Hegemonismo e oportunismo na cisão da ILPS

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Hegemonismo e oportunismo na cisão da ILPS

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Combativa demonstração durante a Resistanbul em 2004

Da necessidade de unir forças anti-imperialistas em diferentes países, demarcando campo com o reformismo e todo oportunismo, em maio de 2001 foi fundada a Liga Internacional da Luta dos Povos (ILPS – sigla em inglês). O Brasil se fez representar por entidades como a Liga Operária e o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo). Nos anos seguintes se incorporaram outras como a Liga de Camponeses Pobres, o Movimento Feminino Popular e o Movimento Estudantil Popular Revolucionário. Em junho 2011, na ocasião de seu décimo aniversário, a data foi marcada pela cisão com o oportunismo. Em novembro de 2009 durante a reunião do Comitê Coordenador Internacional (ICC), a mais alta instância de decisão entre as assembleias internacionais, o prof. José Maria Sison, presidente do ICC, de forma sumária e intempestiva, dissolveu o Grupo de Coordenação Internacional (ICG), substituindo os membros democraticamente eleitos por associados seus. Para que melhor se compreenda esses graves fatos, é necessária uma retrospectiva destes 10 anos.

É perfeitamente natural que existam diferenças políticas e ideológicas entre movimentos populares de diversos países, e os fundadores da ILPS tinham consciência disso.

A ILPS foi criada pelo esforço de inúmeras organizações de massas e entidades populares de diversos setores, frente à necessidade urgente de se unificar e intensificar as lutas contra o imperialismo e toda a reação. Foram criados mecanismos que possibilitassem o diálogo e o entendimento, para facilitar a colaboração, bem como abordar as diferenças, na busca de unidade.

Hoje o professor Jose Maria Sison acusa de sectárias diversas organizações fundadoras da ILPS e responsáveis por importantes feitos sob sua bandeira, como a Resistência Tessalônica (Grécia) em 2003, a Resistência Mumbai em 2004 (Índia) e a Resistambul (Turquia), também em 2004.

Na verdade, a linha sectária e hegemonista do professor Sison se fazia sentir desde o início, mas o diálogo prevaleceu entre a I Assembleia Internacional (maio de 2001) e a II Assembleia Internacional (novembro de 2004). Na II Assembleia uma linha direitista e sectária tentou impor suas concepções de apoio à China (um Estado capitalista e imperialista emergente) e a outros reacionários. Apesar dessa linha ter sido derrotada na Assembleia, ela continuou a persistir. E foi nessa Assembleia que Jose Maria Sison foi eleito para a presidência do ICC.

Entre a II e a III Assembleia o diálogo e a discussão continuaram a existir e vários projetos foram desenvolvidos. Cada vez mais haviam referências ao presidente do ICC como “porta-voz chefe” da ILPS, como reconhece o estatuto. No entanto, seus associados cada vez mais interpretaram isso como “porta-voz único”, desmobilizando outras iniciativas. O professor Sison foi impondo seu método de liderança e começando a fazer declarações e diretivas sem consultas a outros membros eleitos do ICC, que representam diversas organizações filiadas a ILPS, cujos conteúdos violavam os princípios classistas e de frente política de caráter democrático-popular.

O golpe hegemonista

Essa sucessão de atitudes culminou em novembro de 2009, quando alegou que problemas durante um evento da Aliança Internacional de Migrantes e Refugiados (IMAR), em Atenas*, teriam gerado uma “desconfiança” contra sua gestão. A atitude do professor Sison frente a essa pretensa desconfiança não foi a de um democrata consequente, que consistiria em apurar os fatos e debater o assunto e se necessário se licenciar do cargo até que tudo fosse resolvido. Ao contrário, servindo-se de maquinações, procedeu à dissolução do Grupo de Coordenação Internacional (ICG), democraticamente eleito. Tal atitude, tão típica dos meios burgueses e pequeno-burgueses, apesar de não representar novidade nas práticas do movimento de luta dos povos, surpreendeu pela baixeza dos métodos a que se chegou.

Senão vejamos. Numa reunião posterior, convocada a pedido do vice-presidente para discutir mobilizações na Índia, o comportamento do presidente foi típico de um dirigente de alguma entidade estudantil pelega. Conseguiu procurações de membros do ICC que não poderiam estar na reunião e os substituiu por associados seus, leu rapidamente seu relatório e votou a exclusão de membros do ICG, cuja maioria estava presente, sem dar-lhes chance de defesa ou mesmo de debater o assunto. Na sequência imediata “elegeu” novos membros para o ICG. Sison se recusou a ouvir e debater os protestos de vários membros eleitos do ICC na reunião. Posteriormente, emitiu declaração em 23 de novembro, em nome do ICC, que havia liquidado, fingindo estar tudo bem e seguindo no aprofundamento da prática de fazer declarações segundo seus interesses ou da organização que representa na ILPS. Tais declarações não mais representam o ICC eleito na III Assembleia, realizada em Hong Kong (julho 2008), mas apenas os associados de Jose Maria Sison. Sison passou então a afirmar que a reunião teria liquidado uma tendência sectária e ultra-esquerdista. Para ele, sectarismo é ter a ousadia de discordar e querer debater suas posições errôneas, enquanto recusar-se ao diálogo e golpear instâncias democraticamente eleitas são consideradas atitudes naturais.

Persistindo em sua linha hegemonista, o grupo de Sison não mais respondeu às tentativas de comunicação feitas por diversas organizações membro, bem como se apressou a consumar o golpe cisionista. Passou a organizar um encontro em Manila, em julho deste ano, o qual chamou de IV Assembleia Internacional e em cujas resoluções encontra-se todo tipo de veneno destilado contra organizações fundadoras da ILPS e membros do ICC eleitos pela III Assembleia e destituídos por ele.

O perigoso caminho por onde enveredou Sison

É pois, de se causar repulsa a tacanhêz de se servir de mentiras e intrigas, da chantagem e da desqualificação dos divergentes. Até então, mesmo com divergências importantes sobre questões de monta no seu interior e apesar de exorbitâncias por parte da presidência de Sison, a prática na ILPS era a de uma entidade democrática, que se pautava pelo debate fraterno para a tomada de decisões. O fato do professor Sison ter por muitos anos liderado a luta revolucionária e anti-imperialista em seu país não o faculta condição imperial, ao contrário, deveria ser exemplar em presidir sob os princípios e critérios proletários.

O que está se vendo no cenário internacional, no aprofundar da crise do imperialismo e novo despertar dos povos, mais que nunca é o manejo de seus corifeus em emular a concertação e a capitulação no campo popular. Após assistirmos os lamentáveis episódios da capitulação dos anos de 1980 e 1990 na América Latina, principalmente, e agora como está se dando no Nepal, só mais razão dá aos povos em luta em rechaçar a contemporização e conciliação com agentes do inimigo. Assim, os ataques sobre provadas organizações populares para desqualificá-las como sectárias e ultra-esquerdistas não é mais que cortina de fumaça para encobrir estes objetivos e práticas conciliatórias.

Acusar, como faz Sison, que sectários optaram “por não identificar as forças positivas que se podem ganhar e mobilizar numa frente ampla contra o imperialismo ou aproveitar-se das contradições no campo inimigo” (referindo-se aos caciques e populistas que ora gerenciam os Estados nos países sul-americanos e às disputas que crescem entre os imperialistas), são frases lançadas ao vento de quem se aventura pela podre linha de “cambiar de amo”. Um grande mestre da luta dos povos vaticinou que pretender combater o imperialismo e a reação de forma separada do combate ao oportunismo não passa de fraseologia oca. Mais, outro gigante enfatizou que para a luta de libertação dos povos o perigo principal seguia sendo o revisionismo.

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Nota
* O professor Sison mandou um vídeo com um pronunciamento seu com linha diferente da acordada anteriormente e um representante grego afirmou que tal posição do presidente não refletia a posição de toda a ILPS.

Método imperial e posições oportunistas

Se faz necessário ainda esclarecer o teor da linha direitista defendida por José Maria Sison e seus associados. A ILPS foi fundada com a missão de criar uma ampla frente internacional anti-imperialista. Mas Sison queria ampliar a frente, seja apoiando o governo reacionário da China – que já passou de pretensões imperialistas à sua prática quase completa –, seja o oportunismo de Chávez ou o revisionismo do governo cubano.

A seguir, publicamos trechos da declaração Sobre os 10 anos da fundação da ILPS, em maio de 2001. Uma carta aberta dirigida às organizações democráticas e de luta de massas pelo mundo, esclarecendo sobre a situação na organização internacional. A declaração vai assinada pelos representantes de organizações do Brasil, Índia, Grécia, Turquia, USA, Áustria e Irã.

“Em abril de 2005, no 50º aniversário da Conferência de Bandung (1955), o presidente, sem consulta a outros membros do ICC, divulgou uma declaração assinada pelo presidente do ICC que, abertamente, declarava que a ILPS “era guiada pelo espírirto de Bandung”. De fato, até aquele momento, o nome Bandung foi o único espírito que nunca ocupou nossas mentes ou discussões durante reuniões públicas nem em nenhuma reunião privada. Não há dúvidas de que pontos de vistas diferentes existiam e continuam existindo entre os movimentos populares, dentro e fora da ILPS. Entretanto, muitos destes continuam acreditando que a Conferência de Bandung foi uma nova orientação, estranha ao espírito do internacionalismo, que confundiu a frente de operários e oprimidos em cada país, onde os reacionários e os Estados compradores tiraram vantagens dos sentimentos anticoloniais e anti-imperialistas das massas populares para legitimar e consolidar suas próprias dominações e posições privilegiadas em cada país. Assim, o “espírito de Bandung” não pode ser lembrado como um guia ou fundamento para uma iniciativa que está baseada numa aliança de organizações de massas democráticas e anti-imperialistas. Ao lado da natureza antidemocrática de fazer reivindicações em nome da ILPS, simplesmente não é verdade que a ILPS foi fundada com tal espírito guia. A ideia de a ILPS ser parte de um movimento “não alinhado”, que segue os princípios da “não interferência” e respeita os estatutos das Nações Unidas é um fato estranho à própria ILPS. O estatuto define a ILPS como uma aliança de formações democráticas e anti-imperialistas; como uma organização que não é anexada, nem é extensão de nenhum Estado, partido, nem de instituição religiosa. A ILPS foi fundada sob o incansável espírito do internacionalismo que, necessariamente, significa que os movimentos populares se uniriam sob a base de que “seus inimigos são nossos inimigos! Sua luta é nossa luta! (…)

Em janeiro de 2009, o presidente da ILPS, sem consultar nenhum membro do ICG, contra a sugestão do secretário geral e, particularmente, sem consultar o vice-presidente para assuntos externos, enviou um membro do seu grupo para participar na conferência de Beirute. Este membro foi como representante de uma organização filipina e, duplamente, foi também como um representante da ILPS nesta conferência. Sem dúvida, esta conferência foi concebida como um exercício de relações públicas do Ministério do Exterior iraniano. Um representante do Hamas abriu a reunião e entre a lista de participantes estavam representantes do Ministério de Informação do Irã.

Em fevereiro de 2009 este tema foi causa de duras discussões durante a reunião do ICC, quando o vice-presidente para assuntos externos e outros membros do ICC se opuseram e rejeitaram o relatório do representante do escritório da presidência, que tinha participado desta conferência, prevenindo o endosso do ICC a este surpreendente e não autorizado engajamento à Conferência de Beirute, dado pelo Prof. Sison. (…)

Apenas seis meses antes da Conferência de Beirute, durante a sessão plenária da IIIª Assembleia Internacional da ILPS, em junho de 2008, foi aprovada uma resolução sobre o 20º aniversário do massacre dos 18 mil prisioneiros políticos do Irã promovido no verão de 1988 pelo regime reacionário da República Islâmica. A resolução também prometia todo o apoio da ILPS ao crescimento da luta dos operários, estudantes, mulheres e minorias nacionais no Irã. Apesar disso,opresidenteda ILPS enviou o seu representantepara umevento cujo objetivo era retratar positivamente este regimereacionário frente a opinião pública internacional. (…)

Assim, o evento em Atenas e o papel que o presidente da ILPS jogou agravando diferenças e usando a posição dele paradifamar os outros, mais que agir como um supervisor e um árbitro, deve ser visto à luz desse pano de fundo de uma tendência crescente e estranha ao espírito da ILPS, que acabou nos comportamentos erráticos e sem sentido e nas decisões não democráticas e liquidacionistas no ICC, em novembro de 2009.”

GN Saibaba – Frente Democrática Revolucionária (RDF) – Índia
M Arkolakis – Comitê Contra Bases Militares e Dependência da Grécia
A Riazi – Organização Democrática Anti-imperialista de Iranianos na Grã-Bretanha -Irã
E Brunner – Publicações Umut – Áustria
R Scarlatelli – Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos , CEBRASPO – Brasil
H Gulum – 2ª Seção – Trabalhadores Municipais (Sindicato dos Servidores Civis) – Turquia
D Norberg – Collision Course Media, USA
Kali Akuno – Movimento de Base Malcolm X (MXGM) – USA
Y Gunes – Federação dos Trabalhadores da Turquia na Holanda (HTIF) – Holanda
A Genc – Federalção dos Trabalhadores da Turquia na Alemanha (ATIF) – Alemanha
Prof K R Chowdry – Vistapan Virodhi Jan Vikas Andolan – Índia
C Perperidou – Marcha Classista – Grécia

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