Editorial – Crimes por atacado

Editorial – Crimes por atacado

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Sem o menor pudor, R$270 milhões, apenas o valor confessado, foram gastos no blefe do referendo sobre armas.

Na ofensiva do “desarmamento”, a pergunta “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido?” era omitida, e quando aparecia tinha seu sentido imediatamente desviado.

Não houve qualquer pretensão de revogar o Estatuto do Desarmamento — Lei 10.826, de dezembro de 2003, aprovado e sancionado pelo próprio Luiz Inácio, com penas severas para porte e venda ilegal de armas, votado a aprovado sem consulta ao povo — que privilegia as classes dominantes e toda a burocracia que os acompanha.

Portanto, o brasileiro estava, e continua, proibido de portar arma, inclusive em casa, para defender a si e à sua família.

Quanto aos fabricantes e grandes comerciantes de armas, esses obviamente não corriam risco algum. Pelo sim e pelo não, o seu mercado atacadista jamais seria prejudicado.

II

O referendo é uma escolha, tem caráter plebiscitário, para aprovação ou rejeição entre o povo sobre uma medida específica, constitucional ou legislativa de considerável peso político.

A princípio, este seria um referendo inócuo (há mais onze desses na fila), porque coisas como a extinção do latifúndio e a distribuição de terras aos que não as possuem mas nelas trabalham; ou a expropriação do patrimônio do imperialismo e das classes nativas a ele associadas; o não pagamento da dívida externa; a suspensão da remessa de lucros etc., etc., jamais foram ou serão cogitadas pelas gerências anti-povo que se sucederam — desde o 1º de abril de 1964 até hoje.

Aliás, para isso é que foi dado o golpe contra-revolucionário, semifeudal e imperialista. Ou não foi?

Mas o referendo — na temporada do sufrágio dicotômico (do tipo sim ou não), aquilo que os cínicos vêm chamando de “demonstração de democracia direta” —, na verdade teve como objetivo fortalecer ainda mais a propaganda fascista.

Mobilizaram artistas, vigaristas políticos metidos a teóricos, gente simples e jovens sinceros. E qual era a grande mensagem senão que a de conferir, através do SIM, o direito do Estado matar o que ele chama de bandidos? O NÃO servia para ampliar o monopólio da matança entre o Estado e os bandos fascistas “civis”.

Afinal, senhores, quem mantém o país em ruínas? Quem produz a miséria e, ainda, induz parte da gente miserável ao crime?

Quem faz desabar sobre o povo, dia e noite, a propaganda da guerra de agressão, do extermínio, do ódio e do fanatismo religioso?

Como podem pensar que enganam o povo?

III

Contra o direito do povo se defender (paga-se aproximadamente R$1.300, apenas para registro e porte de arma, afora toneladas de aborrecimentos) foram alegados o risco do infanticídio, do uxoricídio, do parricídio, do fraticídio, do suicídio (e um desfilar de cifras e projeções para casos registrados, previstos, imaginados), menos o do genocídio e das chacinas constatadas.

Armas (inclusive de guerra) são fornecidas até mesmo à polícia investigatória (civil), bastando para isso criar um grupo especial qualquer e insistir na alegação de que “os bandidos têm armamento superior, em quantidade e sofisticação, ao da polícia.”

Hoje, há uma força privada (“agentes de segurança”) cujo efetivo em todo o país é de aproximadamente 1,5 milhão — superior a qualquer exército no mundo em tempo de paz.

Em absoluto, não ganhou a melhor escolha. Ambas não valiam nada. O povo é que fez o melhor, porque ele tem o poder de tudo transformar. Repudiou a hipocrisia. Disse não ao Estado podre e ao sistema de governo, como a tudo que os acompanha.

A história demonstra que a luta contra o banditismo, conduzida pelo povo nos momentos em que ele faz valer um pouco de sua autoridade e democracia, sempre saiu vitoriosa. Ao contrário, uma polícia extremamente corrupta — assim qualificada pela própria imprensa deles — com as suas equipes de aniquilamento, estimulam o banditismo e a matança.

No duro, os de cima já não falam mais de paz e de justiça, mas de coleta de impostos, rapina, repressão. E só existe pacifismo para desarmar o povo. Na prática o pacifismo imperialista (com os seus colaboradores internos) tudo quer resolver pela força das armas.

Essas são duas formas de ver a paz.

A propósito. Após uma nova matança nos morros do Rio de Janeiro, a polícia declarou que “continuará buscando bandidos onde houver”, uma semana antes de Bush chegar ao Brasil sob um forte aparato de segurança. Mas nem os seus asseclas brasileiros, que estavam à mão para recepcionar esse que é, hoje, o maior criminoso da humanidade, foram sequer molestados. Jamais serão.

Porque eles cometem crimes por atacado.

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