Os trabalhadores da Saneago, empresa responsável pelo saneamento e abastecimento de água em Goiás, estão em luta pelo aumento real dos salários, por concurso imediato e contra a privatização na empresa. No dia 26 de setembro, centenas de trabalhadores do interior e da capital do estado se reuniram em assembleia, em Goiânia. O Comitê de apoio ao AND esteve presente e realizou uma brigada de venda e distribuição de jornais.
A assembleia resultou de quase 20 assembleias regionais em outras cidades, segundo o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Urbanas no Estado de Goiás (STIUEG). Os urbanitários estão há meses fazendo paralisações e manifestações exigindo a pauta de reivindicações encaminhadas em abril pelo sindicato à diretoria da Saneago, que respondeu com um mísero reajuste de 3,74% dos salários da categoria em apenas 3,74%, abaixo da inflação anual.
Na assembleia do dia 26/09, os trabalhadores aprovaram uma contraproposta da empresa com diversos outros pontos de direitos para o acordo coletivo da categoria, mas pretendem continuar lutando pelo aumento salarial acima da inflação e combater a privatização paulatina que vem ocorrendo na Saneago. Durante a assembleia, um servidor, membro do coletivo classista Núcleo dos Urbanitários, denunciou esse processo:
— Estão [governo Caiado (UB) e diretores da Saneago] em um processo de privatização. E um dos principais pontos, essa corda que eles estão esticando, essa força que eles estão medindo é para ver nossa resistência à privatização. E a questão da valorização do nosso salário é um termômetro pra ver até aonde a gente vai lutar, porque o pior, companheiros, que estão implementando, é a terceirização do corte de água, das ligações, do serviço de topografia, de projetos, de uma série de obras, que a empresa teria ou deveria ter know-how [conhecimento técnico] pra estar fazendo.
Na mesma fala, o servidor apontou a relação das terceirizações com a necessidade de concurso público:
— Isso é um tipo de privatização, esses contratos para projetos que nós mesmos poderíamos executar. Mas não executamos porque falta pessoal, porque não abrem concurso. A falta de concurso é uma forma de nos enfraquecer, a terceirização vem junto, é o caminho da privatização. É também o capital privado entrando aqui, para colocar trabalhadores com salários baixos, com condições de trabalho inferiores à do restante da categoria e que não têm sequer o direito de se organizar, porque estão sempre ameaçados de demissão. Então essa tem que ser a nossa resistência.
Mesmo com a aceitação da contraproposta da Saneago, a categoria segue mobilizada.
Desmonte e privatização por dentro
O Marco Legal do Saneamento de 2020 instituiu um “mercado de águas” no país: autorizou a concessão dos serviços de saneamento público à iniciativa privada e a participação desta nas licitações, incentivando as privatizações por meio de metas de “universalização” até 2033.
Nessa corrida pelas privatizações, tornou-se mais interessante ainda para os magnatas o desmonte das empresas públicas como a Saneago. Em 2022, a empresa ampliou a cobertura de água tratada e esgoto, mas perdeu 443 servidores em um Programa de Demissão Voluntária, contratando depois apenas 209. Como os trabalhadores denunciam, esse desmonte acontece também por meio da privatização por dentro, com terceirizações, subdelegações e Parcerias Público-Privadas (PPPs). No 2º trimestre deste ano, 42% dos investimentos da Saneago foram em “Parcerias”, segundo suas demonstrações financeiras.
Como exemplo dessas parcerias, os sistemas de esgoto em quatro cidades goianas foram “subdelegados” para a empresa BRK Ambiental. Esta empresa foi flagrada, em 2020 e 2021, despejando esgoto não tratado em córregos de Trindade e de Aparecida de Goiânia, respectivamente. E em 2023, a BRK foi autuada pelo mesmo motivo, descarte de esgoto não tratado, em outras cidades do país onde ela tem a concessão do esgotamento sanitário, como em Alagoas. Tal é a eficiência das privatizações.

