Covid-19 nas favelas expõe a situação de miséria crescente no país

Covid-19 nas favelas expõe a situação de miséria crescente no país

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A pandemia de Covid-19 chega à sua fase mais mortal no Brasil até agora. Em tendência crescente, o vírus já ceifou a vida de 370 mil brasileiros, número este que já estará ultrapassado no instante da publicação desta matéria, visto os dados aterrorizantes de mais de 4 mil óbitos diários.

No Brasil, muitos defenderam uma tese anti científica de que, por ser um país de clima tropical,  o vírus não teria boas condições para se proliferar – dentre os quais destaca-se o presidente fascista Jair Bolsonaro. Os negacionistas ignoram que aqui o vírus encontra condições sociais e econômicas perfeitas para uma rápida proliferação.

Um capitalismo burocrático em crise profunda; uma crise política e econômica gigantesca; a pobreza e a miséria se alastrando como nunca antes em nosso país: são alguns elementos deste macabro cenário. Toda e qualquer enfermidade encontra entre as massas populares as suas maiores vítimas, como no caso da dengue, que ainda atinge principalmente a parte mais pobre da população, privada da mais básica assistência sanitária. É, portanto, nas favelas onde o coronavírus encontra condições sanitárias e alimentares para se expandir.


A fome, em diferentes níveis, atinge praticamente metade da população brasileira, segundo pesquisas – Foto: Douglas Lopes

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) concluiu que algumas das principais variáveis entre os mortos por Covid-19 são: usar o transporte público, ser dona de casa e trabalhar como profissional autônomo. Segundo o estudo, 80% das mortes pela doença estão relacionadas a pessoas que vivem em bairros com maior número de usuários de transporte coletivo e que necessitam fazer longos deslocamentos de casa ao trabalho, ou seja, aqueles mais pobres.

Um dos fatores que contribuem para a propagação da Covid-19 nas favelas é sua configuração habitacional. Com dezenas de pessoas morando em casas com poucos cômodos, com milhares de famílias vivendo em pequenos espaços, casas sem ventilação, com ruas pequenas, vielas e becos, torna-se difícil a prática do distanciamento social. 

Em busca de ter condições de viver, a necessidade pelos mais básicos itens de sobrevivência empurra milhões de moradores a sair para trabalhar, já que o governo não aprovou um auxílio emergencial digno, nem providenciou vacina para imunizar rapidamente e em massa a população.

Na cidade do Rio de Janeiro, a plataforma Painel Unificador Covid-19 nas Favelas atualiza diariamente os números de casos e óbitos por Covid-19 nas favelas do Rio de Janeiro. No dia XXXX revelou que os números ultrapassam os 34 mil casos e chegam a 3 mil óbitos em um ritmo crescente. 

 

Além da contaminação pelo vírus, a fome aumenta

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Data Favela revelou que 68% dos moradores de favelas não tiveram dinheiro para comprar comida em pelo menos um dia nas duas semanas entre os dias 9 e 11 de fevereiro de 2021. Além disso, 82% da população dessas áreas depende atualmente de doações para alimentar suas famílias. O levantamento mostrou também que a média de refeições diárias vem caindo: em agosto do ano passado, a média era de 2,4; em fevereiro foi para 1,9.

A pesquisa revela também que 71% das famílias viram sua renda mensal cair pela metade no período de um ano. No mesmo período, a cesta básica ficou 33% mais cara em todas as capitais, segundo pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

 

Direito à água

Outro problema que atinge as favelas é a falta de saneamento básico. De acordo com a Constituição Federal de 1988, saneamento básico pode ser classificado como: conjunto dos serviços de infraestrutura e instalações operacionais de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, drenagem urbana, manejos de resíduos sólidos e de águas pluviais. No entanto, nas favelas nem o direito mais básico dos citados acima, o direito ao abastecimento de água, é providenciado pelo Estado. Dessa forma, até para se protegerem do coronavírus, fazendo a higienização, os moradores de favelas enfrentam enormes dificuldades. Resultado do abastecimento precário, na maioria das casas em comunidades brasileiras, usa-se mais de uma caixa d’água.

O Censo Maré de 2013 evidenciou que 151 casas do Complexo da Maré não dispunham de abastecimento canalizado de água. Entretanto, apesar de 98,3% das residências terem acesso à água, somente 417 possuíam canalização na parte externa da casa. A situação é ainda mais crítica no Parque Rubens Vaz e no Parque União, onde foram identificados, respectivamente, 4% e 2,2% dos domicílios sem água ou com acesso somente na parte externa. Vale ressaltar que o acesso não significa, por si só, que a água recebida seja de boa qualidade.

Outro problema no que tange ao saneamento e que atinge em grandes proporções as favelas cariocas é a falta da coleta de esgoto. Dados do Painel Saneamento Brasil mostram que, dos quase sete milhões de habitantes que vivem na cidade do Rio de Janeiro, cerca de um milhão ainda não dispõe da coleta de esgoto.

A falta de saneamento básico também se estende à região metropolitana do Rio. Em Duque de Caxias, mais da metade (56,9%) dos 914 mil habitantes não possuem rede coletora de esgoto. 

Em São Gonçalo, a situação é ainda pior. Dois em cada três moradores (66,5%) vivem sem coleta dos resíduos domiciliares, e um em cada cinco (18,7%) não tem água nas torneiras. De todo o esgoto produzido na cidade, somente 10,4% é tratado.

 

SUS atacado pelos sucessivos governos

A população das favelas, em sua maioria pobre, depende dos serviços básicos de saúde, fornecidos  pelo Sistema Único de Saúde (SUS), para tratar as suas enfermidades. No Rio de Janeiro, cidade que há décadas sofre com corrupção, desemprego, descaso e precariedade, no ano de 2019, às vésperas da pandemia explodir no país, diminuíram-se as equipes de Saúde da Família. Os governos reacionários também atrasam os salários dos funcionários vinculados a estes serviços. Tudo isso prejudica imensamente aqueles que têm o SUS como a única forma de acessar o direito à saúde.

Nos últimos anos, seguindo uma política privatista, os sucessivos governos que passaram pelas administrações estadual e municipal sucatearam os serviços públicos de saúde em favorecimento de empresas privadas. É o caso das Organizações Sociais de Saúde (OSS), que, operando por meio de parceria público-privada, ganharam o lugar da Empresa Pública de Saúde do Rio Saúde.

Vale lembrar que em todo país, após a aprovação da PEC 95/2017 pelo Congresso Nacional, os gastos públicos em saúde e educação foram congelados por 20 anos, medida que prejudicou enormemente o combate à pandemia no país, deixando profissionais de saúde e pacientes em condições de precariedade nos hospitais.

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