Histórias que Hollywood desconhece

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Histórias que Hollywood desconhece

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Como reagir ante a cobiça desmedida das grandes corporações, a violência do aparato policial-militar, o sistema financeiro, o terrorismo de Estado? Quais são as chances das classes populares ante as pressões econômicas e repressivas que sofre no seu dia-a-dia? A seguir, dois filmes documentários instigantes, que registram exemplos de uma pessoa e um povo que com inteligência, coragem, mas sobretudo seu espírito altivo e indomável, conseguiram enfrentar e subjugar adversários descomunais. 

http://jornalzo.com.br/and/wp-content/uploads/74/15a-3d9.jpgA luta do indômito povo de Bougainville

Na Oceania existe uma pequena ilha chamada Bougainville, localizada ao noroeste da Austrália, habitada quase exclusivamente por aborígenes que somam aproximadamente 200 mil indivíduos. A partir do final dos anos 80 sua pacifica população majoritariamente agricultora e pesqueira teve que transformar-se em guerreira para sobreviver, travando o maior conflito armado do Pacífico Sul depois da Segunda Guerra Mundial.

As terras de natureza frondosa começaram a ser destruídas pela megamineradora anglo-australiana Rio Tinto. Suas montanhas e florestas se transformaram em gigantescos buracos estéreis e envenenados. A implantação da maior mina de cobre a céu aberto do mundo na época foi implacável com a população. 

Bougainville, étnica, histórica e geograficamente pertencia ao arquipélago das ilhas Salomão, mas as potências coloniais fizeram as divisões de acordo com seus interesses. Assim, Bougainville passou de colônia francesa desde o século XVII a domínio alemão, depois australiano, durante breve tempo japonês e, finalmente, ao de Papua-Nova Guiné.  Então foi Papua-Nova Guiné quem fez os acordos com a transnacional Rio Tinto. Os habitantes da ilha, revoltados com a mineradora escolheram o cidadão Francis Ona, funcionário da empresa, para negociar com ela um acordo. Francis chegou até a diretoria e pediu que se retirassem da ilha e ademais uma indenização de dez bilhões de dólares para compensar os danos causados. Os diretores da empresa riram dele, até porque o empreendimento todo não tinha esse valor. Bom, Francis não gostou que zombassem dele. Foi até o depósito da mineradora, carregou cinquenta quilos de explosivos e junto com os moradores começou a dinamitar a infraestrutura da empresa. Então nasce o BRA, o Exército Revolucionário de Bougainville (Bougainville Revolutionary Army), liderado por Francis, para sabotar a mineradora, organizar a resistência e lutar pela independência.

A sequência é muito interessante: a Rio Tinto abandona o empreendimento. O exercito da Nova Guiné ataca. O BRA começa a se defender mesmo sem dispor de armas de fogo, só com pedras e paus e até jogam flechas nos helicópteros militares. A Austrália passa a ajudar Nova Guiné. O BRA, que foi se equipando com armas capturadas ao inimigo, vence com luta de guerrilha. Nova Guiné declara que o BRA é demasiado poderoso para suas forças militares e contrata um exército de mercenários da ‘empresa de segurança’ inglesa Sandline International por 36 milhões de dólares. Acontece que os militares da Nova Guiné, ao saberem da quantia paga aos mercenários, se rebelam contra o próprio governo, prendem e expulsam os mercenários.

Nesse meio tempo é imposto um bloqueio naval rigoroso à ilha, visando levar a população desesperada a lutar contra o BRA. Mas acontece exatamente o contrário. O BRA e o povo se unem ainda mais para encontrar soluções para a sobrevivência, partindo para a floresta, se tornando autossuficiente em tudo.

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Sete anos depois de iniciado o bloqueio, o documentarista viaja a Bougainville. Depois de arriscar sua vida furando o cerco, escoltado por uma equipe fortemente armada do BRA que se desloca em lanchas rápidas, finalmente desembarca na ilha. Sua câmera nos mostra a destruição deixada pela mineradora, uma verdadeira paisagem lunar. Logo nos leva até os assentamentos que a empresa tinha levantado para acomodar a população removida dos terrenos da mina; se assemelham a favelas. Dos três bilhões de dólares que a Rio Tinto faturou aqui, só migalhas para o povo. Nem escolas fizeram.

Ainda vemos o que ficou das sabotagens: as torres de transmissão de energia derrubadas, os alojamentos dos funcionários destruídos. Tudo foi feito pelos bouganvilleanos para assegurar que a empresa nunca mais botaria seus pés na ilha.

Mas, o que mais chama a atenção é a engenhosidade e garra do povo. O bloqueio criou enormes dificuldades. O conflito matou um décimo da população. Porém, das dificuldades nasceram soluções originais surpreendentes. Como primeira medida, todas as famílias foram orientadas a procurar ser autossuficientes em alimentos.

A sucata da mineradora serviu para realizar inúmeros projetos. O mais extraordinário: a fabricação de mais de cinquenta mini-centrais hidroelétricas que iluminavam todas as aldeias, ao contrário das cidades ocupadas pelo exército de Nova Guiné, que não dispunham de energia elétrica..

Mas, do conhecimento profundo da floresta é que vieram as grandes soluções, novas tecnologias: armadilhas feitas de ervas irritantes para deter o inimigo, remédios. E dentre todos os elementos naturais, um foi fundamental para a luta do povo de Bougainville: o coco.

Ele tem sua rica água; Pode-se fabricar sabão. Sua casca serve como lenha, para curar feridas, para afugentar insetos. E ademais das potencialidades que já conheciam, descobriram outra: a extração de óleo.

E assim uma grande curiosidade do documentarista (que passa a ser também do espectador) é desvendada: como funcionam os carros abandonados pela mineradora sem gasolina nem diesel e que atravessam a toda hora a ilha? Puro óleo de coco.

Entrevista Francis Ona e sua gente. Eles contam suas histórias de luta e as suas estratégias de resistência que foram sendo elaboradas na medida em que o conflito evoluía. Francis vive simplesmente, servindo ao povo que o cerca, cuidando de sua plantação, cortando lenha para as viúvas. Além de ser o iniciador da guerra de libertação de Bouganville, conquistou ainda mais respeito servindo o povo.

No fim da década de 1990, com o BRA vitorioso em 80 % da ilha, se aprofunda uma divisão política. O vice-presidente, Joseph Kabui, apoiado pelo chefe militar do BRA, defende acordos internacionais mediados pela ONU. O presidente Francis advoga pela vitória militar completa e que o povo de Bouganville decida seu próprio destino. Por isso mesmo Francis é designado como “linha dura”.

A posição de Kabui vence. Em 1998 foi levantado o bloqueio. Depois fizeram um acordo de paz avalizado pela Austrália e em 2005 conquistaram a autonomia e está prevista sua total independência para os próximos anos. Francis não concorreu nas eleições e Kabui foi eleito presidente.

A história da luta do indômito povo de Bougainville é contada no documentário The Coconut Revolution (A revolução dos cocos) dirigido por Dom Rotheroe.

A história até nossos dias não está no documentário e é bastante confusa. Há informações de que por volta de 2005, Francis teria se auto-proclamado rei de Bougainville. Há também na internet informação de que Francis teria morrido de malária em sua aldeia ainda em 2005. Fala-se ainda de empréstimos internacionais para a reconstrução da ilha que teriam como garantia as reservas minerais de Bougainville. Joseph Kabui ainda era o presidente da “Região autônoma de Bougainville”.

Enfim, embora se possa dizer várias coisas sobre as limitações de movimentos de libertação que não são dirigidos pelo proletariado e seu partido revolucionário, a principal lição do BRA é a de que na guerra, o fator decisivo é o homem, e não as armas, e que tudo é possível para as massas.


O internacionalista Lucio Urtubia

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Lucio Urtibia, no destaque, junto a Che Guevara em 1962

Nasceu em 1931, na cidade basca de Cascante (Espanha), numa família muito pobre. Viu seu pai morrer sem cuidados médicos por falta de recursos, e a partir de então, ainda garoto, passou a cometer pequenos delitos como única maneira de lutar pela sobrevivência.

Quando jovem, obrigado a servir o exército franquista na fronteira com a França, aproveitou o posto para ajudar no sustento da família com algum contrabando. Então ele é descoberto e antes de ser preso foge para a França. Desterrado, sem estudos, assume o ofício de pedreiro como profissão. Em Paris, onde fixa residência, conhece gente dos movimentos da esquerda local e dos exilados espanhóis. Sua consciência política cresce. Convencido de que os bancos eram os maiores sanguessugas do povo, passa a participar de assaltos armados a agências bancárias para levantar fundos a fim de ajudar companheiros políticos perseguidos. Mesmo tendo sucesso nestas atividades, percebe que é muito arriscado e que cedo ou tarde alguém pode se machucar. Ele pensa numa maneira mais original e segura de contribuir…

Então este pedreiro semianalfabeto, de grande inteligência e capacidade de relacionamento, consegue convencer os profissionais mais qualificados na área gráfica a ajudá-lo na confecção primeiro de documentação para os perseguidos políticos e mais adiante a falsificar cheques de viagens. Os cheques de viagens ou Travellers checks eram muito usados naquela época por turistas e homens de negócios. O dinheiro obtido com a falsificação passa a ser repassado a grupos de esquerda do mundo inteiro. O volume da fraude, na casa das dezenas de milhões de dólares, fez abalar o maior banco ianque da época: o First National Bank (que depois deste golpe mudaria para Citybank)

http://jornalzo.com.br/and/wp-content/uploads/74/15c-475.jpgCaçado pelas polícias da Europa e até pela Interpol, ele acaba sendo preso. Então seus companheiros redobram o derrame de cheques falsos. O que tinha sido anunciado como uma vitória das autoridades prontamente se transforma em um fiasco. Ao final, Lucio continuava sendo um homem pobre de mãos calejadas, sua prisão não resolvia nada. Sim, porque o dinheiro arrecadado tinha sido transferido integralmente para os revolucionários cubanos, os Tupamaros do Uruguai, Panteras Negras, os separatistas bascos e todas as causas que ele achasse que mereciam seu apoio; e o Lucio sobrevivia modestamente do seu ofício. Quatro meses depois, desesperados e atônitos, banqueiros e polícias lhe propõem um acordo: entregar as placas matrizes da produção dos cheques, destruir os cheques que estivessem prontos e sua palavra de que nunca mais se envolveria com falsificação, e em compensação Lucio ficaria livre de toda acusação e receberia uma substancial soma em dinheiro.

Assim foi feito. Lucio, neste mês de fevereiro, completa oitenta anos, lúcido e altivo.

O documentário se intitula Lucio,dirigido por Aitor Arregi e José Mari Goenaga.

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