A crise da Sociedade das Nações

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A crise da Sociedade das Nações

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O peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930), considerado um dos pensadores marxistas mais profundos e geniais das Américas, ainda é pouco conhecido pelo povo brasileiro. Analista do imperialismo e das classes sociais (pioneiro na definição de seu país como feudal/semifeudal); fundador do Partido Socialista (depois transformado no Partido Comunista do Peru, PCP); e professor nas Universidades Populares dedicadas ao proletariado; criador de revistas (como a respeitada Amauta), no Brasil poucos sabem que, além de teórico, Mariátegui foi um jornalista de abundante produção.

Assim, AND selecionou alguns de seus artigos/crônicas/reportagens e abriu esta Série Mariátegui Jornalista para apresentá-los ao público leitor nacional. Por limitação de espaço, vários dos textos serão resumidos e a Série não terá periodicidade fixa.

Para esta edição escolhemos o artigo/reportagem A crise da Sociedade das Nações, publicado em 1926, no qual o autor demonstra que a então jovem Sociedade ou Liga das Nações já nascia com sintomas de fracasso, devido aos interesses capitalistas dominantes. Ou seja: o texto ajuda a entender porque a ONU de hoje, sua herdeira, caracteriza-  se pela subserviência aos países ricos. Fadada, portanto, a um eterno fiasco.

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Motivado pela última dança incompetente de Genebra (Nota: assembléia lá realizada), agitou-se em todo o mundo o debate sobre a Sociedade das Nações. Desta vez uma boa parte da própria opinião demo-burguesa ficou propensa a concluir que há quebra ou fracasso na ecumênica e universalista concepção de Wilson.

Porém, na realidade, o episódio de Genebra não revelou nada de novo. É um sintoma da crise; não a crise em si mesma. A situação da Liga, antes dessa recente desventura, não era substancialmente melhor.

A verdadeira significação do incidente de Genebra não está naquilo que foi frustrado, mas sim no que foi descoberto, ou melhor, evidenciado. Que o ingresso da Alemanha (Nota: derrotada na 1a. Guerra Mundial, finda poucos anos antes) tenha sido postergado por alguns meses não tem nada de alarmante e dramático. Mas não se pode dizer o mesmo do conflito de interesses e paixões que causaram a postergação.

Esse conflito demonstra incontestavelmente que, de acordo com seus antigos hábitos diplomáticos, os Estados não vão à Liga para cooperar e sim para combaterem-se.

Segundo a doutrina wilsoniana, a Liga das Nações deveria liquidar o sistema de alianças e equilíbrio internacionais produzido pela Grande Guerra (Nota: isso seria benéfico ao capital). Mas, a despeito da Liga, o sistema subsiste.

Anuncia-se uma revisão dos estatutos da Sociedade das Nações. (Na verdade) a emenda (nas regras) começou quase no dia seguinte de sua criação. Mas não como avanço e sim como retrocesso.

(Dizem que) sua salvação parece residir na redução de suas funções, (ou seja) na deformação das suas finalidades.

A Inglaterra declara oficialmente que o Conselho (da Liga) deve estar composto exclusivamente pelas grandes potências. O humor da diplomacia européia se mostra crescentemente adverso a conceder a um distante país da América ou da Ásia, ou a um pequeno país da própria Europa, o direito de intervir em questões acaso decisivas para o destino do Ocidente. (Nota: é interessante perceber, no artigo, a notícia das primeiras maquinações para transformar o Conselho da Liga naquilo que é hoje o Conselho de Segurança da ONU, uma espécie de “igrejinha” de países ricos e/ou imperialistas.)

Se seu Conselho Supremo é convertido em uma conferência de embaixadores das grandes potências, como é o desejo dos conservadores britânicos, o que sobrará da Sociedade das Nações?

(Mesmo) um escritor reacionário, Jacques Bainville, constata com razão que a “participação dos Estados americanos ou asiáticos tende a tornar-se honorária”. Definindo a atual situação da Liga, Bainville observa que “mais ou menos reduzida a uma lista européia, (a Sociedade das Nações) é um mecanismo análogo à corte de Haya, a qual não impede nenhuma guerra.”

Os que falam do “espírito de Locarno” (Nota: tratados assinados no pós-guerra, 1925, dispondo sobre fronteiras das nações vencidas, pactos de não-invasões futuras, etc) estão tendo que aceitar, depois da derrota em Genebra, que a difusão e a influência, no mundo, do espírito de paz e cooperação são muito limitadas.

A Itália é uma das grandes potências que, teoricamente, deviam representar esse espírito. Bem sabemos, no entanto, que não faz outra coisa que sabotá-lo. O fascismo é, por natureza, guerreiro. Seus escritores se burlam vigorosamente das ilusões pacifistas. Mussolini (já) prometeu a seu povo a restauração do Império Romano.

(O papel hoje desempenhado pela Liga é muito modesto) porém nada mais que isso pode aspirar a civilização burguesa. Os serviços de estatística, de informações e de estudos, eis aí a única coisa que existe e funciona efetivamente na Liga. Ela mesma, como tal, não existe e não funciona, a não ser em teoria. Na prática, (a entidade) não é mais do que acabamos de ver na reunião de Genebra.      

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