolhido, enquanto integrantes do governo brasileiro interpretaram a ação como a demonstração mais aberta, até então, de pressão militar do imperialismo ianque sobre o Brasil na crise atual. 

Uma operação ‘inusitada’

O plano previa que os três B-52H voassem sem pousar na região e fossem acompanhados, no trajeto até o Cone Sul, por sete KC-135 Stratotanker baseados em MacDill, na Flórida. Na área de operação, a previsão era de coordenação com caças F-16 argentinos e chilenos. O B-52H possui capacidade para transportar armamento nuclear ou convencional, enquanto a missão estava enquadrada nas Forças-Tarefas de Bombardeiros (Bomber Task Force – BTF), operações concebidas para deslocamentos rápidos e emprego de amplo poder de fogo.

A suspeita sobre o reabastecedor partiu do site chileno Zona Defensa, que apontou uma falha ainda não confirmada em um dos KC-135 como possível causa do retorno de todas as aeronaves. Os itinerários foram acompanhados por sites de monitoramento do tráfego aéreo porque os sistemas de localização permaneciam ligados. Pela dimensão da coordenação regional, uma operação desse tipo exige planejamento de pelo menos uma ou duas semanas, o que mostra que o voo estava previamente estruturado e não surgiu como uma decisão improvisada.

O Comando Sul do EUA (Southcom) não apresentou detalhes sobre as “outras exigências operacionais” mencionadas à Folha e não classificou a operação como cancelada. A formulação indica adiamento, e não abandono do plano. O aspecto inédito não seria simplesmente a presença de B-52 no continente. Bombardeiros desse tipo já haviam operado na região em 2016, em coordenação com a Colômbia, e participado de manobras conjuntas em 2020 e 2024. Em 2025, voos com os gigantes de oito motores foram empregados na estratégia de pressão sobre a Venezuela. Desta vez, entretanto, estava prevista uma coordenação direta com Argentina e Chile, fora de um exercício multinacional, e com os bombardeiros avançando mais ao sul do continente do que em operações anteriores. 

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Argentina e Chile como plataformas de interoperabilidade

A própria formulação de “assegurar aliados e dissuadir adversários” ajuda a definir a finalidade da operação. Argentina e Chile, portanto, seriam utilizados como plataformas políticas e militares para demonstrar interoperabilidade com o comando ianque. A escolha dos dois países ocorre enquanto seus governos aprofundam a cooperação militar com Washington, tornando a operação um sinal de alinhamento regional e não apenas uma atividade técnica de aviação.

O contexto político reforça o significado da movimentação. A relação entre o governo de Donald Trump e o governo de Luiz Inácio atravessa uma fase de forte tensão, marcada pela sobretaxa de produtos brasileiros e pela cassação do visto da representante brasileira em Washington, apresentada como instrumento de pressão em torno da indicação do novo embaixador em Brasília e parte de uma guerra de baixa intensidade mais ampla. Ao mesmo tempo, a China demonstrou apoio a Luiz Inácio e buscou participar da ação brasileira na Organização Mundial do Comércio (OMC), aprofundando a disputa pela influência econômica e política na região.

É nesse ambiente que a operação dos B-52H aparece como elemento militar da chamada “Doutrina Donroe”, releitura da Doutrina Monroe defendida pelo governo Trump. O Departamento de Estado ianque divulgou em 11 de agosto um vídeo de cinco minutos, narrado pelo embaixador ianque no Panamá, Kevin Marino Cabrera, exaltando a doutrina e afirmando que o domínio do EUA no chamado Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado”, apresentando Trump como seu “mais recente defensor”. A divulgação coincidiu com a tentativa de reafirmar a primazia regional diante de rivais imperialistas como China e Rússia.

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A releitura da Doutrina Monroe foi incorporada à Estratégia de Segurança Nacional (ESN) publicada no fim de 2025. O documento confessa de forma explícita o esgotamento do modelo de hegemonia única, declarando que “os dias em que o Estados Unidos sustentava toda a ordem mundial como Atlas acabaram”. A nova orientação, nesse enquadramento, passa a concentrar maior atenção no “Hemisfério Ocidental” e na disputa pela influência sobre a América Latina. O vídeo do Departamento de Estado recuperou episódios históricos de intervenção, do corolário de Theodore Roosevelt às ações no Panamá, em Porto Rico e à crise dos mísseis em Cuba, para apresentar a política atual como continuidade dessa “tradição”. 

Pressão regional e avanço da estrutura militar 

A demonstração aérea também se soma a outras medidas militares adotadas no entorno regional. Em julho, Marco Rubio convocou representantes de 66 governos para uma reunião sobre o chamado “Ressurgimento do Terrorismo Político” e da “extrema esquerda”, apontando como alvos forças “anticapitalistas, anti-imperialistas, comunistas, anarquistas e marxistas”. 

Na XVII Conferência de Ministros de Defesa das Américas, em Cusco, Washington defendeu o aumento dos gastos militares dos países latino-americanos para 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e a ampliação de operativos conjuntos e da vigilância fronteiriça. “Não há razão para que qualquer país, particularmente aqueles que enfrentam ameaças narcoterroristas significativas, gaste tão pouco com Defesa”, disparou Colby. Essa exigência ataca diretamente a autonomia orçamentária dos países, forçando-os a destinar recursos essenciais à máquina de guerra ianque, tornando seus exércitos forças auxiliares do imperialismo em detrimento das necessidades básicas das massas populares exploradas.

A pressão militar também alcançou a Colômbia. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, anunciou a possibilidade de “operações militares conjuntas para destruir terroristas e redes terroristas”, citando o Exército de Libertação Nacional (ELN) como “alvo legítimo”. No mesmo contexto, o ministro da Defesa colombiano, Jorge Eduardo Mora, afirmou: “chegou a hora de os cartéis narcoterroristas confrontarem o poder e as capacidades de todo o hemisfério, liderado pelo EUA”. Entre 10 e 11 de agosto, forças colombianas realizaram a Operação “Punho de Ferro” contra uma estrutura do ELN em Tibú, deixando dois guerrilheiros mortos em combate.

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A declaração de Hegseth materializa o que o imperialismo classifica como “Doutrina Donroe” pressupõe a construção de uma vasta arquitetura continental de guerra contrainsurgente, tendo a administração lacaia da Colômbia como a principal ponta de lança para reprimir as lutas populares.
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Na Argentina, a aproximação militar com o EUA já havia sido aprofundada pelo exercício Daga Atlántica 2026, concluído após 42 dias de atividades. Mais de 350 militares e civis participaram da operação, que envolveu treinamento de forças especiais, aviação, comunicações, logística e comando e controle. A fase final, realizada em Córdoba, incluiu lançamentos de paraquedistas, operações com helicópteros, demonstrações de combate, veículos blindados Stryker e aeronaves de apoio. O exercício buscou ampliar a interoperabilidade argentina com forças ianques.

O governo lacaio no Chile também vem ampliando a integração militar com Washington. No Salitre V 2026, realizado entre 29 de junho e 10 de julho, participaram forças aéreas do Chile, Argentina, Brasil, Colômbia, EUA e Paraguai, além de observadores. A atividade incorporou operações aéreas, terrestres, marítimas, espaciais e cibernéticas. Durante a visita à Base Aérea de Cerro Moreno, o ministro da Defesa chileno, Fernando Barros Tocornal, declarou que “Este exercício demonstra que a cooperação internacional, o treinamento conjunto e a interoperabilidade são ferramentas fundamentais para enfrentar os desafios do século XXI”.

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Brasil aparece como destinatário indireto

A estrutura disponível nos dois países ajuda a explicar a escolha para a operação dos B-52.  O Chile possui 46 caças F-16 de fabricação americana e três KC-135 de reabastecimento. A Argentina adquiriu 24 F-16 A/B da Dinamarca no ano passado, e seis dessas aeronaves já estavam no país. A cooperação prevista para 11 de agosto, portanto, seria apoiada por meios aéreos já incorporados à estrutura militar de aliados regionais, permitindo demonstrar na prática a interoperabilidade defendida por Washington.

A submissão do governo argentino ao EUA também ganhou uma dimensão operacional mais ampla. Durante a Daga Atlántica, especialistas da Universidade Conjunta de Operações Especiais (Joint Special Operations University — JSOU) e do Comando de Operações Especiais do Sul (USSOCOM) contribuíram para procedimentos voltados à certificação de forças-tarefa segundo padrões da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e da Organização das Nações Unidas (ONU). O Comando Conjunto de Operações Especiais argentino (CCOE) recebeu ainda a responsabilidade de comandar o componente combinado de operações especiais no PANAMAX 2026, ao lado de forças do EUA, Panamá, Colômbia, Peru, Equador, Belize e República Dominicana.

Para Victor Bellizia, diretor-geral de AND, a movimentação deve ser entendida como parte de uma política contrarrevolucionária. No programa A Propósito #369, transmitido em 16 de julho, o representante de AND afirmou que “os ianques sentem a necessidade de uma política contrarrevolucionária preventiva. É disso que estamos tratando”. A avaliação apresentada no programa relaciona a preocupação de Washington com a instabilidade da velha ordem e com o avanço de movimentos anti-imperialistas, deslocando a análise da simples retórica política para uma estratégia de intervenção mais concreta.

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A centralidade brasileira também aparece nessa avaliação. O pesquisador João Cláudio Pitillo definiu o Brasil como a “joia da coroa” da política de recolonização da América Latina e afirmou que o “EUA pode aceitar muitas coisas, menos perder o Brasil”. O representante de AND, por sua vez, declarou no mesmo debate que “aqui no Brasil, há uma verdadeira guerra camponesa pela terra, e eles também estão de olho nisso”. Essas declarações colocam a disputa pela influência sobre o Brasil em conexão com os conflitos sociais e econômicos internos, embora a operação de 11 de agosto não tenha utilizado o território ou o espaço aéreo brasileiro.

A extrema direita brasileira, em busca de relevância e apoio ianque, tenta adaptar a doutrina agressiva para reprimir a luta no campo. Ronaldo Caiado, expoente do latifúndio, defendeu o emprego das forças de repressão na Amazônia sob o pretexto de combater “facções”, utilizando tecnologias fornecidas pelo EUA. Como alertou Bellizia, essa narrativa deve ser lida como um plano para utilizar o aparato do velho Estado contra o movimento camponês combativo, justificando o envio de tropas contra a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) e outros movimentos que lutam pela terra e golpeiam o latifúndio agroexportador.

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