Por que o governo ainda mantém relações com Israel?

A resposta honesta para essa questão está justamente na identificação dessas relações, e sobretudo de quais setores do País se beneficiam delas. 

Por que o governo ainda mantém relações com Israel?

A resposta honesta para essa questão está justamente na identificação dessas relações, e sobretudo de quais setores do País se beneficiam delas. 
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A guerra de agressão sionista contra o povo palestino já vitimou mais de 30 mil palestinos e deixou mais de 70 mil feridos desde o dia 7 de outubro de 2023, dentre eles uma quantidade imensa de mulheres e crianças. No Brasil, agentes e apoiadores assíduos do sionismo agem livremente há décadas, e desde o ano passado elevaram suas ações de propaganda do regime de Israel e de ataque a personalidades que se levantam em defesa do povo palestino e sua autêntica Resistência Nacional. Apesar disso, e a despeito dos tremores diplomáticos das últimas semanas, o governo e o Estado brasileiros seguem a manter relações profundas com o regime israelense. Para muitos brasileiros, a resposta para essa pergunta segue pendente: por que Luiz Inácio, apesar de reconhecer o regime de apartheid de Israel, o genocídio do povo palestino e até mesmo que a agressão sionista é comparável com o Holocausto, insite na manutenção das relações econômicas, militares e políticas com o Estado de Israel? 

A resposta honesta para essa questão está justamente na identificação dessas relações, e sobretudo de quais setores do País se beneficiam delas. 

Armas e tanques contra o povo brasileiro…

A começar pelas Forças Armadas reacionárias. O Brasil é um dos principais compradores de tecnologia e treinamento militar israelense. Alguns casos revelam a magnitude dos contratos: em 2016, a Marinha gastou R$ 75 milhões na compra de equipamentos de comunicação, carros de combate e ações para desenvolvimento e renovação de sistemas operativos. No ano seguinte, o Exército reacionário gastou R$ 6,3 bilhões em blindados importados de Israel. A Aeronáutica não foge à regra: a força já realizou pelo menos 65 pagamentos para a IAI, empresa estatal israelense. 

A lista poderia continuar por um longo tempo: 

Em outubro de 2023, a Câmara dos Deputados aprovou um acordo de cooperação em segurança entre Brasil e Israel, com previsão de colaboração em investigação e inteligência policial, segurança no uso da tecnologia da informação e comunicações, práticas de governança em situações de crise e emergência, indústria, tecnologias e serviços aplicados à segurança pública, análises criminais e forenses, entre outras. 

No período das jornadas de protestos de 2013-2014, um contrato de R$ 102,6 milhões foi selado para a compra de drones. 

No mesmo período, 1,13% do PIB foi destinado à modernização das Forças Armadas com equipamentos israelenses.

A empresa israelense International Security, Defence Systems (ISDS) já realizou um treinamento do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM do RJ, “tropa de elite” responsável pelas principais chacinas nas favelas cariocas.

No século passado, o Estado brasileiro já comprava itens da AEL Sistemas Ltda., uma subsidiária brasileira da Elbit fundada no Brasil em 1982, durante o regime militar. Além da AEL, a Elbit também é dona das empresas militares “brasileiras” Ares Aeroespacial e Defesa SA. 

Não à toa, os militares reacionários brasileiros logo se pronunciaram, mesmo que às escondidas, quando as relações diplomáticas entre Brasil e Israel foram estremecidas. No dia 19 de fevereiro, a CNN anunciou que o “Exército vê com preocupação desgaste entre Brasil e Israel”. De acordo com o monopólio de comunicação, integrantes da força militar foram consultados para a reportagem, talvez usada como meio de aviso da caserna ao governo. 

… soja e boi para Israel 

Fora a caserna, o setor que mais se beneficia das relações com o sionismo é o latifúndio brasileiro. Das exportações do Brasil a Israel, os três principais grupos foram: “óleos brutos de petróleo ou de minerais betuminosos cru” (21%), “carne bovina fresca” (19%) e “soja” (18%). Ou seja, 37% (soja e carne bovina) foram diretamente ao benefício do latifúndio. Os outros favoreceram as grandes mineradoras e os magnatas que enriquecem da venda do petróleo brasileiro ao exterior. O Brasil também exporta café e suco de laranja para Israel.

Na mesma linha, dentre os produtos mais importados pelo Brasil de Israel estão os insumos da indústria química. Em 2023, 45% das importações do Estado sionista foram adubos e fertilizantes químicos, no valor de 608 milhões de dólares (R$ 3 bilhões). Outros 11% foram inseticidas (144 milhões de dólares, ou R$ 713,4 milhões). 

Sem impacto na economia 

Caso o Brasil rompesse as relações com Israel, o impacto econômico para o povo seria pequeno. As vendas dos produtos brasileiros para Tel Aviv não beneficiam o conjunto da Nação, uma vez que os lucros são açambarcados pelos latifundiários e o Estado não se beneficia nem mesmo das cobranças do imposto, dadas as isenções fiscais milionárias ao setor.

Mesmo consideradas as vendas que beneficiam tão somente o agronegócio, Israel ainda foi o 54° maior destino de produtos brasileiros em 2023. A renda das negociações foi de somente 0,19% de tudo o que foi exportado pelo Brasil.

Tudo se resume ao comprometimento 

As relações não são rompidas, portanto, por uma questão de compromisso. Por receios das consequências de atritos com a caserna depois da quase ruptura institucional de 2022, Luiz Inácio está atualmente mais comprometido com os militares (ou melhor, submisso) do que em qualquer outro governo seu. 

O ano de 2023 foi marcado, além dos diversos acenos políticos à Cúpula militar, pelos incentivos exorbitantes do governo à área da “Defesa”. Somente o Projeto de Aceleração de Crescimento (PAC), uma das vitrines do governo, destinará R$ 12,4 bilhões ao Exército

A relação de compromisso também se estende ao latifúndio. No ano passado, o mandatário brasileiro destinou R$ 332 bilhões ao agronegócio por meio do “Plano Safra”, além de créditos por meio de outros programas como o BNDES Rural. Também para não criar atritos, a reforma agrária ficou paralisada, e nenhum palmo de terra foi comprado pelo governo. 

E como o presidente Luiz Inácio sabe que o rompimento total com Israel (isto é, das relações diplomáticas, militares e econômicas) seria motivo de desagrado severo a esses setores, o tema também é evitado. 

Extrema-direita aproveita 

Nesse cenário, os agentes do sionismo aproveitam para agir livremente em terras brasileiras. Sem um enfrentamento sério por parte do governo ao sionismo e à extrema-direita (com quem o governo prefere manter uma política de composição, e não de enfrentamento), agências como a Confederação Israelita do Brasil (Conib), ascendente no Brasil desde os anos do governo Bolsonaro, perseguem sem restrições personalidades como o jornalista progressista Breno Altman. Altman foi perseguido depois de publicar tweets em apoio ao povo palestino e sua Resistência. De origem judaica, foi acusado pela Conib de antissemitismo.

Na esfera política oficial, a prefeitura do Rio de Janeiro adotou os termos de “antisemitismo” propostos por organizações sionistas como a Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA), a ong StandWithUs Brasil, a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro e a própria Conib. Segundo a IHRA, seria antissemita dizer que “a existência do Estado de Israel é um empreendimento racista”. A gestão municipal de São Paulo também passou, desde novembro do ano passado, a adotar a definição da IHRA.

Além disso, governadores como o goiano Ronaldo Caiado, notório latifundista-sionista, aproveitam da manutenção das relações de propaganda para selar novos acordos com Israel e agitar a bandeira do sionismo. Na última semana, Caiado fechou dois novos acordos com Israel, um de combate ao “antissemitismo” e outro de estímulo ao “agronegócio”. O governador também inaugurou o parque “Am Israel Chai”, onde serão plantadas 1,2 mil árvores, dentre elas um exemplar da tradicional árvore palestina, a oliveira, em homenagem às pessoas mortas em Israel no 7 de outubro. O monumento do parque não menciona o povo palestino e aponta o Hamas como “grupo terrorista” responsável por todas as mortes daquele dia, ignorando os israelenses mortos pelo Exército de seu próprio Estado. 

Por parte do povo brasileiro, seguem as exigências de rompimento das relações totais com Israel. Manifestações pró-Palestina ocorrem com frequência para condenar os propagandeadores e financiadores do sionismo, como registrado nos recentes protestos em frente à sede da Rede Globo de televisão, em Belo Horizonte (MG), e na embaixada norte-americana em Recife (PE).

Mas, dentre as amplas massas populares e as classes dominantes atadas a Israel, o governo já escolheu com quem prefere manter o compromisso e a política de boa vizinhança. 

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