As estatísticas do oportunismo

https://anovademocracia.com.br/106/03.jpg
https://anovademocracia.com.br/106/03.jpg

As estatísticas do oportunismo

Print Friendly, PDF & Email

http://jornalzo.com.br/and/wp-content/uploads/https://anovademocracia.com.br/106/03.jpg

Certo candidato a vereador, no auge da empolgação em um comício, afirmou: “e tem mais, se eleito for eu revogarei a lei da gravidade”.  Um bêbado, figura obrigatória em todo comício, esbravejou: “arre égua! Como é que um vereador pode revogar uma lei federal?”. A decretação do fim da miséria pela gerente Dilma Rousseff, para nós se assemelha à empolgação do candidato a vereador. Aos que enxergam a realidade , em sã consciência, fica a pergunta: como é que uma gerente de semicolônia pode abolir por decreto uma lei de ferro da exploração do homem pelo homem?

O reducionismo como ante sala da empulhação

Na edição de no. 76 do AND, ao tratarmos deste tema afirmávamos: “Vejamos então onde está a raiz do engodo: se a linha de pobreza for fixada em valores muito baixos, qualquer ‘dez mil réis’ que se colocar sobre estes valores supostamente fará o pobre brasileiro ultrapassar a linha de pobreza e, em cima disso, tome propaganda falaciosa. Veja que a proposta apresentada por técnicos do próprio IPEA e da Fundação Getulio Vargas está abaixo dos valores por eles utilizados em 2010, como vimos acima. Mas, para a demagogia surtir efeito, fixar um valor baixo é fundamental para colocar em prática o plano de tentar iludir o povo. O oportunismo pensa que poderá seguir enganando o povo por todo o tempo.” Ora, não foram “dez mil réis” mas sim “dois reais” o valor acrescentado aos não corrigidos setenta reais para fabricar a eliminação da miséria de dezesseis milhões de brasileiros, segundo a propaganda oficial.

 Apesar de no discurso o gerenciamento petista admitir que a miséria não pode ser medida apenas por um valor estipulado subjetivamente, este  foi o critério utilizado para desencadear uma tremenda campanha midiática, por trás da qual está o lançamento da candidatura de Dilma à reeleição.

A empulhação não convenceu nem mesmo aos membros de sua base aliada, como por exemplo, o senador Cristovam Buarque, do PDT, que em artigo no Jornal Folha de são Paulo, parafraseou Marx no livro A miséria da filosofia, no qual confronta Proudhon, que escreveu “A filosofia da miséria”. O título do artigo de Buarque é “A miséria da superação”, em oposição à “superação da miséria”. Da propaganda oficial.

Sua argumentação põe a nu toda a demagogia de sua aliada e pela forma didática como está exposta a transcreveremos abaixo:

“Primeiro, cabe observar que os 22 milhões de brasileiros que são apresentados como tendo superado a miséria recebem R$ 70 por mês. Isso equivale a R$ 2,34 por dia para uma família de cinco pessoas ou 1,4 pão por dia para cada um dos membros. Não são mais os retirantes que a fome expulsava de suas terras por comida, mas ainda não é possível afirmar que saíram da miséria.

Bastaria uma inflação de 8% ao ano para que, em quatro anos, os atuais R$ 70, sem reajuste, passassem a valer R$ 51,45, o que não compraria nem mesmo um pão por dia para cada membro da família.

Segundo, é grave a ilusão de que a miséria pode ser superada sem se assegurar a estrutura que permita o salto sem volta. Mesmo com a renda do Bolsa Família, os beneficiados permanecerão na mesma situação social. Continuarão sendo cidadãos sem educação, sem esgoto, sem água potável e sem condições de empregabilidade. Isso não é superação.

Terceiro, apesar de mitigar o sofrimento, o programa Bolsa Família não abre a porta de saída da extrema pobreza, não abole a miséria nem provoca um salto social sem retrocesso. Embora o governo não informe, há grande possibilidade de que alguns dos atuais pais beneficiados pelo Bolsa Família tenham sido crianças de famílias com a bolsa.

Cria-se um círculo que nega totalmente o conceito de superação aplicado aos resultados obtidos. Prova disso é que o governo comemora o aumento do número dos que recebem o Bolsa Família. Não comemora, no entanto, a redução do número dos que necessitam da transferência de renda do governo para compensar o que a estrutura social e econômica não faz para superar a miséria de forma sustentável, com mudanças estruturais e escola de qualidade para todas as crianças.

Ao dizer que houve superação da miséria, a presidenta corrompe o dicionário. Cria a ilusão que pode acomodar o espírito de solidariedade transformadora de que o país precisa. Todos sonham com a superação da miséria, não com o conceito de superação empobrecido”.

Note-se que as afirmações acima, que desmontam o fulcro da propaganda demagógica do gerenciamento petista, não são de alguém que esteja fora do círculo do oportunismo, trata-se de um aliado de Dilma Rousseff.

Não há atalho para eliminar a miséria

Somente a tentativa de mistificação das massas pela propaganda política justifica tal campanha do oportunismo. Transforma a ciência da estatística em instrumento de manipulação e rebaixamento da consciência do povo com o fito de se manter à frente do gerenciamento do velho Estado serviçal do imperialismo, ao qual serve com muito gosto.

Como afirmamos no início deste artigo, a miséria é o corolário primeiro da lei de ferro da exploração capitalista, levada ao paroxismo em sua fase imperialista, principalmente em momentos de crise profunda como a que vivenciamos agora em todo o mundo.

A disputa em torno da paternidade do bolsa família, em que estão envolvidos o PT e o PSDB é, na verdade, uma falsa polêmica, haja vista que o pai da criança é o Banco Mundial, um dos pilares do imperialismo para manter e aprofundar a exploração dos povos da grande maioria das nações do mundo que vivem sob o tacão imperialista. Políticas públicas de focalização com a finalidade de amenizar a superexploração de parcelas das massas e por consequência quebrantar seu ímpeto revolucionário. Ademais de servir para campanhas midiáticas, tais políticas são incapazes de retirar, efetivamente, da miséria o imenso contingente da população do campo e da cidade, isto para não falar das populações indígenas entregues à sanha do latifúndio devastador protegido por um Estado genocida.

Para eliminar a miséria e a pobreza

Ao entregar o grosso do resultado do trabalho da nação para os bancos e transnacionais que sugam o sangue e o suor dos brasileiros, ao oportunismo só restam migalhas com as quais nutre a grande burguesia nativa e o latifúndio, ao mesmo tempo em que se locupleta. Para o povo ficam as promessas renovadas a cada episódio da farsa eleitoral e ações de fachada sobre as quais nasce a propaganda mistificadora.

Só uma revolução democrática que exproprie os expropriadores terá força e recursos para acabar com a miséria e a pobreza, tomando medidas imediatas para:

1 Entregar as terras confiscadas a todos os camponeses sem terra ou com pouca terra (incluindo a mobilização das massas expulsas do campo para a cidade para retornar ao campo), juntamente com o apoio financeiro e técnico, libertando as forças produtivas para desenvolver a produção segundo os mais avançados recursos disponíveis, completando a Revolução Agrária. E todo esforço deverá ser orientado para a produção de alimentos e de matérias primas que deem suporte à sistemática industrialização nacional.

2 Colocar em prática um plano de construção de moradias populares na cidade e no campo, tal como agrovilas, dotadas de todas as condições de saneamento, capazes de eliminar todo o déficit habitacional e a condição subumana de moradia.

3 Investir no transporte de massas através de uma extensa malha ferroviária e metroviária, ademais de preservar a rede rodoviária e explorar hidrovias.

4 Colocar todos os recursos necessários para viabilizar para todos o ensino público gratuito, em todos os níveis, assegurando-se todas as condições de infra-estrutura, conteúdo científico voltado à realidade do país e do povo, integrado à prática e à luta pelo progresso geral e da promoção de uma nova cultura nacional, científica e de massas.

5 Reorientar o tratamento de saúde da população no sentido de desenvolver as práticas preventivas ao mesmo tempo em que sejam alocados os recursos necessários para o equipamento e funcionamento de uma eficiente e ampla rede policlínica-hospitalar.

O gerenciamento do oportunismo jamais dará conta destas tarefas, inclusive porque nada que se aproxime da noção mínima de bem-estar e justiça sociais é possível de se realizar sob esse velho e podre Estado brasileiro.

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
Agora, mais do que nunca, AND precisa do seu apoio. Assine o nosso Catarse, de acordo com sua possibilidade, e receba em troca recompensas e vantagens exclusivas.

Quero apoiar mensalmente!

Temas relacionados:

Matérias recentes: