Crescimento de conflitos agrários anuncia a guerra pela terra

No ano passado e neste início de 2024 recrudescem a luta de classes no campo, que já há muito retomou a forma de uma guerra pela terra que sempre marcou a história do País.

Crescimento de conflitos agrários anuncia a guerra pela terra

No ano passado e neste início de 2024 recrudescem a luta de classes no campo, que já há muito retomou a forma de uma guerra pela terra que sempre marcou a história do País.
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No ano passado e neste início de 2024 recrudescem a luta de classes no campo, que já há muito retomou a forma de uma guerra pela terra que sempre marcou a história do País. Em 2023, enquanto o governo federal pretendia convencer a todos que se reinaugurava um período de sonhos e de democracia, os conflitos armados por terra (973 casos) aumentaram em 8%, apenas no primeiro semestre, em relação ao mesmo período do último ano do governo Bolsonaro. Este dado, um paradoxo com o discurso de uma falsa esquerda oportunista inveterada, condensa a essência da situação política atual.

Os casos só se tornam mais agudos e frequentes em 2024. Em janeiro, num caso de flagrante coordenação armada, mais de 100 latifundiários invadiram a terra retomada pelo povo Pataxó e executaram a “Nega Pataxó”, em Potiraguá, no Sul da Bahia. Não obstante, o bando latifundiário não foi só: antes, a Polícia Militar (PM) do governador Jerônimo Rodrigues (PT) havia ido à área “averiguar a existência de armas” com os indígenas. Há grandes operações em Rondônia, execução de quatro indígenas Guarani no Paraná; execução de Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul; luta camponesa contra a mineradora Vale no Pará, para ficar só nesses casos. Tudo se explica por um simples fato: para os senhores de terras, ou se instala um terror latifundiário no campo, ou a massa camponesa – encorajada pelas promessas vazias do governo – se levantará aos milhões em novas tomadas de terras.

Sim, promessas vazias. Afinal, se o governo tivesse mesmo intenção – ainda que só intenção – de dar um suspiro à “reforma agrária” desde sempre falida, começaria pelo mínimo: fornecer verba para o Incra, responsável por adquirir terras para este fim. Todavia, aqui, Luiz Inácio dá prova de amarga traição ao campesinato: R$ 2,89 bilhões é o total destinado para 2024, praticamente a mesma quantia de 2023, que por sua vez, é o mesmo valor que Bolsonaro destinara em 2022. Já na isenção fiscal para exportação de soja, Plano Safra e outros projetos, o dinheiro público destinado ao agronegócio é muito superior a Bolsonaro, e ultrapassa a casa de centenas de bilhões! A equivalência entre Bolsonaro e Luiz Inácio, no abandono da reivindicação camponesa e na abjeta relação de cãozinho do latifúndio, é mais um paradoxo entre o que se diz e o que se pratica no governo oportunista. 

O latifúndio avança com o silêncio cúmplice do governo, mas este é um lado da situação. Por sua parte, o campesinato pobre eleva sua mobilização e nível de organização. No Norte Amazônico, do Oriente ao Ocidente; na caatinga do Nordeste e Norte de Minas; nos vales e planícies do Sul, as massas camponesas sacodem as estruturas fundiárias ao levantar a bandeira da luta pela terra, que neste momento, para se sustentar ante o terror latifundiário, transita para ser a bandeira da guerra camponesa pela posse da terra. Não são poucas as organizações camponesas que levantam, em resposta às agressões latifundiárias, a necessidade de estruturar grupos de autodefesa armada. A Liga dos Camponeses Pobres (LCP) fez este chamado há alguns meses. 

Esse é o traço particular da história do País: de tempos em tempos, a luta camponesa represada por conquistar e assegurar a democratização da propriedade fundiária, atravessada pelo terror latifundiário, se converte em luta revolucionária pela realização da verdadeira democracia. Apesar dos massacres e genocídios, que afogaram em ferro e sangue as várias tentativas de democratizar o País, a bandeira da guerra camponesa sempre reaparece.

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