EDITORIAL – Brasil: um país ingovernável

EDITORIAL – Brasil: um país ingovernável

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A última eleição foi marcada por uma desmoralização e falta de legitimidade como jamais antes se viu. Nunca esteve tão claro o abismo que separa os ditos “representantes do povo”, que ostentam todo tipo de imunidades e benesses, dos milhões de trabalhadores e trabalhadoras que, apartados de qualquer decisão política, são chamados às urnas, de dois em dois anos, para referendar uma “democracia” que não lhes dá nada em troca.

Por isso, o número de votos depositados no candidato vencedor, Luiz Inácio (PT), é apenas ligeiramente superior ao número de eleitores que não compareceram ou votaram nulo ou em branco. Enquanto aquele recebeu cerca de 60 milhões de votos, estes representaram 49,64 milhões de pessoas, isto é, mais de um terço dos aptos a votar. Há que se considerar, ainda, que boa parte dos eleitores de Lula queriam, na verdade, afastar Bolsonaro (PL); o mesmo vale para o candidato derrotado, cuja base eleitoral é composta por uma maioria de votos “antipetistas”. Os bandidos de extrema-direita que andam pelas ruas pregando golpe de Estado e fazendo saudações nazistas não passam de uma ruidosa (e ruinosa) minoria, que deve ser combatida com a máxima energia pelos movimentos populares. As agressões perpetradas por esta súcia devem ser respondidas sempre e em toda parte na mesma medida. Nenhuma concessão, nenhuma polegada de terreno cedida, nenhuma piedade dos galinhas verdes! Todavia, seria um engano e erro político grave supor que a maioria dos eleitores de Bolsonaro – entre os quais se inclui uma vasta camada de trabalhadores pobres e pequenos proprietários arruinados, desiludidos com a corrupção e inépcia do sistema político vigente – é composta por celerados fascistas.

O fato é que das urnas nasceu um governo fraco, obrigado a “negociar” para ser reconhecido, “negociar” para tomar posse, “negociar” para governar e “negociar” para não ser derrubado, seja por impeachment, seja por um golpe militar. Durante anos, Bolsonaro chantageou a opinião pública com a ameaça de golpe. Agora, Luiz Inácio chantageará com a necessidade de ter “governabilidade”, isto é, ceder todos os interesses do povo e as promessas feitas durante a campanha para os piratas do “centrão” no Congresso, para “políticos sensatos”, pastores, oligarcas, donos de emissoras, latifundiários, banqueiros, lobistas e tantos quantos carreiristas, que só não são mais hábeis em criar justificativas para mudar de lado do que para assaltar o erário. Quanto aos milhares e milhares de militares que se aboletam em altos postos da administração pública nos últimos anos – estima-se em mais de cinco mil os que desempenharam funções civis no atual governo –, alguém tem dúvida de que eles baterão o pé e farão de tudo para manter a boquinha, em troca de (supostamente) deixar o governo em paz?

Uma coisa é certa: nessas negociações entre seus inimigos, nenhum direito do povo será assegurado. A luta de massas, em cada fábrica, escola, nos bairros, nas universidades, no imenso campo, é o único caminho para não permitir que ainda mais “reformas” escorchantes sejam jogadas sobre as costas do povo. A trabalhista, por exemplo, que Lula no começo da campanha acenou revogar, agora é tratada como página virada; da “reforma agrária” nem se fala.

No entanto, todos os jornalões da burguesia (com os seus analistas bem pagos para fazer previsões tão realistas quanto de uma cartomante) e os politiqueiros profissionais erram porque, nos seus cálculos, não contam com o povo. Não é nos salões de Brasília, nem nas barras dos tribunais, nem nos comandos militares, onde se decidirá o futuro do Brasil. Comprimidas pela brutalidade policial e a piora das suas condições de vida, de um lado, e gradativamente descontentes com as promessas que o governo eleito não poderá entregar, de outro, as massas do campo e da cidade lutarão aos milhões, com cada vez maior energia e consciência. Elas farão com que as suas reivindicações e anseios entrem na pauta, não do governo, mas do País. Dentre elas, está incluído o repúdio ao golpe militar em marcha, que não cessará com o fim do desgoverno de Bolsonaro e, pelo contrário, de provocação em provocação, avança. Como a história demonstra, é a revolução do povo, e não as instituições carcomidas da burguesia e do latifúndio, o seu único antídoto.

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