Editorial – Cativeiro, rebelião operária e fascismo

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Editorial – Cativeiro, rebelião operária e fascismo

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A situação dos trabalhadores nas obras do PAC e da Copa do Mundo, principalmente nos grandes canteiros das usinas de Jirau, Santo Antônio e Belo Monte, não podia ser pior. As constantes revoltas operárias têm derrubado o mito do progresso e do crescimento do país e exposto as condições degradantes de trabalho nas obras. E tem ainda posto à prova a organização dos trabalhadores, que tendo seus mais elementares direitos desrespeitados, não podem contar com o mais mínimo apoio de seus sindicatos, comprometidos como se acham com as empreiteiras e com a gerência petista.

Mas essa realidade é mais sinistra ainda. Nestas obras foram acantonados dezenas de milhares de operários trazidos de todas as partes e nelas está em vigência um sistema de cativeiro, onde toda sorte de abusos é praticada descaradamente. Os operários e demais funcionários são treinados para chamar a si próprios e a seus companheiros de “colaboradores”, enquanto as mais flagrantes situações de humilhação, de privação da liberdade e de intimidação e ameaças de capatazes e policiais são práticas corriqueiras. À inevitável e justa revolta dos trabalhadores frente a tão protervo e esbulhador regime de cativeiro, não poderia ser outra a resposta que a repressão dos capitães-do-mato contra a turba e o tronco e o chicote da Casa Grande contra os cabeças. E ato seguinte, pelos meios de comunicação monopolistas o mais rançoso, rampeiro e covarde linchamento moral dos bravios e honrados operários da construção. Não?

Onze operários se encontram encarcerados no hediondo presídio Urso Branco (anexo “Pandinha”), em Porto Velho, Rondônia, após a greve de março e o incêndio dos alojamentos, imputado sem prova alguma ao grupo de trabalhadores, que com a mesma razão da imensa maioria dos grevistas, indignou-se com a venda da greve pelos pelegos da CUT e do Sindicato dos trabalhadores na Construção Civil de Rondônia (Sticcero). Mas é muito mais grave, há denúncias de que foram sequestrados e mantidos em cárcere privado no interior do canteiro de obras da usina por dois dias, incomunicáveis e sem receber nenhum tipo de alimentação. Neste caso, o Sticcero ajudou não só a acusar os operários, como apontou para a polícia as lideranças, que seriam “vândalos e criminosos” por não aceitarem sua torpe atuação na greve.

Após a greve, sobreveio também uma onda de demissões em massa – tipificadas por justa causa – com mais de mil trabalhadores indo parar no olho da rua. Eles irão muito provavelmente alimentar a cadeia de subcontratações em outras obras, caindo nas garras de “gatos” e outros esquemas mafiosos de agenciamento de força de trabalho. Um possível atraso nas obras também não seria tão ruim para a Camargo Correia e GDF-Suez, já que para concluir no prazo podem contar com infinitos aditivos contratuais que lhes trarão outros bilhões em financiamento. No caso de Jirau, o orçamento já subiu de R$ 8,9 bilhões para mais de R$ 15 bilhões. E assim seguem em movimento essas máquinas de moer gente em que se tornaram as grandes obras alardeadas por Luiz Inácio e Dilma.

Péssima também é a situação dos trabalhadores da WPG, empresa terceirizada em Jirau, que os abandonou à própria sorte, sem ao menos dar baixa em suas carteiras de trabalho. Como se fosse o sindicato patronal, o Sticcero defendeu a WPG, propondo o pagamento apenas dos dias trabalhados, e não até o dia da demissão com baixa na carteira, o mínimo que protegeria os operários, que são de outros estados e têm famílias para sustentar. Ademais, o sindicato cortou o pagamento do hotel onde os trabalhadores estavam hospedados, deixando os cerca de 60 trabalhadores praticamente ao relento nas ruas de Porto Velho.

Mas essa vilania do Sticcero não é uma particularidade dele, senão que emana do próprio oportunismo na gerência do Estado, que usa a cúpula do sindicalismo de Estado da CUT como correia de transmissão no atropelo dos mais elementares direitos dos trabalhadores.

As figuras de proa da gerência FMI/PT, como o Sr. Gilberto Carvalho, se esmeram para garantir às empreiteiras e demais monopólios os lucros prometidos, bem como para assegurar as doações de campanha para seus candidatos neste ano de farsa eleitoral e as prebendas outras do ofício. Para tanto, não titubeiam em atropelar quaisquer direitos trabalhistas e em tratar as greves e protestos operários como questão de polícia. No caso de Jirau, a Força Nacional de Segurança e outras polícias e serviços de informação estão protegendo as obras e reprimindo os trabalhadores ostensivamente.

Em Belo Monte a situação não é melhor. As greves se sucedem e o mesmo método policial é utilizado pelo governo para reprimir os trabalhadores. Em todos os casos, entretanto, as direções pelegas dos diferentes sindicatos pretendem descaracterizar a mobilização operária como sendo provocada por agentes externos, como jornalistas, organizações classistas, etc.

Isto porque, dizem, as obras são “estratégicas”. São estratégicas para a contra-propaganda do oportunismo na gerência do velho Estado, que a todo momento reverbera a “criação de empregos” e “distribuição de renda” de seus projetos anti-operários. Este sim é o modelo de “desenvolvimento” e “crescimento” que PT, PCdoB, PSB, PMDB e outros conhecem e se gabam de ser promotores.

Além disso, a gerência Dilma trata de reunir permanentemente em seus “gabinetes de crise”, representantes das centrais e sindicatos governistas, das empreiteiras, do judiciário, etc. Só não se prestam a atender às demandas dos trabalhadores que têm que trabalhar a milhares de quilômetros de suas famílias, com péssimos salários, alojamento, alimentação, plano de saúde, etc. Some-se os constantes “acidentes” de trabalho e até mesmo assassinatos de operários pela polícia.

Para a atual gerência do velho Estado semifeudal e semicolonial brasileiro trata-se de assegurar que as obras não parem, nem que para isso tenha-se que apontar fuzis para as cabeças dos operários; de garantir o lucro máximo para as empreiteiras e monopólios nacionais/transnacionais; de atropelar qualquer tipo de direito trabalhista ou das populações indígenas e ribeirinhas vizinhas a esses projetos. Tudo isso azeitado com fartos recursos do BNDES, que é quem financia essa bandalheira toda para o lucro de construtoras e transnacionais da área de energia, que vão operar o sistema.

Qualquer semelhança com o fascismo não é mera coincidência! Mas nem mesmo o fascismo sofisticado pode impedir a luta contra a exploração e opressão, senão que empurra as massas para o combate.

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