História: as execuções da Otan na África e em Portugal

História: as execuções da Otan na África e em Portugal

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Foi publicado recentemente na Europa, no site da Rede Voltaire e do jornal português Avante!, um artigo do historiador suíço Daniele Ganzer, sistematizando informações sobre a atuação em Portugal da Gladio, rede anticomunista da Otan, da CIA e do MI6 — o serviço secreto britânico — que operou clandestinamente durante décadas na Europa Ocidental.


Bombas explodiram em Roma e Milão em dezembro de 1969, matando camponeses

O artigo de Ganzer é mais um da sua série sobre os exércitos secretos da Otan, assunto que já foi tema de um livro do historiador, e mostra como a Operação Gladio ajudou o dirigente fascista Antonio Salazar a assassinar opositores e até líderes revolucionários em colônias portuguesas na África.

A atuação de exércitos secretos da CIA e da Otan em apoio ao fascismo salazarista é algo conhecido oficialmente desde o início da década de 1990, quando sua existência veio a público em meio às investigações na Itália da atuação da Gladio naquele país. Naquela feita, foi revelado que a rede secreta anticomunista da Otan operava em Portugal sob o nome de Aginter Press, organização fundada em Lisboa em setembro de 1966 e comandada pelo capitão Yves Guillon, pseudônimo de Yves Guérain-Sérac — mercenário escolado nas artes do terrorismo e da sabotagem contrarrevolucionária, que ostentava várias medalhas militares dadas a ele pelo exército do USA por seus serviços, por exemplo, na guerra da Coreia.

“Mercenários e terroristas da Aginter Press empenharam-se em enfraquecer e aniquilar as facções de guerrilheiros que lutavam pela independência das colônias portuguesas. Em meados dos anos 60, o primeiro teatro de operações da organização não foi a Europa, mas a África, onde o exército português enfrentava os movimentos independentistas.

A Aginter colocou os seus responsáveis de operações nos países limítrofes da África portuguesa”, escreve Ganzer.

Segundo as informações de Daniele Ganzer levantadas a partir de investigações levadas a cabo na Itália, entre as pessoas assassinadas pela Operação Gladio em Portugal e nas então colônias portuguesas africanas (hoje semicolônias) estão Humberto Delgado, líder opositor português morto em 1965, Eduardo Mondlane, líder e presidente da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), que foi morto em fevereiro de 1969, e Amílcar Cabral, célebre líder independentista da Guiné-Bissau e de Cabo Verde morto em 1973.

Esforços anticomunistas

Um documento da Aginter Press intitulado “A Nossa Atividade Política”, datado de novembro de 1969, e que foi descoberto em 1974, mostra como, além de assassinatos, os exércitos secretos da Otan que atuavam no período da chamada “Guerra Fria” se esmeravam também na sabotagem, no divisionismo e na manipulação: “Dispomos de homens infiltrados nesses grupos que nos permitirão agir sobre a própria ideologia do meio — através de ações de propaganda e outras, realizadas de tal maneira que parecerão ser obra dos nossos adversários comunistas”.

O historiador Daniele Ganzer diz que, paralelamente às guerras sujas em Portugal e nas coloniais portuguesas africanas, a Aginter Press desempenhou também um papel relevante nos esforços anticomunistas da CIA e da Otan em outros países da Europa ocidental.

“A operação realizada pelos combatentes de sombra, em nome da luta contra o comunismo, sobre a qual estamos mais bem informados é provavelmente o atentado da Piazza Fontana, que atingiu pouco antes do Natal as capitais políticas e industriais da Itália — Roma e Milão — em 12 de Dezembro de 1969. Nesse dia, quatro bombas explodiram nas duas cidades, matando cegamente 16 civis, na sua maioria camponeses que se dirigiam ao Banca Nazionale Dell’Agricultura de Milão para depositar as suas modestas receitas de um dia de mercado. Outras 80 pessoas ficaram feridas ou mutiladas. Uma das bombas colocadas na Piazza Fontana não explodiu devido a uma avaria do temporizador, mas quando os agentes do SID e a polícia chegaram ao local, apressaram-se a explodi-la para destruir indícios comprometedores. A execução deste atentado obedeceu estritamente às estratégias de guerra secreta definidas por Guérain-Sérac. Os serviços secretos italianos atribuíram o ato à extrema-esquerda, chegando ao ponto de colocar componentes de um engenho explosivo na casa do editor Giangiacomo Feltrinelli, conhecido pelas suas ideias de esquerda, e aproveitaram para prender numerosos comunistas”.

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