Eleições no Peru: O neoliberalismo definha, mas alça voo entre burocratas

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Eleições no Peru: O neoliberalismo definha, mas alça voo entre burocratas

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O Peru é um país de contrastes, de diferenças extremas: desde já, o fato de que cinco clãs familiares peruanos1 detenham fortunas consideradas entre as 50 maiores da América Latina, enquanto há no país 34,8 % de pessoas que se debatem entre a pobreza e a pobreza extrema2 é um  sintoma evidente de que nesse país existem margens estreitas de plena coincidência.

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Uma das coisas nas quais os peruanos podem coincidir é que o segundo turno das eleições será disputado entre dois candidatos que carregam atrás de si toda uma gama de imagens escabrosas e traumáticas que sintetizam duas velhas conhecidas e nauseabundas formas de administrar o país durante o século XX; de um lado Keiko Fujimori e do outro Ollanta Humala.

De fato, Mario Vargas Llosa, o mais midiático de todos os novelistas peruanos, que encarna os pensamentos mais reacionários da direita no país, ao tentar expressar em poucas palavras o dilema que representa optar por Keiko Fujimori ou Ollanta Humala no segundo turno de 5 de junho, assinalou que o Peru devia escolher “entre a aids e o câncer”3 , ambas enfermidades degenerativas, devastadoras da saúde humana e, em geral, irreversíveis.

A metáfora serve para uma descrição da dinâmica da política criolla do Peru atual, prenhe de degeneração política, da vileza a que podem levar as políticas de saqueio e venda do país, aparelhada de profundos processos de desideologização e clientelismo, de uma sobrealimentação cotidiana de cultura do lixo através de jornais que abusam da gíria, da fofoca e das aventuras amorosas dos jogadores de futebol, que ninguém sabe em que momento e porque se converteram em assuntos de interesse nacional.

Apesar do acerto de Vargas Llosa nesta frase, cunhada com exatidão, poucos dias depois ele preferiu morder a língua e agora expressa seu apoio a Ollanta Humala4 , uma vez que se resignou à derrota dos três candidatos de sua preferência  (Kuczinsky, Toledo e Castañeda Lossio) que perderam toda oportunidade de passar ao segundo turno. Como era de se supor, seu filho, o também ultraliberal Álvaro Vargas Llosa se alistou na campanha a favor de Humala5 .

Mas nem todos os liberais criollos da fauna existente na política domesticada peruana apoiam o ex-militar, responsável por violações dos direitos do povo no Alto Huallaga, assassinatos e torturas, onde operou com o pseudônimo de “Capitão Carlos”.

Em seu atual staff de colaboradores para o segundo turno ele colocou personagens amplamente vinculados com o manejo neoliberal do Estado peruano, quiçá como tática eleitoral sugerida por seus acessores ativamente vinculados ao PT do Brasil6 , entre os quais se destaca a presença de Luis Favre (cujo verdadeiro nome é Felipe Belisario Wermus), franco-argentino, ex-segundo marido da senadora, ex-prefeita de São Paulo e que foi Secretária de Relações Internacionais do PT desde 1986, Marta Suplicy, assim como Valdemir Garreta, conhecido militante do PT do Brasil.

Também há os que apoiam o retorno do fujimorismo e se põem na fila do séquito imperial de Keiko Fujimori, como é o caso de Hernando de Soto, economista e consultor mundial, conhecido por seus estudos nos quais apresenta fórmulas para que as casas informais de todas as favelas do planeta deixem de ser marginais às dinâmicas especulativas do capital7 , como estão marginalizadas na atualidade pela persistência de lógicas coloniais. Ele agora se encontra cerrando fileiras com Keiko Fujimori. Hernando de Soto, una pessoa para quem a economia é tudo, é capaz de redimir os fujimoristas – se estivesse em suas mãos – de todos seus assassinatos, torturas e latrocínio de mais de 6 bilhões de dólares do Estado peruano.

O que temem os neoliberais que tomam partido por um ou outro lado? Tratam de se inserir nas cada vez maiores brechas deixadas pelos dois grupos e tentam influenciar ao máximo para que se mantenha as políticas privatizadoras e assim evitar uma passagem abrupta ao clientelismo através do crescimento desmedido do Estado, pois sabem que a bancarrota já bate a suas portas. Por um lado, Keiko está caracterizada por seu perfil corporativo, seus vínculos com o narcotráfico e seu passado de hipercorrupção; por outro, Humala é tipificado por ter uma proposta mais evidentemente burocratizadora e estatizante. Uma semelhança entre os dois candidatos é que eles têm chegado aos setores populares através de uma complexa rede de clientelismos montada a partir dos restaurantes populares dos bairros mais miseráveis de Lima e dos demais departamentos (estados), seja através de instituições de desenvolvimento ou de certas aderências da década do Fujimorato (no caso de Keiko Fujimori)8 .

Definitivamente, o grande derrotado das eleições de 10 de abril foi o modelo neoliberal radical, aplicado por Alejandro Toledo e Alan García, que foi representado por Pedro Pablo Kuczinsky, Toledo e Castañeda Lossio, nessa ordem. Mesmo assim, as “alternativas” que quedan são: de um lado um neoliberalismo matizado com múltiplas ações populistas no caso de Keiko Fujimori9 , e de outro, Humala, que representa o crescimento da burocracia, ainda que agora jure que se entrar no governo não mudará o atual modelo neoliberal de maneira substancial, que só aplicará uma série de políticas sociais que demandarão maior participação da burocracia estatal10 .

Tudo indica que acabou a hegemonia da burguesia compradora peruana. Voltam os burocratas, os neoestatistas, ainda que dessa vez, assim como com Luiz Inácio no Brasil – vem os burocratas mais moderados, reciclados com discursos herdados do neoliberalismos, tais como a proclamação cínica de um capitalismo com rosto humano, envernizado com alegorias à modernidade e eficiência, o que demonstra que o neoliberalismo definha, mas agora alça voo entre burocratas. De fato, a presença de Favre e Garreta serve para assegurar que Humala não se desviará do neoliberalismo, assim como Hernando de Soto faz o mesmo com Keiko Fujimori.

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1     rankings.americaeconomia.com/2011/millonarios/ranking-millonarios-completo.php

2     www.inei.gob.pe/web/NotaPrensa/Attach/10685.pdf

3     www.youtube.com/watch?v=B2L8iJH8jxA

4     www.elpais.com/articulo/opinion/Retorno/dictadura/elpepiopi/20110424elpepiopi_12/Tes

5     www.larepublica.pe/01-05-2011/alvaro-vargas-llosa-y-sus-19-razones-para-votar-por-humala

6     www.rpp.com.pe/2011-04-05-conozca-a-luis-favre-el-asesor-de-ollanta-humala-noticia_352297.html

7     Essa é uma das conclusões a que chegamos ao ler sua obra O mistério do capital: por que o capitalismo triunfa no ocidente e fracassa no resto do mundo. Lima: El Comercio, 2000.

8     O estabelecimento de redes clientelares é uma das formas mais recorrentes das políticas populistas na América Latina. Veja-se, por exemplo, para o caso argentino, o texto de Javier Auyero “Política, dominação e desigualdade na Argentina contemporânea. Um ensaio etnográfico”. Revista Nueva Sociedad. Nº 193. pp. 133-145, setembro-outubro, 2004. http://www.nuso.org/upload/articulos/3223_1.pdf

9     www.fuerza2011.com/plan-de-gobierno/

10   www.partidonacionalistaperuano.net/images/archivos/plan_de_gobierno_pnp_2006_2011.pdf

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