A luta pela terra no Mato Grosso do Sul

Após anos de trabalho, camponeses são despejados de fazenda e vivem à beira da rodovia
Após anos de trabalho, camponeses são despejados de fazenda e vivem à beira da rodovia

A luta pela terra no Mato Grosso do Sul

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Ocupando ambas as margens da rodovia MS-463, próximo à cidade de Dourados (MS), se encontra o recém-despejado acampamento José Barbosa 3. Os camponeses, organizados pelo Movimento Sem Terra do Brasil (MSTB), ocuparam pela primeira vez as terras da fazenda São Marcos em 2016, passando por diversas lutas contra a Usina São Fernando, proprietária da fazenda, buscando um pedaço de chão para plantar e sobreviver. Após várias reintegrações de posse, hoje os camponeses permanecem às margens da rodovia, passando por dificuldades e privações, longe do sonho da terra para trabalhar, mas não abdicando nem da luta e nem da produção, mesmo que limitada.

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Após anos de trabalho, camponeses são despejados de fazenda e vivem à beira da rodovia
Após anos de trabalho, camponeses são despejados de fazenda e vivem à beira da rodovia

As terras que os camponeses reivindicam são de propriedade da família Bumlai. Essa família possui milhares de hectares no estado e enriqueceu a custas dos enormes montantes de dinheiro passado pelos governos anteriores. J. Bumlai, conhecido como “amigo do Lula”, foi preso durante a Operação “Lava Jato” em 2016, por concessão de empréstimos ilícitos e troca de favores.

No caso, a Usina está em processo de recuperação judicial desde 2013 e tem uma dívida nominal de R$ 1,320 bilhão, sendo 99% com bancos e fornecedores, além de débitos fiscais de R$ 30,342 milhões e dívidas trabalhistas na ordem de R$ 1,693 milhão. Em 2017, tanto a Usina como outras propriedades foram decretadas como massa falida.

Mesmo nessa situação, a terra é negada a quem produz. Segundo os camponeses, desde o começo da luta, foram emitidas cinco reintegrações de posse contra as tentativas dos camponeses de transformar as terras abandonadas em sustento para suas famílias. Dentre elas, a mais truculenta ocorreu em 2017, expedida duas semanas depois dos camponeses entrarem no terreno. Os moradores relatam que a justiça deu um tempo de 24 horas para todos saírem. Porém, muitos moradores, estando longe, não souberam ou não conseguiram chegar a tempo.

A polícia passou por cima das construções com tratores, destruindo tudo. Uma moradora relata que algumas pessoas pediram para pegar pertences nos barracos, o que foi negado pelos policiais: “Muitos moradores perderam tudo”, afirma. Como se não bastasse isso, a polícia passou anotando a placa de todos os carros que estavam na beira a estrada para multá-los, com o único propósito de humilhar mais os camponeses.

Os trabalhadores denunciam que durante essa reintegração os policiais destruíram quase toda a plantação e a Usina proibiu até que eles colhessem aquilo que haviam plantado. Hoje o terreno está abandonado, cheio de mato, onde o próprio “dono” das terras, Bumlai, está impedido de utilizá-las, pois foi preso e suas propriedades estão nas mãos do poder judiciário.

Os camponeses relatam que mesmo com pouco tempo plantando e trabalhando no terreno, eles produziam muita coisa: “Tinha abóbora, milho, feijão, amendoim”, afirma uma moradora. Segundo eles, a terra é muito produtiva. Mas, como aponta um dirigente: “É o latifúndio que domina o poder público. A gente não entende como eles conseguem essas reintegrações de posse com a fazenda bloqueada pela justiça”, afirma.

Mesmo nessa delicada situação judicial, a Usina do corrupto continua funcionando. Em meio ao matagal, ainda podem ser encontrados uns ou outros pés da plantação dispersos, plantado pelos moradores que não puderam colher o fruto de seu trabalho.

Após esse ataque, os camponeses realizaram um protesto em frente a Usina São Fernando, que fica alguns quilômetros do acampamento. Na ocasião, nenhum representante veio atender as reivindicações dos moradores, mesmo após um funcionário quase ferir gravemente uma criança sem terra ao fechar o portão da Usina em cima dela, pegando de raspão. Em reação, os camponeses, em sua justa revolta, foram para cima da empresa. A única resposta dada pelo Estado para a situação foi chamar a Tropa de Choque para expulsá-los.

Contudo, mesmo estando na beira da estrada, os camponeses não abdicam de lutar e produzir. Observando ao redor, nota-se que os camponeses usam cada palmo de terra para tentar produzir o seu alimento, apesar do espaço insuficiente. Como diz um morador: “Eu não perco nada. Se tiver um palmo de terra, se couber uma plantinha, eu planto”.

Ele prossegue: “Levanto 4h da manhã e às 5h eu já estou molhando minha horta, olhando os porcos, as galinhas. Aí nós fazemos outros serviço, nós também trabalhamos para fora. Eu queria um hectare de horta, não esse pedacinho que eu tenho aqui. Porque eu gosto muito de mexer com horta”, explica.

“Você vê que eu tenho uns bezerros, tenho umas galinhas, uns patos. A gente quer criar, sabe, eu e a minha esposa. Aqui a gente vai criar de que jeito? A gente sai pra trabalhar, volta e tem quatro ou cinco patos mortos na BR, quatro ou cinco galinhas mortas na rodovia. Não tem como você criar aqui, né”, lamenta.

“Se eu tivesse, olha, um hectare, um hectare e eu não queria mais, eu não ia trabalhar para ninguém. Ia sobreviver dentro daquela propriedade minha. Eu ia sobreviver bem assim: com a horta, com galinha, com porco. Eu ia sobreviver, com certeza. Por que sou só eu e a minha esposa, não temos  filhos pequenos, estão todos criados. Você vê, ontem eu sai com 60 pés de alfaces e vendi tudo. Eu vendo a R$ 1,50. É barato, mas eu vendi. Aqui não tem cesta básica, não tem ajuda do governo nenhum. Nada, nada, nada do governo. A gente tem que se virar. Minha esposa trabalha, eu trabalho. Quando eu estou desempregado, eu vendo minhas coisinha. Sobreviver, né?”, relata. “Muitos têm a terra e não plantam. Nós só queremos um pedaço para mostrar que nós estamos aqui para  plantar e colher”, afirma um dirigente do movimento.

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