Junho Febril e os espectros da luta plebeia

Junho Febril e os espectros da luta plebeia

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“… Não há uma árvore: no morro densamente povoado, 
cada palmo de terra abriga um despossuído”

Igor Mendes
In: Esta indescritível liberdade (2020)

Quando fui convidado pelos companheiros de A Nova Democracia para participar do dossiê acerca dos 10 anos das Jornadas de Junho/2013, sugeri escrever um ensaio sobre o novo livro que Igor Mendes estaria lançando, Junho febril. Havia apenas que aguardar ter acesso ao volume cuidadosamente preparado pela N-1 Edições, adquiri-lo, e mergulhar ao calhamaço, destacando trechos, sublinhando parágrafos inteiros, rascunhando nas laterais da obra alguns motes disparadores ao ensaio de depois. Na cabeça, a vontade de ler com atenção os apontamentos que Igor, com toda certeza, e há uma década da revolta popular, viesse a evocar. Afinal, leitor dos livros anteriores e acompanhando de há tempos aos seus pronunciamentos públicos, certa curiosidade me instigava.  Todavia, fora a surpresa. É que não se tratava de uma obra teórica de intervenção crítico-analítica que pegasse pelas crinas a avalancha convulsa que enxameara as ruas das principais cidades do país. Igor não estava buscando decalcar um sentido preciso e último à vertigem daquele Junho (e seus desdobramentos), como se arrogasse a si algum estatuto de legitimidade por lá ter estado presente, testemunha ativa da história, militante orgânico do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR). Tampouco, Igor Mendes se lançava à batalha de narrativas – esta superfície opaca, epidérmica e onipresente aos rumores da pós-modernidade na que o primado dos fatos, expressão concreta da luta de classes e de seu registro histórico, costuma ser apagado, subsumido, engolfado pela autorreferência fragmentária das interpretações; Igor Mendes não se punha ao duelo de capa, espada e confetes de viés academicista no que a tagarelice da palavra, sua dimensão ranheta e de ramerrame, antes obstrui do que ilumina à cartografia de processos em curso, muitas e tantas vezes, embebida e assolada por arcabouço conceitual-bibliográfico inteiramente exótico àquilo de que se trata – sobretudo quando se está às periferias dos grandes centros de produção imperialista em sua faceta de dominação cultural e científica. 

Igor Mendes seguia por outra via: a da criação literária, a da construção de personagens – procurando mergulhar às tarefas da fabulação. E começa-se, então, por elaborar pequenos mundos, uma terra, uma cidade, um bairro, as periferias e arrabaldes, e dentro deste espaço que se vai plasmando, o povoar de gentes – múltiplas, tantas, distintas, todavia singulares e únicas; gentes de carne e osso, com um quilo de sonhos e projetos, com cheiro de suor, com fogo nos olhos e na vontade em seguir a frente por meio de avanços audazes ou em estanques recuos, quedas, solavancos aflitos, choro convulso, perdas irreparáveis que se firmam como sulcos a pele. Está o escritor a desenhar caracteres de conduta, um tracejado de filiações, os itinerários plausíveis pelos quais escorrerão estas vozes/estes nomes (Navalha, Flávia, Apê, e os outros que se lhes acercam). 

Igor Mendes está nos convocando a ingressar no corpo da vertigem que é a literatura – nos fazendo acordar, sob o liame que enreda autor e leitor, que é fato o que seria o seu invento; porque sem que percebamos nos pegamos na torcida para ver se Flávia Ventania emplaca o desafio de uma vida-artista; se ela consegue fazer soar sua voz que canta enquanto a cidade escorre indiferente e perversa; se ela e Magrão se manterão atentos o suficiente para desviar-se dos corres do achaque dos seguranças do Metrô a lhes tomar de assalto o instrumento de seu trabalho; se Flávia conseguirá aplacar o trauma da distância do filho pequeno, a ver se seu espectro não irá diminuindo, e se apagando, e se fazendo menor, no que se vai enchendo da poeira da estrada e das urgências cotidianas da viração. Quem dentre nós, seus leitores, Igor, não esticou sem perceber a mão para salvar o violão de Ventania quando lhe fora a hora dos chacais? 

Imagino que Igor Mendes deve nos lançar um cúmplice piscar de olhos ao nos ver esfalfados quando acordamos, aos saltos, com Navalha, sob os imperativos da mãe, um sofá uma esteira a ducha de água fria o pedaço de espelho equilibrado na parede do banheiro; sobre a mesa de plástico na cozinha, a nota de dez reais e a tarefa de acertar o emprego oportuno das horas de mais um dia; é que Navalha, depois do gole de café com pão e margarina, terá que fazer esticar a cédula para que ela o acoberte até o final da jornada na que vá se saber se ele consegue um trampo, um rolo, um trabalho, um serviço – o roçar da espátula na chapa de tostar hambúrguer, ou uma laje a bater sob o sol a pino do verão que se estica em tormenta, ou a ladainha maçante e engana-trouxa das tarefas de telemarketing, ou a haste de ferro atachada às costas com o aviso de que se compra ouro: os papeizinhos num blocado e em repasse, um a um, aos transeuntes, e isto por horas infindáveis sob o olhar invisível dos fiscais. Será que está fora de causa isto terminar bem – qual seja: que Navalha consiga se firmar por um tempo para quem sabe ‘equilibrar’ o orçamento doméstico e não sucumbir aos abusos e opressões cotidianas? Será que ele irá dar uma gira, um volteio no cansaço, na quase certeza de estar estagnado, sem saída, sem direção, sem horizonte que não a da parede, do muro que lhe cerceia a vida, e que o vai comprimindo, esmagando, sufocando na justa medida em que o tempo passa e os anos se vão somando na cara? Como nas palavras do livro:

“… como se eu nadasse, nadasse e sempre morresse na Beira do Rio. Agora, a frase da minha mãe, ‘você já tem vinte e dois anos’, espeta a minha mente como uma agulha, e sinto como se eu fosse um velho decrépito, para o qual não há nenhuma promessa de futuro, nada”.

E Igor Mendes nos conduz para o outro lado da cidade, estamos, ele propõe que estejamos, no Rio de Janeiro que o mundo inteiro celebra – restritíssimo perímetro urbano no que o m2 dos imóveis parelham entre os mais caros do mundo; e passamos o túnel, um painel/plataforma de gentes se exercitam nos entornos da Lagoa Rodrigo de Freitas, e seguimos até que sentimos o olor forte da brisa do mar no que vamos descortinando, juntos, as sete maravilhas dos cartões postais que suposto sintetizam a ‘alma carioca’; é aí que nasceu, cresceu e vive ainda hoje Antônio Pedro, carinhosamente conhecido como Apê, herdeiro do afamado escritório de advocacia Leite & Uchôa Advogados Associados – onde estagia; ele mesmo estudante da Escola de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro eleito para a Diretoria do Centro Acadêmico, com um futuro promissor ao alcance das mãos, basta que para isto Apê cumpra as etapas sem queimar as largadas; se faça esforçado no cumprimento da espartana rotina dos afazeres: ir às aulas, prestar exames a monitoria, aproveitar ofertas de estágio, estudar para além das lições de classe, e se agendar para os intercâmbios no exterior, coisa que reforça e ‘internacionaliza’ o currículo. Mas não apenas – ‘porque há de se atualizar, porque a competição cresce e o sistema de corte afia a sua lâmina’. Apê sabe porque seu pai o reforça, porque seus amigos reiteram, e Igor Mendes não titubeia em nos lembrar por meio da voz de seu personagem, e nós, leitores comezinhos, compartilhamos da ‘certeza’ de que, hoje, será imprescindível investir em ‘network’, este anglicismo que traduzido ao português quer dizer ‘rede’, mas que todavia, se ingressamos incautos na caixa de ilusões do mundo corporativo, saberemos, Apê saberá, que se trata em verdade de uma sua derivação, qual seja: ‘networking’ que remete ao gesto de ‘criar e cultivar relações com outros profissionais de diversas áreas para poder usufruir delas no futuro’, e que não há tempo ou oportunidade a perder nesta pragmática de conduta, seu modus operandi compreendendo certos passos ou senhas tais como: participar de forma proativa; expor objetivos; compartilhar ideias sem se comprometer de forma excessiva; estreitar vínculos; investir em visibilidade, na melhora da reputação e imagem profissional. Igor Mendes nos pergunta quando nos apresenta a Apê: Será que vai dar certo?

E eis que talvez fosse o caso, lançar aos protagonistas este dardo, esta inquirição, será que vai dar certo, até quando que isto, este embate, este corpo de certezas, certa zona de conflito ou de conforto, afinal havia um junho pelo caminho, uma pedra lascada em assalto ao instituído, uma intifada às portas do palácio guardado pela cavalaria montada, a revanche espontânea ou programática dos milhões de fodidos, o povo do abismo… 

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4 anos das Jornadas de Junho: como a militância política se | Geral
Manifestantes no Congresso Nacional, em Brasília. Foto: Mídia Ninja

Na excelente entrevista com Ana Nascimento, no programa A Propósito, Igor Mendes deixou claro o porquê da escolha da criação literária para se voltar sobre as Jornadas de Junho de 2013 – tratava-se de construir um mosaico de vozes que pudessem expressar suas distintas facetas e perspectivas. Importante também seria se utilizar de uma narrativa depositada na 1ª pessoa do singular como um dispositivo de aproximação e abertura do leitor para com cada um dos protagonistas, sem que o escritor, necessariamente, tivesse que operar uma escolha entre um ou outro destes. Igor, em resposta a entrevistadora, afirma que ele mesmo se percebia identificado até o último fio dos cabelos com Apê, Flávia ou Navalha – sem que a balança dos afetos pendesse para lá ou para cá. 

Igor Mendes não o afirma, mas quase que escutamos dele o relato de que Apê, Flávia ou Navalha são figurações variadas da condição trágica e oprimida imposta pela voracidade do capitalismo imperialista de saqueio, por meio de seus agentes externos e internos, as grandes corporações internacionais, seus sócios menores e locais, os diferentes extratos da grande burguesia, sua faceta financeira e rentista. Apê, Flávia, Navalha, distintos mas não irredutíveis em suas diferenças de classe, sucumbem, sucumbirão mais dia, menos dia, às ausências de possibilidade de avanço em seus projetos de vida – porque tudo é o que se lhes arranca, o que se lhes arrancará, mais dia menos dia, como quando nos acordos de cúpula a gestar as contrarreformas trabalhista e da previdência; na ostensiva militarização e judicialização da opressão do Estado burguês – atualizando-o às urgências da etapa histórica; no cabotinismo e cretinice parlamentar a embalar e empacotar as demandas populares na falácia da democracia representativa; na devastação dos direitos fundamentais que garantam a reprodução da vida, e mesmo que tão somente, aos níveis da reprodução funcional da força de trabalho; no abandono generalizado dos trabalhadores entregues à própria sorte nos postos de saúde e hospitais públicos; nas escolas sucateadas e deixadas aos temperos dos humores dos distintos agentes armados que, como sicários, as submete ao seu calendário de interesses e de negociatas; nos subúrbios e periferias, em que faltam desde o saneamento básico a um sistema público de transporte – que não esteja submetido às máfias do tráfico e de milícias, que como bandas paramilitares, impõe taxações extraoficiais a serviços de fornecimento de gás, tvs fechadas, e no controle imobiliário, assim como o despotismo armado dos toques de recolher. 

Ainda que não se desvele um tal enunciado no romance Junho febril, ousamos afirmar que Igor não titubearia em concordar com o primado das condições objetivas (estruturais e conjunturais) em seu rebatimento sobre as conformações subjetivas nas que Apê, Flávia e Navalha trafegam – claro está que não como autômatos e assujeitados, mas como figuras-força, carnações-concretas, personagens-síntese. Eles, os três, a crescer por saltos, a avançar meses, anos, décadas naqueles 30 dias de que o livro de Igor procura elencar como a uma cronologia abismal e decaída – em que já nada é o que permanece no lugar. Nem Flávia Ventania em sua ilusão de ascensão ao mercado da música, seus ritos e lugares de consagração, ditados pelos arbítrios da indústria fonográfica. Nem Navalha em sua performance diária à corda bamba que quem sabe o salvará das convocatórias ao ingresso no mundo do crime organizado, ou ao amortalhamento disciplinado e ordeiro que lhe impõe o pensamento mágico traficado pelas bandas neopentecostais e sua teologia da prosperidade. Tampouco Apê cuja partitura coreográfica de sua carreira futura parece prefigurada desde os arranjos da família, seus vínculos sociais no mundo dos negócios, e sua embriaguez contumaz de álcool, a esvaziada e nadificada compulsividade consumista, ou a depressão equilibrada pelo uso continuado, em vício administrado, pelo aparato médico a retroalimentar a sanha de lucro indiscriminado das indústrias farmacêuticas. Agora, cremos, leitores de Igor que somos, já não lhes seria possível fazer o jogo do mesmo e de sempre, o da repetição a meia bomba, o do eterno retorno da miséria objetiva e subjetiva a lhes temperar os atos, crenças e convicções.

A avalancha que foram as Jornadas de Junho têm neles, Apê, Flávia, Navalha os seus espectros ótimos, intensos e potentes. Afinal, não seria de um mosaico de tipos distintos, de frações de classes distintas, o de que estaria composta a base social do levante daquele Junho? Mas não apenas isto. Arriscamos dizer que Igor buscou cartografar, mapear tais extratos, conformando-os sob as vestes e jeitos de cada um dos personagens, protagonistas ou não. E esta é, sem dúvida, uma das facetas que lhe disponibiliza a escrita literária de corte realista e social na que Igor Mendes parece redobrar uma aposta iniciada em seu livro anterior Esta indescritível liberdade, “vocalizar os anseios do povo, retratar sua capacidade de luta e de resistência”.  E o espaço literário é esta máquina de fazer ver, de contar aquilo que se ouve, quando se está atento o suficiente, quando se sabe a força dos relatos que emanam do povo. Arriscamos dizer que Igor Mendes talvez não o saiba, mas que ele atualiza o que o escritor argentino Rodolfo Walsh insistia em afirmar: escrever é escutar

Todo modo, e ainda, como quem busca finalizar este ensaio, diria que se há este gesto primeiro, gesto cúmplice, companheiro, que é o da escuta atenta, do acolhimento solidário daquele que irá escrever na tentativa/tentação de recuperar a verdade do povo; um segundo gesto é que o que se escreve deve, deveria, deverá se voltar a todos, renunciando aos festins bastardos dos que nos assaltam todos os dias, dos que nos roubam todas as coisas, dos que se apropriam, sob o sequestro legitimado pela lei e pela ordem, da riqueza produzida pelos trabalhadores, e quanto a isto, tomados de uma alegria comunista, saudamos o novo livro do companheiro Igor Mendes, livro de militância, livro de compromisso, e lhe voltamos este trecho sacado ao diário de Rodolfo Walsh:  

“Recuperar a verdade do povo, das massas, que é mais importante que a dos indivíduos. Traçar o avanço dos heróis e mártires, desde a resignação até o triunfo que se sabe não-definitivo, porque tampouco é possível ainda ser inocente ante a Revolução. Tudo isto equivale a aprender de novo um montão de coisas”.

Esse texto expressa a opinião do autor.

Notas:

 MENDES, I., Junho Febril. São Paulo: n-1 produções, 2023 (p.15).

 WALSH, R. Ese hombre y otros papeles personales. Buenos Aires: Ediciones de la flor, 2010 (p.177).

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