Ghassan Kanafani e a literatura da resistência palestina* 

Reproduzimos um artigo publicado pelo escritor Igor Mendes no blog de literatura Homo Literatus, sobre o literato e jornalista palestino Ghassan Kanafani.

Ghassan Kanafani e a literatura da resistência palestina* 

Reproduzimos um artigo publicado pelo escritor Igor Mendes no blog de literatura Homo Literatus, sobre o literato e jornalista palestino Ghassan Kanafani.
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Nota da Redação: Reproduzimos abaixo um artigo publicado pelo escritor Igor Mendes no blog de literatura Homo Literatus, sobre o literato e jornalista palestino Ghassan Kanafani.


Ali onde há muita luta costuma haver também muita criatividade. Não só artística: em situações de grandes privações, ou desafios, que costumam acompanhar dramáticas viragens históricas, a própria sobrevivência (seja natural, seja política) implica a necessidade de encontrar soluções inéditas para os excepcionais problemas colocados na ordem do dia. Daí, que as revoluções sejam marcadas pela criação de novas instituições jamais vistas; pela circulação de ideias até então restritas a círculos diminutos; pela invenção de novas técnicas; por uma efervescência estética —que costuma aparecer primeiro na poesia, já que aos combatentes de todas as épocas ocorre a tendência ao testemunho na forma de versos — em larga escala. Nem tudo o que surge nesses instantes sobrevive às fases vindouras, cheias de reveses e vicissitudes, nas quais costumam-se depurar das obras que são meros panfletos (que mantêm, todavia, valor como documento histórico) as que atingiram um alcance digno de ser considerado universal. Mas as fontes persistem as mesmas, apenas interpostas por novas camadas de mediação: elas são o pulsar incessante da história, o “espírito do tempo”, para usar a velha (e profunda) expressão hegeliana.

Como o tempo é feito por pessoas de carne e osso, e, afinal, não há pensamento cuja sede não esteja em um corpo, aquele espírito costuma se identificar com autores e obras singulares, que ao mesmo tempo refletem o que há de espontâneo nos acontecimentos e lhes dão um sentido coeso. O que Tchernichevski representou para a jovem geração de intelectuais que revolucionariam a Rússia até os seus alicerces, ou, antes, Diderot para as revoluções francesa, americana e haitiana, ou, depois, Fanon para a luta anticolonial argelina (poder-se-ia dizer: para a luta anticolonial em geral), Ghassan Kanafani representou —e representa — para o drama palestino. Este teve, no último dia 7 de outubro, um novo capítulo, que não será de maneira alguma o derradeiro, apesar de todo o genocídio que busca infligir a esse povo desterrado (mas de modo algum desenraizado) um castigo coletivo pela ousadia de levantar-se e, mais que isso, uma reedição da solução final nazista, perante os olhos estarrecidos, quando não cúmplices, do “civilizado” mundo ocidental. Muito civilizado, claro…

Kanafani foi ao mesmo tempo autor e personagem da Nakba (termo árabe que significa “catástrofe”, como os palestinos costumam designar a expropriação brutal das suas terras, para a criação do atual Estado de Israel, a partir de 1948) que descreveu. Nascido em Acre, norte da Palestina, em 1936, ele cresceu em meio à luta contra a ocupação britânica e a Segunda Guerra Mundial. Em 1948, foi expulso de suas terras e se exilou com a família no Líbano e, depois, na Síria. O tema do exílio, crucial na vida de todos os palestinos, encontra em sua obra vívidas e pungentes reflexões, como no conto “O gato”, em que narra um animal ferido que se arrasta por um longo caminho só para morrer à beira do chafariz que lhe é familiar. Noutro conto, “A proteção”, em que relata a relação de uma mãe com o seu filho à caminho da guerrilha, narra: “Percebi que ela havia dito ‘ele vai voltar’ e não ‘ele vai partir’. Mas ela não havia aprendido que o exílio criava seu próprio vocabulário e acabava por enfiar-se na vida cotidiana como o arado entra na terra”. De fato, neste contexto, “partir” para atrás das perigosas linhas inimigas, isto é, o território ocupado, é ao mesmo tempo “voltar” para o próprio lar. A sina dos desterrados é mesmo esta: o caminhar contínuo, como vemos neste trecho de “Homens ao sol”, seu romance mais aclamado, em que três palestinos buscam atravessar o deserto iraquiano, escaldante, inóspito, potencialmente mortal, para chegar ao Kuwait, onde pretendem juntar dinheiro para ter com que alimentar suas famílias:

“Quer saber? Eu comparo estes cento e cinquenta quilômetros à senda prometida por Deus às criaturas, que a percorreriam antes de serem direcionadas ao paraíso ou ao inferno. Se alguém cair, vai para o inferno, e, se atravessar com segurança, chega ao paraíso. Quanto aos anjos… aqui seriam os guardas da fronteira”11

Paraíso e inferno não são distantes, mas uma fina linha tênue, traçada ao longo de uma estrada. Mas, no caso dos exilados, não importa o quanto andem: a terra natal sempre estará dentro deles. De algum modo, eles são a própria terra, que preserva neles a consciência de si mesma. É o que se lê logo no primeiro parágrafo, notável, do mesmo romance: 

“Abu Qais repousou o peito no solo orvalhado e a terra começou a pulsar debaixo dele, com batimentos de um coração cansado que faziam tremer cada grão de areia e penetravam as células de seu corpo. Desde a primeira vez, sempre que ele se atirava de peito na terra sentia aquela pulsação, como se o coração da terra forçasse sua difícil passagem até a luz desde as profundezas do inferno. Certa ocasião, ele disse isso ao vizinho com quem compartilhava a colheita na terra que deixara havia dez anos, e o homem respondeu zombando: ‘É o som do seu coração. Você o escuta quando encosta o peito no chão’. Que tolice perversa! E o cheiro? Aquele que, toda vez que ele sente, ondula na fronte antes de jorrar delirante nas suas veias. Sempre que ele inalava o cheiro da terra, deitado no chão, imaginava o cheiro do cabelo de sua mulher ao sair do banho, depois de lavar a cabeça com água fria. O mesmo cheiro… uma mulher que acabou de se banhar com água fria e lhe cobre o rosto com o cabelo ainda molhado. A mesma palpitação… como se carregasse ternamente um pequeno pássaro entre as mãos.”2

Kanafani dizia que política e literatura são coisas inseparáveis. E vemos pela sua pena a confirmação disso: se uma obra assumidamente engajada é débil, não é por excesso de posicionamento, mas por carência de cultivo estético. Pode-se ser mais político e mais artístico, afinal, o que não é político neste mundo em que até as plantas e os bichos se humanizam? No fim das contas, falar em uma categoria separada intitulada “Literatura Política” é um pleonasmo ou uma mistificação: basta falar, e fazer, “Literatura”.

De toda sorte, Ghassan Kanafani não se contentou em narrar a história que transcorria diante dos seus olhos. Após lecionar como professor num campo de refugiados palestinos no Kuwait, aderiu ao marxismo-leninismo e tomou parte na fundação da Frente Popular pela Libertação da Palestina. Tornou-se editor de sua revista semanal, al-Hadaf ( “O alvo”), e também porta-voz da organização. Foi, portanto, um militante revolucionário, secular, da causa palestina, que não é nem principal e nem inerentemente religiosa, como querem os imperialistas e sua doutrina de “choque de civilizações”. Em 8 de julho 1972, ao girar a chave no carro em que estava com sua sobrinha, em Beirute, capital do Líbano, foi assassinado aos trinta e seis anos por uma explosão: o Mossad, serviço secreto israelense, reivindicou o atentado. Com razão, disse-se de Kanafani que escreveu a história palestina, depois foi escrito por ela. Desaparecido o autor, persiste todavia a sua obra, bem como as suas legítimas, prementes, genuínas motivações, infensas a infames algozes.


*Este texto é dedicado à memória da jovem e talentosa escritora palestina Heba Abu Nada, morta aos 32 anos, no último dia 20 de outubro, durante os criminosos bombardeios das Forças de Defesa de Israel, com apoio dos Estados Unidos, à Faixa de Gaza. Na sua última publicação, escreveu, sobre os acontecimentos que a vitimariam: “A noite na cidade é sombria, exceto pelo brilho dos mísseis; silenciosa, exceto pelo som do bombardeio; aterrorizante, exceto pela promessa tranquilizadora da oração; escura, exceto pela luz dos mártires. Boa noite”. 

Notas:

  1. Ghassan Kanafani, “Homens ao sol”, editora Tabla, p.63. A editora Tabla tem feito um belo trabalho de tradução e publicação de literatura árabe em geral e palestina em particular.  ↩︎
  2. Idem, p. 9 ↩︎
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