Livro editado por AND vira filme premiado

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A obra A saga de Aleixo Garcia: O descobridor do império inca, da jornalista Rosana Bond, publicada pela Editora Aimberê (vinculada ao jornal A Nova Democracia) foi a principal fonte de inspiração do filme De Meiembipe a Chuquisaca – A descoberta do Império Inca, que será lançado oficialmente pela Fundação Catarinense de Cultura no dia 13 de março, no cinema do CIC (Centro Integrado de Cultura) em Florianópolis.

O documentário curta-metragem, com 25 minutos, realizado pela equipe da diretora Carolina Borges de Andrade (ver mini-currículos nesta página) foi ganhador do Prêmio Catarinense de Cinema.

(OBS: Meiembipe é o nome indígena, guarani, da ilha de Santa Catarina/Florianópolis, local de onde partiu a expedição de Aleixo Garcia. E Chuquisaca é o nome indígena, quêchua, de um estado/departamento boliviano, local na cordilheira do Alto Peru (atual Bolívia), onde os expedicionários chegaram, alcançando o império incaico.)

A seguir, uma entrevista com a cineasta Carolina.

P- Por que um documentário sobre esse assunto? 

R- A era pré-colombiana e o início da era dos descobrimentos, logo após a viagem de Cristóvão Colombo e de Pedro Álvares Cabral, é um período entre desconhecido e nebuloso para o brasileiro, especialmente do sul do país, cujo povoamento colonial avançou pouco até meados do século XVIII, mais concentrado nas áreas litorâneas do nordeste e do sudeste. 

No entanto, entre a descoberta do Brasil em 1500 e o início da sua colonização oficial, inaugurada pela expedição de Martim Afonso de Sousa de 1530, o sul do país viveu uma verdadeira “corrida da prata” após navegantes portugueses e espanhóis encontrarem artefatos deste metal, e também de ouro, na costa brasileira do Atlântico Sul, fruto do intercâmbio entre incas (terras altas) e guaranis (terras baixas). É imprescindível para a identidade brasileira, especialmente a do sulista, o conhecimento da riquíssima história desse período.

P- Como surgiu o projeto do documentário?

R- A ideia do projeto de um filme surgiu após contato com o livro de Rosana Bond A Saga de Aleixo Garcia: O Descobridor do Império Inca. A intenção era retratar a epopeia de Garcia em ilustração, para um filme híbrido de animação e live-action que contasse a saga dessa viagem, ocorrida entre 1524 e 1526, protagonizada por um europeu no “novo mundo” em companhia de guaranis, na mais importante via transcontinental indígena do Cone Sul, o Peabiru. 

Apresentei a ideia para o Pinho, meu marido, experimentado produtor e cameraman de documentários, com histórico de viagens pela América do Sul. Falei também com o Guazzelli, ilustrador amigo e premiado, que mora parte do ano em São Paulo e parte do ano em Florianópolis. 

Juntos apresentamos o projeto à Fundação Catarinense de Cultura. Era uma oportunidade de contar uma aventura em terras sul-americanas antes do início da colonização oficial do Brasil, e revelar a riqueza da cultura dos povos originários da região. 

P- A obra recebeu o Prêmio Catarinense de Cinema?

R- Sim, o projeto foi vencedor do edital Prêmio Catarinense de Cinema 2015/2014, anunciado em outubro de 2016. E foi concluído há pouco tempo, no final de 2018, porque sua confecção teve que envolver uma viagem para outros países, percorridos por Garcia.

P- Por que foi feito usando parcialmente a técnica de animação? 

R- A animação foi o recurso utilizado para compensar a falta de referências iconográficas, como pinturas, representações visuais, etc do sul do Brasil de 1500. É um recurso de linguagem lúdico e didático, sendo ao mesmo tempo uma alternativa para evitarmos os altos custos de uma suposta reconstituição de época para retratar o período.  

P- Como foi filmado? Foi realizada uma viagem de trabalho?

R- Após as pesquisas, a equipe do documentário percorreu diversas cidades construídas sobre a antiga via transcontinental indígena conhecida como Peabiru.

Iniciou-se por Santa Catarina (SC), passando também pelo Paraná (PR) e Mato Grosso do Sul (MS) no Brasil. Depois percorreu-se ainda parte da Bolívia e do Paraguai, na tentativa de refazer o trajeto de Aleixo Garcia entre Florianópolis (Meiembipe) e os Andes (Chuquisaca).  

Ao longo do caminho a equipe foi colhendo depoimentos que revelavam novos aspectos da epopeia daquele homem branco e de seus companheiros indígenas guaranis.

 A viagem, além de complementar a pesquisa e agregar depoimentos e cenas durante o percurso, permitiu ainda o contato do ilustrador Eloar Guazzelli com o cenário dos desenhos que faria para as animações do filme.

P- Como será a exibição do trabalho, já que documentários praticamente não têm espaço em salas comuns de cinema no Brasil?

A primeira exibição, o lançamento oficial no CIC, será em 13 março de 2019, às 19 horas. Durante essa sessão o músico (pianista) holandês Kristian Schot fará uma apresentação ao vivo da trilha sonora, utilizando piano eletrônico. A trilha original do filme, criada por ele, foi inspirada em canções de marinheiros quinhentistas e em trovadores medievais dos séculos XV e XVI. Uma curiosidade: Schot é casado com a antropóloga brasileira Barbara Arisi, uma das entrevistadas do documentário. 

Após o evento no CIC o filme vai percorrer o circuito de festivais nacionais e internacionais de curta-metragens e de documentários. Em Santa Catarina também estão previstas 8 exibições públicas em locais a serem definidos depois do lançamento. 

A faixa etária indicativa de público é livre e pretende contemplar espaços escolares do ensino fundamental, assim como universitários, em algumas das 8 sessões. Após o circuito de festivais o filme será oferecido a canais de TV com vistas a obter contratos de exibição. 

P- As plateias de outros estados brasileiros e de outros países também terão acesso à obra?

R- Sim, após as etapas de exibição e distribuição que mencionei o filme será disponibilizado gratuitamente no Youtube.

P- Está previsto um longa-metragem sobre o mesmo tema? 

R- Realmente, a pesquisa rendeu material suficiente para um longa-metragem. Dessa vez, porém, a proposta vai prever retratar a viagem de Aleixo Garcia desde a Espanha até o local de sua morte, no Paraguai.

Além disso pretende expandir a pesquisa entrevistando historiadores e etno-historiadores também do Paraguai, Bolívia e Argentina reunindo sua versão sobre as primeiras expedições até o Império Inca, partindo do Brasil, no início do século XVI. Há ainda o projeto de uma série com cinco episódios, que reúne os primeiros europeus a trilhar o Peabiru. Entre eles está uma mulher, a espanhola Mencia Calderón, que percorreu o Peabiru em 1556, partindo de São Francisco do Sul (SC) e indo a até a cidade de Assunção no Paraguai para assumir o posto de terceira  adelantada (governadora) da Província do Prata. Os projetos estão em fase de captação de recursos via editais e patrocínios diretos.

Quem são

Um breve currículo da equipe do curta-metragem:

Diretora – Carolina Borges de Andrade. Economista de formação e produtora por vocação trabalha desde os 16 anos de idade com produção audiovisual.  Aos 42 anos esta foi sua primeira experiência como diretora e roteirista para o cinema. Apaixonada por história pré-colombiana e pelo subcontinente sul-americano já percorreu 35 mil quilômetros de carro com a família pela “Nuestra América”. Nada mais natural que seu primeiro filme narrasse uma história genuinamente americana, ocorrida na transição da era pré-colombina para o período colonial, reunindo história e estrada. 

Diretor de Fotografia – Alexandre Peres de Pinho. Tem formação em Jornalismo e Administração, atua profissionalmente na área audiovisual desde 1989 em diversas funções (projecionista 16mm e 35mm, assistente de câmera 16mm e 35mm, produtor, operador de câmera de TV, iluminador e diretor de fotografia); deste 1995 passa a atuar também como diretor ao realizar o documentário Fortalezas de Santa Catarina para a UFSC. Entre outros trabalhos, em 2004 fez a direção de produção para Santa Catarina do longa-metragem 35mm Diário de Um Novo Mundo; em 2011 fez a produção executiva e direção técnica do projeto experimental pioneiro de Cinema ao Vivo Ana exibido no FAM 2011; em 2012 dirigiu a partir da embaixada brasileira de Londres, durante as Olimpíadas, conteúdos para o canal WebTV 14 Bis; Além de atuar na produção audiovisual realiza  pesquisas em Cyber-Vídeo e WebTV. Atualmente está dirigindo o telefilme Veleiro ECO Nasce um Pesquisador que será exibido na TV Ric/Record de Santa Catarina.

Diretor de Arte – Eloar Guazzelli. É ilustrador, quadrinista, diretor de arte para animação. Atualmente é professor na faculdade de animação da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP)

Bacharel em Desenho e Mestre pela Escola de Comunicação e Artes da USP . 

É um dos indicados deste ano para o Prêmio Shell, que ocorrerá em março  pela cenografia da peça Os 3 Mundos

Trabalhou em mais de 20 curta-metragens de animação e realizou a Direção de Arte do longa-metragem Até que Sbórnia nos separe, premiado em 2013 no Festival de Gramado.

Também foi premiado em mostras e festivais de cinema em Havana, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Maranhão e Brasília. Obteve premiações também nos salões de Humor e Artes Gráficas de Buenos Aires, Cintra, Lisboa, Piracicaba, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Teerã e Tóquio.

Participou de exposições e mostras na Argentina, Alemanha, Bélgica, Brasil, Cuba, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Itália, Japão, México, Portugal, Porto Rico, Turquia e Uruguai. Ilustrou por volta de 70 livros infanto-juvenis e publicou mais de 15 álbuns de quadrinhos, adaptações de romances e autores como A escrava Isaura, O pagador de promessas, Fernando Pessoa, São Paulo em Guerra, Vidas Secas, Kaputt, Grande Sertão Veredas e a Coleção Um-Pé-de-Quê.  Em 2015 obteve 1º. e 2º. lugar no Prêmio Jabuti, categoria Adaptação para Quadrinhos.

Diretor de Animação – Lucas Feitosa. É editor de vídeo e animador gráfico. Bacharel em Cinema pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), também dirige e produz documentários, com destaque para Moinho de Temposrealizado para o Canal Futura.

Autor da Trilha Sonora Original – Kristian C. Schot. Músico holandês, multi-artista. Aos 12 anos começou a estudar piano como autodidata. Aos 13, teve aulas de Composição e Improvisação. Aos 15, começou a estudar piano clássico. Entre os 25 e 33 anos, cursou a Escola de Escultura da Academia de Artes de Utrecht (cidade da Holanda) (Hoogeschool Kunsten van Utrecht – HKU). É escultor artista autônomo, trabalhando como restaurador de antiguidades durante alguns anos. Já atuou ainda como pintor e jardineiro.

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
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