Literatura para o povo, de Igor Mendes

Reproduzimos abaixo a fala feita pelo escritor, professor e ativista, Igor Mendes, no II Concurso Literário de Contos, Crônicas e Poesias de AND, celebrado no dia 19 de dezembro.

Literatura para o povo, de Igor Mendes

Reproduzimos abaixo a fala feita pelo escritor, professor e ativista, Igor Mendes, no II Concurso Literário de Contos, Crônicas e Poesias de AND, celebrado no dia 19 de dezembro.
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Nota da Redação: Reproduzimos abaixo a fala feita pelo escritor, professor e ativista, Igor Mendes, no II Concurso Literário de Contos, Crônicas e Poesias de AND, celebrado no dia 19 de dezembro. Igor, que lançou esse ano o livro Junho Febril, ambientado nas Jornadas de Junho de 2013 que também foram tema do concurso de AND, foi um dos vários convidados do nosso jornal a intervirem no evento. Sua intervenção destaca importantíssimos elementos sobre a cultura popular, em especial a literatura.


Saudações calorosas a todos os presentes!

Fico muito honrado de ter sido convidado, pelo jornal AND, a proferir algumas breves palavras na Abertura do seu II Concurso Literário. E isso não por uma, mas por várias razões:

1- Esta é a Tribuna da Causa Palestina, que é hoje a causa de toda a Humanidade. A Faixa de Gaza é hoje não apenas o cemitério do sionismo, este nazismo contemporâneo, mas também o cemitério de ideias equivocadas. Ali se comprova, uma vez mais, que são as massas, e não os meios de guerra, o fator histórico decisivo, mesmo porque, se assim não fosse, nós ainda viveríamos sob as relações da Antiguidade, porque, desde que existem as classes, os detentores do poder sempre contaram com meios de defesa mais poderosos, o que não impediu que fossem derrotados e substituídos por uma ordem social nova. Quando um combatente palestino dá a sua vida pela causa, ele demonstra com isso uma visão enormemente generosa da história, e mesmo uma visão mais universal da vida, a ponto de encontrar-se realizado na certeza de que outros continuarão a sua obra. Nós, marxistas, que compreendemos racionalmente as causas e os meios da substituição da sociedade capitalista pela comunista, não temos portanto o direito de sermos menos confiantes, desprendidos e generosos. Munidos não de uma concepção mística, mas materialista da história, eu diria que devemos ser ainda mais confiantes, desprendidos e generosos.

2- Esta é a Tribuna das Jornadas de Junho de 2013. A mesma coragem que o Jornal demonstra agora na defesa da heroica resistência palestina, demonstrou há dez anos ao cobrir aqueles grandiosos eventos, cuja importância e singularidade ficam mais evidentes com o passar do tempo. Como evento político, em síntese, podemos dizer que as Jornadas de Junho de 2013 marcam o início da crise profunda da nova república brasileira, assentada num pacto de conciliação entre militares e os representantes políticos das classes dominantes, e no esmagamento de milhões de brasileiros, os quais, embora contando com a miragem do “poder do voto”, seguiram sem terra, sem emprego, sem pão, penando nas mãos das polícias, apinhados nas favelas ou em presídios superlotados. As Jornadas de Junho levaram de roldão as esperanças reformistas, sua primeira vítima. A extrema-direita, ganindo alto, conseguiu se apropriar de parte daqueles anseios de mudança, mas a única mudança que ela representa é uma mudança reacionária, para pior, por isso sua capacidade de liderança popular é insustentável no longo prazo. É inevitável que haja uma próxima rodada de eventos como os de 2013 e o papel de lutadores consequentes não é por-se a reclamar dos “excessos”, ou perguntar aos revoltosos “qual é o seu programa” — como fazia à época um partido nanico, hoje quase extinto —, quando qualquer pessoa que tenha lido uma frase marxista sabe que na hora dos grandes enfrentamentos históricos você demonstra a correção de um programa apontando contra os alvos corretos; pessoas sérias, comprometidas com uma causa, brigam por influenciar, atuar e hegemonizar, ao invés de se portarem como deploráveis retardatários ou descompromissados palpiteiros.

3- Finalmente, sinto-me honrado por participar deste II Concurso de Contos, Crônicas e Poesias porque a sua própria realização pressupõe uma visão democrática e popular de literatura, com a qual eu estou completamente de acordo. A literatura, a arte de modo geral, não é um bibelô a enfeitar estantes, ou um adorno do ócio, mas um poderoso instrumento de transformação social. Uma literatura que se preocupe apenas com a fruição de meia dúzia de privilegiados, não pode conquistar nada de relevante. Tal literatura, se é que pode ser chamada assim, ainda que consiga brilhareco momentâneo, está fadada a desaparecer. Ao contrário das expressões artísticas que captam as grandes palpitações do seu tempo, as quais, não raro, encontrando tímida repercussão no instante em que aparecem, se elevam sempre mais e mais  —porque, em geral, as grandes palpitações de um tempo costumam guardar pontos de identidade com as palpitações históricas em geral. Se se pega, por exemplo, as primeiras palavras de Anna Karenina, de Tolstoi: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”, podemos ver que isso faz tanto sentido hoje como quando foi escrito há 150 anos, e presumivelmente ainda fará sentido em 2173. O que não significa que se deva descambar para tratados morais abstratos: Anna Karenina é ao mesmo tempo um fiel panorama, o mais fiel panorama, da sociedade aristocrática russa do seu tempo, e especialmente do papel nela reservado às mulheres. A morte de Anna era inevitável, e não guarda nisso nenhum “machismo” de Tolstoi, segundo querem alguns comentadores extemporâneos: ela se joga embaixo do trem porque uma mulher culta, divorciada, que abre mão da maternidade para viver uma paixão com um homem mais jovem não poderia derrotar individualmente todas as instituições do seu tempo. Anna Karenina é uma mulher burguesa esmagada pela sociedade feudal, esse é o pano de fundo da sua queda. 

Dizia que a literatura não foi feita para ficar encerrada entre quatro paredes. Uma compreensão democrática de literatura deve focar na formação, em primeiro lugar, de muitos leitores entre as massas trabalhadoras. Nesse sentido, é necessário popularizar ao máximo a boa literatura, uma literatura acessível à linguagem corrente do povo, que afaste de si qualquer erudição inútil e presunção. Devemos fomentar, nos locais de trabalho e de estudo, círculos de leitura e clubes do livro, em que as pessoas busquem ler, interpretar, aprender e socializar os resultados das suas reflexões. 

Em segundo lugar, dessa base mais ampla de leitores, de pessoas interessadas em boa literatura, naturalmente nascerá também uma geração de romancistas, poetas, dramaturgos. Se se constrói uma cena artística viva, profundamente vinculada às lutas do seu povo e do seu tempo, dela nascerão não só lutadores com maior consciência de classe, mas também artistas de talento, que existem por aí aos montes, precisando apenas ser despertados. Na verdade, a expressão artística é uma necessidade, tanto quanto qualquer outra necessidade física, porque no Homem, mesmo as necessidades vitais básicas estão mediadas pela cultura. Sem esta satisfação, poder-se-á falar de uma existência biológica, mas de maneira nenhuma humana. É o que Marx fala, nos Manuscritos de 1844:

“A formação dos cinco sentidos é a obra de toda a história mundial anterior. O sentido encarcerado sob a grosseira necessidade prática possui unicamente um significado limitado… Portanto, a objetivação da essência humana, tanto do ponto de vista teórico como prático, é necessária para humanizar os sentidos do homem e criar a sensibilidade humana correspondente a toda a riqueza do ser humano e natural.” (Grifos de Marx).

Como prova disso, vocês verão, na última biboca no último rincão no lugar mais afastado do mundo, algum instrumento musical — nem que seja rudimentar —, estampas em uma xícara, ou mesmo um único livro, que seja a Bíblia. À caminho da forca, condenados recitam versos, ou hinos, ou rezam, e tudo isto é criação artística. Nós, bichos humanos, nos alimentamos de comida e nos alimentamos de cultura — cultura que variará, naturalmente, com a época e com as classes sociais. Uma revolução verdadeira deve ser capaz de prover —na verdade, sendo verdadeira, ela proverá, mesmo que por qualquer justificativa bizarra não quisesse — tanto uma coisa quanto outra.

Portanto, em primeiro lugar, é preciso fomentar uma cena cultural como base, cuja principal finalidade será elevar a instrução e a mobilização política dos trabalhadores,  e em segundo lugar, quanto mais vigorosa seja esta cena, tanto mais se facilitará a formação de talentosos trabalhadores da cultura, que sejam vermelhos e especialistas. Só vermelho, no sentido de tomar unilateralmente a mensagem política crua, a palavra-de-ordem, não serve: para tal, não se precisa da arte, já se tem a política. O que nós diríamos de um comandante que, no momento crucial da batalha, se pusesse a recitar versos? Não seria ridículo? E o contrário —um poeta que, diante de um público ávido por encontrar a sua vida recriada em versos, simplesmente se pusesse a “recitar” ordens de batalha, também não seria ridículo?

Há, portanto, que ver as particularidades de cada ação que realizamos. Por outro lado, tampouco servem os peritos, que dominam todas as astúcias da escrita, e que estão dispostos a colocar as suas formas a serviço de qualquer conteúdo. Esta não só é uma atitude mercenária, naquilo que Gramsci chamou de “especialistas em legitimação”, como também não pode produzir obra artística que valha, porque a obra artística superior e mais universal é aquela capaz de atingir a perfeita unidade entre forma e conteúdo, substância e receptáculo. Por isso, no que diz respeito à arte, é preciso ter claro que se trata de uma luta em duas frentes e que o bom resultado não é fruto da inspiração solitária de um gênio, mas de um árduo trabalho, que se aproprie do que haja de melhor nas tradições passadas e tenha a sensibilidade para captar o que há de novo no seu próprio tempo. Há inspiração, e mesmo maior ou menor talento, em arte? Claro que há, mas, em primeiro lugar, não se  deve contar com isto para lançar mãos à obra, e, em segundo lugar, ela, a inspiração, não surge ao acaso, mas é fruto de um tal nível de comprometimento com o trabalho, nível que só se obtém mediante uma concentração séria e disciplinada, que te permite encontrar conexões internas entre situações aparentemente desconexas, alta concentração esta que não surge sem estudo e continuidade. Talento sem cultivo é como uma semente que não encontra o solo, é apenas possibilidade, e as possibilidades nunca terão mais valor do que as coisas realizadas. No fim das contas, o que há mesmo é o trabalho — talvez café, também, mas sabe como é: nem precisaríamos usar duas palavras.

Por falar em trabalho, não poderia concluir esta intervenção deixando de evocar o maior escritor brasileiro, o mestre Graciliano Ramos. Maior pela sua capacidade artística, maior também pela integridade da sua figura e do seu engajamento. Sem ser ainda do Partido Comunista, enfrentou as agruras do cárcere com uma altivez que faltou mesmo a alguns militantes. Depois, filiado ao PCB, desempenhou-se como ativo intelectual na luta contra o fascismo, em oposição à agressão imperialista na Coreia e aos regimes vende-pátria do pós-guerra, bem como, à frente da Associação Brasileira de Escritores, em defesa dos direitos dos trabalhadores da cultura. Ao lado do enorme trabalho literário (enorme em qualidade, pois na verdade a obra ficcional de Graciliano começou tarde e é relativamente enxuta) nos deixou preciosas reflexões, bastante sofisticadas aliás, sobre a criação estética, e também sobre o papel do escritor, na forma de artigos, crônicas e intervenções. Graciliano foi um intelectual de partido, ator político de vanguarda, e não mero espectador dos acontecimentos. Dessa série de publicações não ficcionais, destaco uma intervenção de Graciliano no interior da célula em que militava no PCB, em 1946, sobre os cinco erros que não se deveriam cometer no trabalho literário, e que pode servir como uma primeira aproximação para os jovens escritores (e artistas em geral) populares:

“1- Os erros de caráter doutrinário;

2- Os desvios da linha política do Partido;

3-As tiradas demagógicas, o excesso de pieguices sentimentais, os devaneios ocos, a grosseria de linguagem, o populismo intencional etc;

4- As imperfeições de forma e de fundo;

5-A falsidade na construção de tipos e situações.”

Ficará para uma outra oportunidade o comentário amiudado sobre cada um destes pontos. Destaco, no entanto, em primeiro lugar, a primazia dada por Graciliano à posição política, o que nele é tanto mais contundente porque foi ele um gênio da forma literária. Em segundo lugar, o combate às formas estereotipadas, à demagogia, a uma visão sentimentalista do povo, enfim, à ausência de elaboração. É claro que são erros que se podem cometer, sobretudo no início, e não é um grande pecado que eles ainda despontem nas obras produzidas com as melhores intenções por jovens poetas, musicistas etc. O importante, aqui como em qualquer outra parte, é que se esteja disposto a aprender, a corrigir os erros e a avançar sempre. Porque a luta e a vida do povo, tão ricas de significados, cheias de viragens, de dramas, de sofrimentos, mas também de vivacidade, de graça, de beleza, porque é certo que não há na vida menos coisas alegres do que tristes, tudo isso não apenas pede, como exige, necessita, uma expressão artística à altura. 

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
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