14 anos da heróica resistência de Corumbiara

https://anovademocracia.com.br/55/22a2.jpg
https://anovademocracia.com.br/55/22a2.jpg

14 anos da heróica resistência de Corumbiara

Print Friendly, PDF & Email

No dia 9 de agosto de 1995, na cidade de Corumbiara – RO, um bando composto por policiais militares pertencentes ao 3º Batalhão de Vilhena e ao Comando de Operações Especiais associados a pistoleiros, todos a soldo do latifúndio, preparavam-se para executar um massacre sobre as famílias camponesas que haviam tomado o latifúndio Santa Elina.
Mas, contrariando o propósito assassino do latifúndio, o que encontraram em Santa Elina foi uma feroz e heróica resistência camponesa.
Do contrário, um banho de sangue teria ocorrido.

http://jornalzo.com.br/and/wp-content/uploads/https://anovademocracia.com.br/55/22a2.jpg
Santa Elina, 1995

Na madrugada de 9 de agosto de 1995, as 600 famílias acampadas na fazenda Santa Elina foram surpreendidas pela invasão policial e dos pistoleiros que cercaram o acampamento. A ação sanguinária comandada pelo latifúndio e com a total conivência do governo estadual, que à época tinha como gerente Valdir Raupp (PMDB).

O acampamento foi atacado com bombas de gás e armas de grosso calibre. Mulheres foram utilizadas por policiais e pistoleiros como escudos. Os acampados organizaram a retirada e internaram-se na mata.

Homens, mulheres, velhos e crianças foram presos e espancados. Várias pessoas foram friamente assassinadas, não permitindo que se pudesse saber exatamente quantos camponeses foram mortos. Relatos de camponeses contam que homens caídos feridos e sem condições de reagir foram executados por policiais e pistoleiros.

Um campo de futebol próximo ao acampamento foi transformado em centro de torturas, uma espécie de campo de concentração, onde policiais encapuzados seviciaram camponeses, assassinaram a sangue frio, realizaram barbaridades indescritíveis, como partir o crânio de um camponês e obrigar um outro a comer a massa cerebral espalhada no chão.

Os números da ação genocida contam 11 camponeses assassinados (esse é apenas o número oficial, os camponeses denunciam números muito superiores). Entre os mortos, a pequena Vanessa, 7 anos de idade, executada com um tiro pelas costas. Vanessa tornou-se um símbolo nacional da resistência de Santa Elina. Além da matança, foram contabilizados 7 desaparecidos, mais de 200 camponeses com graves sequelas físicas e psicológicas que perduram até os dias de hoje, muitos deles com balas alojadas no corpo. Outros faleceram com o passar do tempo em decorrência de doenças causadas pelos espancamentos e torturas.

Toda a ação dos policiais e pistoleiros, assim como a resistência dos camponeses, foi documentada pela imprensa e teve imediata repercussão nacional e internacional.

O número de mortes só não foi maior devido à heróica resistência das famílias de Santa Elina com paus, pedras e ferramentas de trabalho e suas velhas espingardas de caça.

Os responsáveis pelo ataque, torturas e assassinatos dos camponeses de Santa Elina, o latifundiário e coronel da reserva Antenor Duarte do Valle e os comandantes da PM José Hélio Cysneiro Pachá, Mauro Ronaldo Flores Correia e Vitório Regis Mena Mendes não foram punidos, sendo inclusive promovidos.

http://jornalzo.com.br/and/wp-content/uploads/https://anovademocracia.com.br/55/22a1.jpg
Santa Elina, 1995

Apenas Vitório Regis Mena Mendes foi condenado, mas aguarda em liberdade a conclusão do processo em instâncias superiores. Valdir Raupp foi eleito senador pelo PMDB, partido da base aliada da gerência Luiz Inácio. O gerente de turno do velho Estado burguês-latifundiário, Luiz Inácio, que nos anos 90 posava de "oposição", visitou Santa Elina logo após a ação do latifúndio, prometeu justiça e "se fosse eleito…". O latifundiário Antenor sequer foi citado no processo.

Após a matança promovida pelos policiais e pistoleiros, a justiça do latifúndio cometeu o absurdo de condenar dois camponeses pela morte de policiais, sendo que o camponês Cícero permaneceu meses detido e até o ano passado cumpria pena em regime aberto.

Recentemente, a Corte Interamericana de Justiça da OEA – Organização dos Estados Americanos, decidiu que o governo brasileiro deve pagar as indenizações às famílias, reconhecendo que o massacre contra os camponeses foi uma operação de guerra em tempos de paz. Até hoje, nenhuma indenização foi paga.

Prestes a completarem-se 14 anos da resistência de Corumbiara, as famílias remanescentes daquela luta permanecem, organizadas pelo Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina – CODEVISE, lutando pela punição dos assassinos e torturadores; pelo direito a indenização para as famílias de Santa Elina; pelas terras e pelo corte fazenda.

Retomada da histórica Santa Elina

A Liga dos Camponeses Pobres, organização classista e combativa dos camponeses pobres, fruto da resistência de Santa Elina, reatando o fio histórico que deu a sua própria origem, estabeleceu como questão de primeira ordem a luta pela indenização das vítimas de Corumbiara e pela retomada e corte da fazenda Santa Elina.

A decisão foi firmemente cumprida em maio do ano passado por dezenas de famílias camponesas, entre elas várias participantes da luta de 1995, que retomaram as terras da fazenda Santa Elina e vêm resistindo, lutando e produzindo. Apesar das investidas de bandos de pistoleiros na tentativa de expulsar as famílias, as mesmas permanecem em uma área daquelas mesmas terras onde se desenrolou a heróica resistência.

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
Agora, mais do que nunca, AND precisa do seu apoio. Assine o nosso Catarse, de acordo com sua possibilidade, e receba em troca recompensas e vantagens exclusivas.

Quero apoiar mensalmente!

Temas relacionados:

Matérias recentes: