Hollywood cindida entre propaganda sionista e o perigo de uma nova ‘lista negra’

Publicamos um novo artigo de Daniel Moreno, colaborador de AND, acerca dos recentes acontecimentos envolvendo os efeitos do conflito no Oriente Médio entre o meio artístico, sobretudo em Hollywood.

Hollywood cindida entre propaganda sionista e o perigo de uma nova ‘lista negra’

Publicamos um novo artigo de Daniel Moreno, colaborador de AND, acerca dos recentes acontecimentos envolvendo os efeitos do conflito no Oriente Médio entre o meio artístico, sobretudo em Hollywood.
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Nesta semana (19-25/11), dois fatos escancararam à consciência pública o cenário de divisão existente dentro da indústria cinematográfica norte-americana quanto à questão Israel-Palestina: a atriz Melissa Barrera foi demitida da série de filmes de horror Pânico pela produtora Spyglass, após publicações em suas redes sociais com frases como “Gaza está sendo tratada como um campo de concentração” e “Palestina será livre”; a atriz Susan Sarandon foi dispensada de sua agência após participação e fala em uma manifestação pró-Palestina. Após o acontecido, Barrera publicou em redes sociais que “silêncio não é uma opção”. 

Cenário de divisão

Em ambos os casos, as empresas se pronunciaram explicitamente sobre a motivação de “combate ao antissemitismo” das suas decisões, com Spyglass dizendo ter “zero tolerância” com “falsas acusações de genocídio, limpeza étnica, distorção do Holocausto”. Esses fatos foram coletados em uma matéria da revista Variety1, que ainda recobra outros casos menos públicos, indicando o funcionamento de uma verdadeira “lista negra” em Hollywood, atualizada para 2023. Trata-se de um precedente perigoso para a ingerência dos estúdios de Hollywood, cuja participação vergonhosa nas perseguições do macarthismo contra centenas de seus artistas ainda é um espectro a rondar a consciência pública norte-americana.

Dentre estes casos está o de Maha Dakhil: co-diretora do setor de filmes da agência de talentos Creative Artists Agency (CAA), Maha foi removida de suas funções após republicar um post em rede social que dizia “O que mais parte o coração que testemunhar um genocídio? Testemunhar a negação de que um genocídio esteja acontecendo”. Apesar de sua retratação quase imediata, a retaliação seguiu efetiva. O artigo também traz à tona o caso em que o produtor Marc Platt, do filme La La Land (2016), manejou internamente com a agência de talentos William Morris Endeavour (WME) pelo cancelamento de relações com o diretor judeu Boots Riley, após este pedir em suas redes sociais pelo boicote do que chamou de “propaganda assassina” de um documentário pró-sionista em Los Angeles. O diretor do seriado Sou de Virgem (2023) e rapper do grupo The Coup afirmou em suas redes que “quando as Forças de Defesa de Israel (o exército sionista, FDI) e os oficiais israelenses estiverem no Tribunal de Haia por seus crimes de guerra, massacres e ações genocidas – você não vai querer ter seu nome ou imagem relacionados a isto”.

Sionismo na indústria de entretenimento norte-americana

O documentário em questão, Bearing Witness (“Testemunhando”) é uma propaganda produzida pela Unidade Porta-voz das FDI para passar no Knesset israelense e nos seus consulados e embaixadas. 

A apresentação em Los Angeles foi organizada com a participação da atriz Gal Gadot e o diretor Guy Nattiv, ambos sionistas. Gal Gadot, que serviu pelas FDI, foi Miss Israel em 2004; e se tornou mais famosa internacionalmente por sua ascensão inexplicável ao papel de “Mulher Maravilha” no filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016), dirigido por Zack Snyder. Neste ano, na ocasião dos 75 anos da aparição dessa personagem fictícia, a ONU a designaria como “Embaixatriz Honorária do Empoderamento de Mulheres e Garotas”, decisão revogada após dissenso. Por sua vez, Guy Nattiv é responsável pelo filme biográfico Golda – A mulher de uma nação, lançado em 2023, sobre a primeira-ministra Golda Meir, interpretada por Helen Mirren, tratando de sua gestão do país no contexto da Quarta Guerra Árabe-Israelense (1973). O filme também interpreta esta figura histórica na dinâmica de mulher sionista “forte” e “empoderada”. Cabe ressaltar que a propaganda das IDF e da governança de Israel como uma meca do empoderamento feminino é um dos pontos centrais do Hasbará (operação de propaganda sionista direcionada ao público internacional). 

Cena de Mulher-Maravilha 1984 (2020), onde a personagem de Gadot salva duas crianças árabes. Foto: X/Reprodução

No embalo das manifestações pró-Israel, destacou-se também a intervenção do comediante sionista Sacha Baron Cohen, famoso por seu Borat (2006). Em uma reunião com a empresa Tik Tok, pediu pela censura do “antissemitismo”, alegando que nesta rede social estaria se formando o “maior movimento de massas antissemita desde Hitler”. Baron Cohen possui alegados vínculos com a CIA e com a Liga Anti-Difamação (ADL)2 que “funciona como uma agência não-oficial de espionagem para Israel”, segundo o portal Mint Press News; e construiu sua carreira num largo histórico de antagonismo particular contra o povo árabe, a exemplo de O Ditador (2012). Isto culminou, quase que logicamente, no seriado da Netflix “sério” e biográfico, O Espião (2019), onde Baron Cohen interpreta o agente do Mossad Eli Cohen, infiltrado na Síria durante a Guerra dos Seis Dias. 

O Espião é dirigido pelo ex-paraquedista das FDI Gideon Raff, conhecido pelo seriado de propaganda Homeland (2011-), que protagoniza, novamente, uma mulher “forte” e “complexa”, na função de dirigente do Centro de Contraterrorismo da CIA. Homeland é uma das adaptações do israelense Prisoners of War (2010), da autoria de Raff; a outra sendo o indiano P.O.W. – Bandi Yuddh Ke (2016-2017), da Star+/Disney. De acordo com o Washington Post3, os seriados de Raff fazem parte de um esforço coordenado de propaganda e recrutamento do Mossad e das FDI, especialmente através de serviços de streaming, que se intensificou a partir da década passada.

Quentin Tarantino posa junto a militares sionistas. Fonte: X

Gal Gadot, Guy Nattiv, Hellen Mirren e Gideon Raff são signatários da carta aberta da Comunidade Criativa pela Paz (CCFP) chamada “Israel sob ataque”4, que alega a assinatura de mais de 2000 figuras de Hollywood e da “indústria do entretenimento” como Jamie Lee Curtis (da série Halloween) e Mark Hammil (da série Guerra nas Estrelas). O propósito propagandístico da carta é evidente: “Enquanto Israel tomará as medidas necessárias para defender seus cidadãos nos próximos dias e semanas, as redes sociais estarão cheias de uma campanha coordenada de desinformação, encabeçada pelo Irã”. No site, destaca-se em separado a posição de Hain Saban, produtor bilionário e ex-soldado das FDI, afirmando que “nós na comunidade de Hollywood devemos tomar posição por Israel enquanto se defende de um regime terrorista em Gaza que busca a sua destruição”. Alguns outros figurões de Hollywood foram mais longe, literalmente, como o diretor Quentin Tarantino: residente a dois anos de Tel Aviv, visitou uma base militar das FDI para “elevar a moral das tropas”.

Outras vozes sinalizam dissenso

A atriz Susan Sarandon em manifestação pró-Palestina. Foto: The New York Times

O fato da carta da CCFP precisar existir e apresentar seu posicionamento como “o primeiro de seu tipo – um chamado da indústria do entretenimento inequivocamente demonstrando apoio à Israel e condenando o terrorismo do Hamas”, denota a transparência com a qual têm se expressado a polarização em Hollywood em torno do sionismo.

Uma outra carta aberta, assinada pela Artistas pelo Cessar-fogo5 e endereçada ao presidente Joe Biden, assumiu posição distinta: dando enfoque às “mais de 6.000 bombas lançadas em Gaza nos últimos 12 dias – resultando em uma criança morta a cada 12 minutos” conclui afirmando que “nos recusamos dizer às futuras gerações a história de nosso silêncio, que ficamos parados e não fizemos nada”. A carta possui centenas de assinaturas, entre elas, figuras como Joaquin Phoenix, Kate Blanchett e Jenna Ortega – além de Susan Sarandon, Melissa Barrera e Boots Riley.

Após a publicação da matéria da Variety, Boots Riley comentou em sua conta do X: “Eu estou bem, e eu estou correto. De acordo com as pesquisas, a maioria dos EUA concorda comigo. Sem mencionar o resto do mundo. O único uso que posso imaginar para este artigo da Variety é o de assustar as pessoas para que se silenciem. Não se deixem ser assustados”.


Esse texto expressa a opinião do autor.

  1. Pode ser lida nesse link. Em outra matéria, do The Guardian, comenta-se sobre a prática de “lista negra” na esfera do jornalismo. ↩︎
  2. Uma investigação mais completa dos vínculos de Baron Cohen pode ser acessada nesta reportagem do Mint Press News. ↩︎
  3. Entre os projetos levantados pela matéria, estão: a série israelense Fauda (2016-), da Netflix, desenvolvida por Lior Raz e Avi Issacharoff, baseada em suas experiências na Unidade Duvdevan das FDI, que opera na Cisjordânia ocupada; Suspicion (2022), da Apple TV+, uma adaptação da série israelense False Flag (2015-2019), transmitida pelo Hulu, que se baseia no assassinato em Dubai de Mahmoud al-Mabhouh, co-fundador do Hamas; a série israelense Teerã (2020-), da Apple TV+, que traz a história de uma espiã e hacker do Mossad infiltrada no Irã; além da série israelense Mossad 101 (2015-), transmitida pela Netflix, que ambienta a formação de espiões para a agência, representando aprendizes de França, EUA, Rússia e até do Brasil. ↩︎
  4. Pode ser lida aqui. ↩︎
  5. Pode ser lida aqui. Uma carta análoga, no Reino Unido, pela Artistas pela Palestina, teve mais de 4000 assinaturas; mesmo número de outra, pela Músicos pela Palestina. ↩︎
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