Mario Benedetti e a rotunda do exílio (I) (Beatriz, Santiago, Graciela)

Mario Benedetti
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 Mario Benedetti e a rotunda do exílio (I) (Beatriz, Santiago, Graciela)

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Si cuarenta mil niños sucumben diariamente

en el purgatorio del hambre y de la sed,

(…) ya es bastante grave

que un solo hombre, o una sola mujer,

contemplen distraídos el horizonte neutro. IN: El Olvido está lleno de memoria

1

          Beatriz tem nove ou talvez dez anos. Ela mora ‘no’ exílio, embora não saiba bem o que signifique isto. É que desde há muito, no tempo largo que pode caber nos seus nove ou dez anos, esteve onde está, vivendo a este país – que talvez seja a Espanha, do outro lado do Atlântico. País em que aprendeu a ler e a escrever. Onde ingressou à escola, e que dividiu com os primeiros amigos, as suas mais recônditas lembranças. Lugar em que deverá, mais tarde, lançar-se em viagens de extremo a outro, testar as fronteiras, imiscuir-se aos gestos do povo, ensaiar cantos de libertação. Há quem lhe diga, por vezes, que ela é uma filha do exílio, mas para Beatriz isso não quer dizer grande coisa; ou melhor, isso tantas vezes a andou confundindo a cabeça – essa palavra, esse nome, esse juntado de fonemas. É que Beatriz pensava ser filha de Santiago e Graciela, e durante muito tempo não conseguia encaixar neste par de progenitores o lugar que haveria de ser reservado para um terceiro membro, um terceiro excluído, este nome estranho, essa palavra soprada em dor e pranto e indiferença e rejeição, e que lhe fora tantas vezes pronunciada, estirada, lançada ao seu colo de criança, o exílio.

            É que Beatriz nasceu num país do qual ela sequer se lembra. O que lhe chega de lá lhe vem através das palavras e silêncios de Graciela, sua mãe, ou de Rafael, seu avô paterno. Certa feita disse não ter saudades do Uruguai que lhe contam, e que para ela Uruguai era apenas uma palavra com três sílabas, e isto lhe valera discreta repreensão, um olhar de esguelha dos companheiros de Graciela na reunião quinzenal de expatriados. Noutras vezes, Beatriz tropeçou nos versos do hino, trocou-os de ordem, pulou referências, se equivocou de entonação e ritmo. Se inquerida, Beatriz revela não lembrar das ruas de Montevidéu, sequer que da Avenida 18 de Julio – e inda menos do saudoso tempo em que ela envergava árvores. Ou dos cheiros do Mercado del Puerto e das parrillas aos domingos com a família. Beatriz nunca balançou os ossos ao som do Candombe que toma as ruas e vai arrastando as gentes num seu colorido de figurinos grudados ao suor dos corpos. De Zitarrosa, ela apenas ouviu a voz saída dos vinis pretos rodando e rodando no toca-discos quando Graciela ousa alguns passos de um tango solitário e melancólico. Mas Beatriz acha que tudo isso é coisa muito antiga e passadiça, abismada de deserto e distância, e que se faz chorar a Graciela é porque não deve ser algo tão bom assim. Melhor mesmo é quando a agulha finca num sulco qualquer da bolacha de etileno e cloro, e sua mãe diz que está arranhado o LP, e o ensaca de forma definitiva.

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          Beatriz não se lembra de ter ido às arquibancadas em partidas de futebol com Santiago, seu pai, hincha do Nacional, para uma peleja de vida e morte contra o Peñarol. No Teatro Solís, não esteve a nenhuma das noites nas que o público se deliciara com o recital a duas vozes de Daniel Viglietti e Mario Benedetti. Talvez que não houvesse como a este arranjo anacrônico – afinal as páginas do livro nas que parece caber Beatriz são anteriores ao referido espetáculo, todavia, livres que somos, quem irá/iria checar isto ao cardápio dos afazeres romanescos?! Mais fácil seria investigar à carteira de passe, o registro civil, o nada consta, e a este, Beatriz não conviria estar enumerada entre os uruguaios de conveniência como quando aos anos do regime militar, entre aquele 1973 e o 1985 que ainda não chegara até ela. Beatriz está dentro do exílio de que não entende padecer. Filha de pareja envolvida na luta popular, nos confrontos urbanos, às fileiras da Organização MLN-Tupamaros, Beatriz fora tomada de arrasto aos percursos da militância política, clandestina e resistente em meio à violência do terrorismo de Estado, e Beatriz seguirá ao exterior, levada pela mão da mãe e a do avô paterno, depois da queda de Santiago, o pai. 

          Mas Beatriz não recorda, não se lembra, não traz consigo estes vasos de comunicação afiados; ela era suficientemente pequenina para não caber inteira dentro deste cesto de história; ela era interinamente incapaz para poder assenhorar-se dos fatos nos que até ela resvalava – a rigidez da hora a vir de encontro, de brusco, aos esbarrões, às tormentas, levando-a pela mão e a sua revelia para onde se tivesse que ir. E Beatriz não lembra, não recorda, sua caixa de memórias está tomada de esquecimento. E é tal isto que ela sequer consegue se situar às vezes em que andou de pedalinho, jogando miolo de pão para os patos e gansos, no Parque Rodó. Do mais longe de si, ela recorda de um pedaço da mão de Santiago segurando o selim da bicicleta, ela, insegura, girando os pedais, ele correndo alegre ao seu lado, ela com medo de tombar e de se machucar, Santiago com a mão firme, dizendo para ela olhar para frente, apenas para frente, até que já não havia Santiago. Quede a mão? Quede a de Santiago? Onde que não está? Onde que se lhe escapara de entre os dedos miúdos, a mão de Santiago? Será se lhe fora arrancada a mão, mas porque não sobrara então as outras partes do corpo, o espectro, a sombra? Beatriz ensaiava os primeiros giros soltos sob rodas. Sem a mão de Santiago no selim, sem a necessidade do equilíbrio alheio – que por vezes é acolhimento, e noutras vezes, esta ausência de que padece ela quando chora à noite; mas agora, àquele parque, não havia precisão, e a bicicleta não tombara, e ela seguira os conselhos de Santiago, e ela olhara tão somente para frente. Tão somente para frente que fora esquecendo se era o parque o lugar em que estava, fora se esquecendo das parrillas, fora se esquecendo que o Uruguai não era apenas uma palavras com três sílabas, e fora se esquecendo da mão de Santiago, e fora se esquecendo que houvera ali aquela mão ao selim da bicicleta, e eis que Beatriz estampara um sorriso de orelha a orelha, se sentindo segura o suficiente para sequer virar para trás a cabeça, e ela fora buscando olhar para frente na evitação de que os fatos lhe chegassem nela à revelia, e dentre estes fatos, Beatriz foi se esquecendo de se perguntar o porquê que Santiago já não estava mais com ela. 

          E Beatriz não lembra se fora no Parque Rodó a última vez que o viu; o que ela tem absoluta certeza é de que havia um lago grande com um chafariz no meio e que só poderia ter sido lá. Beatriz lembra menos do parque do que do nome do bairro vizinho de Punta Carretas porque diz achar engraçado esse nome. Graciela chegou a lhe dar uns bons beliscões a ver se lhe ativava o roldão emperrado da memória, mas nada. Graciela chegou a desenhar num papel algo como um mapa cartográfico da região, e lhe impôs o desafio da adivinhação geográfica – ruas quadras praças e orla larga e extensa. Mas nada. No princípio, os beliscões eram leves e inocentes, mas aos poucos, na medida em que a cabaça do esquecimento de Beatriz parecia se alargar, eles, os beliscões, foram ficando mais duros e giratórios, até que a pele fora se enchendo de marcas avermelhadas a ponto de lhe perguntarem na escola o que era aquilo, e Beatriz não sabia o que responder. Até que uma vez, ela disse que o arroxeado era feito de saudade. Eram os efeitos da saudade. Da saudade que sentia de Santiago. 

Mas quem é Santiago, devem lhe ter perguntado. Talvez que tenham confundido o nome do pai de Beatriz com o nome da capital chilena – afinal àquele então, foram muitos os que de lá vieram pousar em terras espanholas. A coincidência de datas da enxurrada de gentes, 1973 espocando no calendário, não era coincidência alguma, era nada mais do que a consumação de um projeto de saqueio sob a forma de golpes de Estado a se multiplicar como ervas daninhas e vendilhonas em território latino-americano. Uruguai, Chile. Antes fora o Brasil, a Bolívia, a Argentina, e seria outra vez a Argentina, e antes ainda fora o Paraguai, e antes e depois e ainda. E talvez por isso tenham pensado que Santiago era o nome da cidade assaltada pela camarilha de Pinochet.

          E fora um tal de gente chegando, e Beatriz estava aí, entre os que chegaram. Mas Beatriz não se lembra desta chegança, e isto a ponto de pensar que foi num balouço de navio que ela aportara ali (uma vez ela deve ter feito um desenho assim no colégio) – quando, em verdade, fora de um entroncado de países e diplomacias nas que ela esteve às turbulências do ir e vir. Ora ingressando ali, tecendo morada, decorando nomes de ruas, e noutra hora, destecendo este enredo, tendo de sair às pressas, Graciela lhe tomando no colo, atravessando aduanas, os documentos frios, as alcunhas as mais diversas, inventando afazeres e ofícios. Imenso o corre-corre, este exílio de entre, esta vacância de lugar que bem pode parecer a Beatriz que era de uma vaga na que a nau se lançara. E daí a sensação do balanço – que ela deve ter pensado que era da proa da embarcação desequilibrada quando era tão somente as burocracias das fronteiras e das autoridades consulares.

Santiago é meu pai, é o nome dele, o nome do meu pai é Santiago, ela deve ter dito em resposta, e quando lhe perguntaram por que ela sentia saudade do pai, se ele não estava com ela, e se ele não estava com ela onde será que ele estava, Beatriz lhes respondera que Santiago estava em La Libertad.

Aqui são palavras de Beatriz, no romance de Mario Benedetti:

“Liberdade é uma palavra imensa. Por exemplo, quando terminam as aulas, se tem o costume de dizer que se está em liberdade. Enquanto dura a liberdade, se passeia, se joga, não se tem que estudar. Se diz que um país é livre quando uma mulher qualquer ou um homem qualquer pode fazer o que lhe convém. Porém até nos países livres tem coisas que são proibidas. Por exemplo, matar. Mesmo assim, se pode matar mosquitos e baratas e, também as vacas, estas, claro, para se fazer churrasco (…). Liberdade quer dizer muitas coisas. Por exemplo, se alguém não está preso, se diz que se está em liberdade. Porém, meu pai está preso e, entretanto, está em Libertad, porque assim se chama o presídio onde ele está há muitos anos”.

2   

My Favorite Poems from Mario Benedetti - Speculative Tertulia

          No romance Primavera con una esquina rota, escrito entre os outubros de 1981/82, e ainda ao exílio, em Palma de Mallorca, Mario Benedetti talvez desconserte àqueles críticos e escritores-críticos que empregaram, ou restringiram o seu tempo, aos imperativos formais da tarefa de escrever. Um tanto como estetas debruçados sobre as muretas de um academicismo infértil – tantas vezes estes se lhe voltaram (e ainda lhe voltariam) palavras de agravo como que a desdenhar de seu trabalho literário. Seja depositando-o, aos modos da pecha, à condição do escritor destinado à primazia imperiosa do ‘retrato’; ao testemunho do ‘ocorrido’; aos ‘limites’ de uma ‘crônica submetida a narrativa do fato social’ numa espécie de neorrealismo literário como signo-sintoma daquele que teria pouca capacidade de ficcionalizar. Tal análise desmerecedora abarcando aos seus contos, romances, e ‘supremo crime’, a sua poesia – afinal a poesia deveria ser etérea, imaterial, a evolar-se sempre que inquerida ou investigada sob as razões provindas do real, todo e qualquer

E, curiosamente, Benedetti rompendo gêneros, atravessando distintas formas de escritura, teria incorrido no equívoco de alargar o raio de alcance destes dardos envenenados, deste tipo de denegação a que a ele se voltaria – seja decalcando a sua escritura uma suposta obviedade formal e sem ‘dar vez’ ao cosmopolitismo das vanguardas – ‘imenso profundas, imenso ricas’ no que tange aos entramados corredores do espaço literário e da crítica. Segundo a bastardia de tais juízos, Benedetti era popular em demasia, esbarrando inúmeras vezes aos lugares-comuns a que atendia a compreensão do homem das ruas. Como se se tratasse de um populismo literário. E isto, claro está, parecia soar aos critérios de rigor de tais estetas. Curiosa a inversão de perspectivas – não nos furtamos de indicar aqui. Curioso o paradigma que sequestra às massas populares a condição de leitor participante sob o pretexto da alta-literatura que lhes seria (ou deveria ser) inalcançável. Ousamos dizer que Mario Benedetti desmantela tal figurino. E que seu posicionamento político, sua filiação a los de abajo na luta de classes fora, sem dúvida e de fato, a causa-forte de tal apedrejamento provindo destes academicismos de segunda mão, colonizados de todo e umbilicalmente. 

          Todavia, acrescentemos que a este romance, o que faz Benedetti é embaralhar a narrativa, fragmentando-a em espaço e tempo vários e distintos. Fazendo descolar de uma sequencialidade linear as vozes e os seus modos no conjunto textual da estória narrada. Cada personagem fala desde um lugar-modo próprio e específico. Desde um campo de afetos que se chocam e se fazem mover como que a uma dialética em espiral.

          Santiago, por exemplo, está ao cárcere, está às expectativas de quem sabe escapar, de quem sabe ser absolvido, ou de quem sabe, experimentar formas táticas ao cálculo da resistência militante: não contar nada, não revelar qualquer pista, não delatar qualquer ação ou companheiro ou dispositivo de combate. Santiago sabe que uma palavra solta, uma pista revelada, uma curva aludida ainda que a uma esquina partida, seria o canal de ingresso ao ponto máximo dos métodos de tortura – sem limites de tempo, modo e lugar. E Santiago não dirá nada. Não porque enverga em si a fantasia pequeno-burguesa do herói individual, inquebrantável e tomado de uma fantasia de protagonismo. Santiago é todo ele tática e estratégia. Todo o seu corpo está escrito a esta função coletiva e organizada. Santiago guardará em si os nomes, as regiões de dispersão, as alianças de base e braço legal. E Santiago será o esquecimento, a desmemória, entregando-se, sem sucumbir de todo a isto, ao torvelinho de um exílio de intramuros no que a temporalidade derrapa, desanda, e ingressa por veredas nas que sonho, lembrança, projeção são a matéria móvel de sua palavra e de seus silêncios. Ainda que, ao cuidado de si, ele mantenha ativo os pontos que lhe rebatem desde fora e que são seus luminares, Graciela e Beatriz. Em direção a elas, fará seguir o fluxo de cartas cifradas porque todas as cartas são acompanhadas pelos olhos da inteligência da carceragem, os sicários da repressão. Mas Santiago é feito de escrita, de correspondência, de missiva, sua palavra tem o tônus epistolar. Espécie de antídoto a lhe servir tal como um salvo-conduto à loucura e à fratura psicológica que é alvo fundamental da violência do cárcere: fazer vergar o moral, fazer dobrar a convicção, fazer cindir o compromisso militante e organização.

Aqui são palavras de Santiago quando se lhe afigura a possibilidade de deixar a penitenciária – nelas estão misturadas as sombras, a virulência do que é concreto e material, a carne espessa da realidade, a sutileza solidária com os companheiros de cela:

“Face a esta nova possibilidade, de imediato tenho deixado de fantasiar, de me refugiar nas lembranças, de reconstruir temporadas no balneário, ou da casa, de reconhecer figuras e rostos nas manchas de umidade nas paredes. Agora ponho a minha atenção em temas concretos: trabalho, estudos, vida familiar, projetos diversos. (…) O bom companheirismo não consiste sempre em falar ou escutar, em contarmos as vidas e as mortes, os amores e os desamores, em narrarmos os romances que lemos há tempos e que, agora, não temos às mãos, ou em discutir sobre filosofia e adjacências, em tirar conclusões de experiências passadas, em analisar ou nos analisar ideologicamente, em trocar as nossas respectivas infâncias ou, quando se pode, em jogar xadrez. O bom companheirismo consiste tantas vezes em calar, em respeitar o laconismo do outro, em compreender que isso é o que o outro necessita nessa precisa e obscura jornada, e então, acolhê-lo com nosso silêncio, ou deixar que nos acolha com o seu, porém, e tal ‘porém’ é fundamental: sem que nenhum de nós o peça ou exija, mas que os companheiros o compreendam por si mesmos, em uma espontânea solidariedade”.

          Graciela está ao exílio de fora, ao exterior de quem sabe uma Espanha, acomodada aos afazeres cotidianos no que se trabalha, no que se supõe levar a vida aos silêncios da ordem, e entregue ao tempo que lhe traga e consome de incompletudes. É que Graciela está cindida em duas metades. A que espera o retorno de Santiago desde as mesmas convicções e perspectivas programáticas, desde o mesmo companheirismo militante em causas compartilhadas e comuns. E a que aguarda o retorno de Santiago para lhe dizer que se enamorara quando de sua ausência depois de todos estes anos sem promessas e horizonte. Sem datas de aceno, sem anúncio de sursis. Graciela está cindida ao meio. Inteiramente cindida. Compactamente dividida. Difícil a tarefa das filtragens a que tem que gestar em si – fazer-se de escoadouro e represa, fazer-se de usina e dique de contenção. É que nem tudo é o que convém à infância de Beatriz, e Graciela tem que lhe moldar os jeitos para que os fatos não a fraturem mais do que se lhe depositaram ao corpo da infância. Graciela precisa colorir em matizes diversos o que for terminantemente cinza e aziago. Dizer a Beatriz que Santiago não tardará quando, em verdade, o que sabe Graciela deste tempo de clausura, dos seus prazos de suplício, da tortura dos inimigos quando se apoderam do corpo do militante revolucionário e o encarcera?! 

          Graciela tem que estampar no rosto a expectativa de um retorno que quem sabe o que será para o quando tal retorno se fizer. Graciela precisa dizer que ele virá para tão logo. E que ele não partirá mais. Graciela tem que dizer para Beatriz que Santiago fora preso por esteve a uma luta que ele não abdicará jamais, mas que ele não irá cair preso uma outra vez ainda que a luta se mantenha constante e necessária; e mesmo que os seus inimigos tenham de Santiago os seus registros e destinação, a sua mão não se lhe desaparecerá como quando de uma bicicleta na vida. Graciela tem que deixar claro a Beatriz que se ele está preso não é porque Santiago era um delinquente – como certa feita se lhe sugerira ao colégio; Beatriz a chorar e a se revolver a noite toda na cama em suores, febres e urina. Graciela precisa acolher em braços largos a menina que peleara na escola em defesa do pai que está preso porque estivera em defesa de seu país, e que seu pai era uma espécie de prisioneiro da liberdade e da emancipação, algo que se costuma encaixar na condição de preso político, mas que Beatriz não sabe muito claramente o que isto significa. Beatriz apenas sabe que Santiago está numa prisão que, eufemisticamente (e ela não sabe o que esta palavra quer dizer…), é chamada de La Libertad. Beatriz apenas sabe que tudo isto deve estar relacionado àquele dia em que ela não viu mais o pedaço de mão de Santiago, seu pai, ao selim da bicicleta, naquele parque em que aprendeu que deveria olhar para frente e somente para frente, e que tal parque devia ser o Parque Rodó. 

          Graciela está imersa às tarefas deste exílio exterior como quando ela tem que ir ao colégio de Beatriz para dissipar as falas comezinhas que tem espalhado, pelos quatro cantos que os filhos dos prisioneiros políticos têm o costume de bater nas crianças que são as filhas legítimas, e de alta estirpe, de uma Espanha qualquer. Graciela está presa a este exilio exterior. Presa e cindida. Atada à colcha de cuidados, seletiva, colhedora, aturdida, mas atenta. Santiago está preso ao exílio interior. Encarcerado ao ‘intra-muros’ judiciário-penal de um Uruguai sob o governo de um exército de ocupação. Atado à tarefa de se manter ativo, presente, solidário, forte e convicto. Beatriz é filha de ambos, filha de um exílio abismal a que ela não consegue equilibrar. Que ela não consegue nomear. Porque lhe falta em definitivo aquilo que ficou para trás.

3

Un ciclo homenajea a Mario Benedetti con lecturas de sus cartas con Idea  Vilariño

          Porém não é apenas isto – e tal coisa que não é pouca, esta corredeira de personagens estropiados no tempo e no espaço de um romance-percurso. Benedetti é, ele próprio, personagem ‘no’ texto que escreve. É que de entre as vezes do exílio, seus elos, seus becos, seu interior de cárcere, seu exterior de asilo, seu hiato de esquecimento, em suas voltas de aduana e clandestinidade, ou de forma sintética – na sua rotunda giratória, a voz de Mario Benedetti se faz revelada no que se conta, se expõe, se insere. De corpo presente, imerso, atuante. Não apenas como quem se faz fragmentar no que falam os personagens que lhe escapam da pena. Embora também aí, Benedetti esteja. Entretanto, ele se infiltra, apresenta os fatos que lhe foram tomando de assalto como quando tivera que deixar Montevidéu, e quedar por um tempo em Buenos Aires, um par de anos, entre 1973 e 1975, até que fosse avançando os assaltos às casas, as mortes sob encomenda e à luz do dia, aplicados pela Organização neofascista Triple AAA (Alianza Anticomunista Argentina), ainda durante o governo de Isabel Perón, no período que ficara conhecido como o da antessala do terrorismo de Estado. 

          Benedetti conta que dispunha de cerca de cinco chaves de apartamentos distintos no chaveiro que sempre levava consigo. E que fora este o dispositivo arranjado entre os companheiros para com àqueles que estavam sob vigilância e perseguição, e no limite, sob a ameaça de morte, com data e hora marcadas. Era o molho das chaves solidárias, nos termos de Benedetti. E sequer que era preciso falar, contar o de que se estava passando, destrinchar o mais grave e profundo de suas convicções, fundamentando-as aos olhos judicantes de tais companheiros. Tantas vezes, e apenas, era do silêncio o de que se pactuava. O silêncio de companheiros que compartilham o que sequer precisa que se diga – porque os olhares têm tantos signos sendas picadas e falsas pistas quando se está a uma cidade sitiada por inimigos inescrupulosos e por vende-pátrias oportunistas. Mario Benedetti esteve a esta zona de conflito, a esta trincheira desigual na que o Estado e seus sócios-acionistas, rentistas de primeira hora em suas falácias e legislaturas, investiram boa carga de recursos para a montagem dos dispositivos de perseguição, repressão e extermínio. Benedetti esteve a esta hora na que o capital monopolista pôs em prática a sua avalancha de terror planificada afim de pavimentar as condições ótimas às suas políticas de saqueio. Plasmava-se desta forma o céu de brigadeiro às investiduras neoliberais dos anos 1990 em diante. E Benedetti tivera que ir de ali, sair em direção a Lima, de Velasco Alvarado e ao seu progressismo de hora contada às favas imperiais. Mas não se demorará em terras peruanas pouco ou nada dada à estação das flores – uma vez a aridez do solo, ao deserto da semeadura.

          Aqui é a voz de Mário Benedetti ao romance Primavera con una esquina rota quem conta este pedaço de seu exílio peruano:

“Mais ou menos às 6 horas da tarde, da quinta feira, 22 de agosto de 1975, estava lendo, despreocupadamente, no apartamento alugado da Rua Shell, de Miraflores, Lima, quando lá embaixo alguém tocou a campainha e perguntou pelo senhor Mario Orlando Benedetti. Isso já me soou mal, pois o segundo nome apenas figura em meus documentos e ninguém dentre os meus amigos me chama assim. Desci, e um tipo a paisana me mostrou sua carteira da PIP [Policia de Investigaciones del Perú], e disse que queria me fazer algumas perguntas sobre meus papéis. Subimos, e então, me contou que lhes havia chegado uma denúncia de que meu visto estava vencido. Trouxe o passaporte e lhe mostrei que havia sido renovado a tempo. ‘- De todo modo terás que me acompanhar, porque o chefe quer falar com você. Em meia hora estarás de volta’. E diante desta imprudente advertência tive a quase certeza de que ia ser deportado. Essa linguagem cifrada a utilizam todos os repressores do mundo”.

          Não falhará a intuição de Mario Benedetti àquela noite. De fato, ele não retornaria em meia hora ao seu apartamento alugado no bairro de Miraflores. O asilo, que lhe fora garantido quando de sua providencial saída de Buenos Aires, tinha seu prazo de validade vencido. Não por coincidência a revolução peruana havia substituído a Velasco Alvarado por Francisco Morales Bermúdez. Eram os sopros do capital monopolista a exigir os resultados rápidos de sua investidura. Afinal era já a hora da fatura uma vez findado o sonho progressista. 

          Benedetti descreve o final daquela jornada:

“(…) Às quatro e meia, saímos os cinco (os outros dois haviam retornado com suas jaquetas) em um carro grande e preto. Cruzamos com a dona do imóvel que eu alugava. Lhes deram as chaves e o contrato. Essa viagem foi meu único motivo real de preocupação, uma vez que eles me levaram por uma rota que não era a habitual. Totalmente deserta, entre terrenos baldios, somente iluminada pelos faróis do carro. Demoramos muito mais que seria o normal. Quando divisei ao longe a torre do aeroporto, confesso que respirei aliviado. Já no aeroporto, somente pude embarcar no voo das 9 horas da manhã de sábado. Ainda bem que era da Aeroperú. Não conseguiram um lugar no voo das 8 horas, que era da LAN. Em nenhum instante, me deram nada para beber ou comer. Estive vinte e quatro horas às secas. (…) Quando o inspetor me entregou os documentos junto ao bilhete de passagem do avião, disse: ‘- Você deve estar ressentido com o governo, porém não tenha mágoa dos peruanos”. E me cumprimentou”.

          Benedetti seguirá para Havana. Onde permanecerá até 1980. Entre outros afazeres, integrará o Conselho Superior do Instituto Cultural Casa de Las Américas, sendo eleito Diretor do Centro de Investigações Literárias, responsável pelo estudo crítico e pela divulgação da literatura latino-americana. 


¹  BENEDETTI, M. El Olvido está lleno de memoria (1995). Buenos Aires: Planeta, 2016 (p.33).

²  Transitamos livremente entre os personagens Beatriz, Santiago, Graciela sacados do romance Primavera con una esquina rota (1982). Cf. BENEDETTI, M. Primavera con una esquina rota. Buenos Aires: Planeta, 2016.

³ Idem, p.105. (tradução nossa).

₄  A um ensaio de 1973, Mario Benedetti fará menção aos que ele chamará, ironicamente, de ‘beatos do individualismo’ escondidos/isolados nas barricadas de sua solidão. São aqueles que se desenvolveram no interior de uma sociedade colonizada e subdesenvolvida, e apegados a arte como uma espécie de distintivo, de propriedade privada, que deverá se manter alheia ou o mais distante possível das urgências e da convocatória do mundo. E que, mesmo quando inevitavelmente se voltam em direção ao leitor, tal viragem se mantém aos modos do elitismo, gestando uma espécie de ‘aliança de clã’, de minorias que se refastelam, num código específico de cumplicidade na que cada qual se retroalimenta e se anula a qualquer experiência do comum. Cf. BENEDETTI, M. El Escritor Latinoamericano y la revolución posible. Habana: Casa de las Américas, 1974 (p.54-5).

⁵  Aprofundaremos este debate no próximo texto sobre Benedetti – que se chamará: Mario Benedetti e a rotunda do exílio (II) (O des-exilio de Javier).

⁶  Idem, p.148-149. (tradução nossa)

⁷ Aprofundaremos este debate na 3ª parte dos textos sobre Benedetti. No caso, este que se chamará: Mario Benedetti e a rotunda do exílio (III) (rachaduras e calabouços).

⁸  BENEDETTI, M. Primavera con una esquina rota. Op.cit. (p.35) (tradução nossa)

⁹ Idem, p.39. (tradução nossa).

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