Argentinos lutam pela moradia

Argentinos lutam pela moradia

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Em agosto, milhares de argentinos foram às ruas para reclamar por moradia digna. Os protestos e ocupações de terrenos começaram a multiplicar-se após a violenta repressão comandada pela polícia e pelo Engenho Ledesma, no norte do país, que deixou quatro mortos e trouxe à tona o grave problema habitacional vivido pelo povo.

No dia 28 de julho, cerca de 500 famílias ocuparam uma área de 40 hectares na localidade conhecida como Libertador General San Martín ou Engenho Ledesma, em Jujuy, extremo norte da Argentina. Elas reivindicavam há anos que o engenho cedesse áreas para a construção de moradias populares.

A estimativa é de que o déficit habitacional da cidade seja de duas mil casas. A prefeitura diz que não pode atuar porque praticamente todas as terras do município pertencem ao Engenho que, por sua vez, usa as terras para plantação de cana.

Na madrugada seguinte, por volta das cinco da manhã, sem nenhuma tentativa de negociação ou apresentação de ordem judicial, cerca de 300 policiais fortemente armados e da cavalaria, invadiram a área, lançando gás lacrimogêneo, atirando contra os ocupantes, destruindo e queimando os barracos. Segundo os depoimentos, havia motos e carros do Engenho e os próprios donos participaram da ação, dando ordem aos policiais. Várias mulheres relataram que foram presas e levadas a um local distante, onde a polícia as obrigou a tirar a roupa, além de agredi-las física e psicologicamente.

Ao final da operação, por volta do meio-dia, eram quatro mortos (três ocupantes e um policial) além de 70 feridos e 22 ocupantes presos. O chefe da polícia de Jujuy pediu demissão. A empresa “lamentou” o incidente e afirmou que não participou do despejo. O prefeito também “lamentou”. O governador, além de “lamentar”, lançou um programa chamado “Um lote para cada família”, na tentativa de evitar novas ocupações. Os deputados, após as mortes, desapropriaram o terreno. O povo foi às ruas e às terras.

Às ruas e à terra!

Após a selvajaria promovida pelas forças de repressão, em todo o país se multiplicaram as ocupações de terras e manifestações.

No dia 1 de agosto, em Buenos Aires, militantes de diversos movimentos populares se concentraram em frente à Casa de Jujuy, na capital, e repudiaram a violenta repressão, além de pedir justiça e punição para os assassinos dos trabalhadores. No dia seguinte, o Encontro Memória, Verdade e Justiça (coordenadora de movimentos de direitos humanos) realizou um grande protesto com a participação de cerca de três mil pessoas, também em Buenos Aires.

No dia 6, as ruas de Jujuy foram ocupadas por milhares de pessoas que rechaçaram a lei de desapropriação das terras do Engenho Ledesma – onde ocorreram os assassinatos.

No dia 10 de agosto, 10 mil pessoas, vindas de diversas partes do país, realizaram a maior manifestação dos últimos anos em Jujuy. O ato ocorreu há duas quadras da ocupação e 24 movimentos populares participaram da manifestação, que percorreu a capital, em solidariedade aos ocupantes do Engenho Ledesma.

Além das manifestações, o povo de Jujuy impediu, durante o mês de agosto, o trânsito, em diversas estradas que ligam a província à capital e outros estados, como forma de protesto por moradia digna e contra a criminalização da luta popular. Somente neste mês, foram registradas 134 ocupações na província. O governo afirmou que os ocupantes serão processados por usurpar terrenos privados.

O que é o Engenho Ledesma

A cidade de Libertador General San Martín, a cerca de 100 km da capital Jujuy, é também conhecida como Engenho Ledesma por abrigar um dos maiores engenhos do país. O Engenho ocupa 120 mil hectares, com plantações de cana e laranja. Um aluguel na cidade custa, no mínimo, 1.500 pesos. O salário mínimo argentino é de 1.800 pesos, em média, mas a maioria dos trabalhadores está ilegal e ganha cerca de 1.200 pesos. O Engenho Ledesma foi um conhecido apoiador do regime militar argentino. Em julho de 1976, o Engenho cortou a luz da cidade, auxiliando os militares a sequestrar centenas de pessoas.

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