Intercâmbio de produção entre camponeses no Norte de Minas

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Intercâmbio de produção entre camponeses no Norte de Minas

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Camponeses em trabalho de campo na roça

No dia 17 de julho, a área “Unidos com Deus Venceremos”, no município de Pedras de Maria da Cruz, recebeu a visita dos camponeses de áreas camponesas do município de Varzelândia para troca de experiências de produção. Em 12 de junho havia ocorrido o inverso, na área Para Terra I, em Varzelândia.

Na plenária final da atividade, o representante da LCP do Norte de Minas, ao reafirmar que esse trabalho de visitas entre áreas irá continuar, pronunciou: “Em nome da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Bahia, gostaria de dizer que o nosso objetivo é chegar num grande seminário de produção em que todos os produtores que estavam nas periferias, que não tinham seu pedaço de chão, mas conseguiram se organizar, trabalhar e produzir, possam expor suas experiências e produtos. Através de nossa organização, de nossas consciências, de nossa luta, vamos mostrar que somos capazes de fazer por nós mesmos a riqueza deste país”.

O entusiasmo do relato dos camponeses participantes das atividades é contagiante.

A primeira visita

No dia 12 de junho, na área Para Terra I, iniciando os trabalhos, o presidente da associação do assentamento deu as boas vindas aos representantes de várias áreas camponesas e após a plenária inicial, todos foram para as roças. Lá os camponeses relataram suas experiências.

No setor de plantio de pimenta, primeira área visitada, o representante do grupo de produção coletiva esclareceu diversas dúvidas, explicou a importância do correto espaçamento entre mudas, que devem se distanciar um metro umas das outras, e que as “ruas” (espaços entre uma linha e outra de cultivo) deve ser de 60 cm. Continuou dizendo que a pimenta começa a produzir a partir de 45 dias e que o tempo de produção é de um ano. A partir desse período deverá ser feito um novo plantio. Após essas explicações, todos se dirigiram para a área preparada para o plantio de alface. O representante do grupo de produção afirmou que eles contam com um sistema de irrigação de alta tecnologia, que proporciona uma economia de 75% na conta de energia elétrica. Os camponeses da área relatam como foi importante terem persistido na exigência de seus direitos junto à prefeitura, e disseram que, com isso, contaram com o apoio do atual secretário de agricultura de Varzelândia para conseguirem instalar todo o sistema de irrigação. Afirmaram que não existe terra ruim, o que existe é falta de investimento para o camponês pobre. 

Sobre os desafios da produção coletiva, os camponeses relataram como superaram a dificuldades ao longo dos anos.

O programa atual do grupo de produção coletiva tem dois anos, mas o projeto coletivo já existia desde quando foram para a terra.

Um camponês conta que a produção coletiva enfrentou dificuldades e chegou ao ponto de quase acabar. O grupo não dispunha de recursos. Começaram com 32 companheiros trabalhando coletivamente e chegaram a ficar com apenas seis. Reanimar e ascender eram objetivos e necessidades. Foi quando os camponeses, com o apoio da LCP, se lançaram na construção da Ponte da Aliança Operário-Camponesa, inaugurada em 2008 (ver edições 32 e 33 de AND). A obra foi uma alavanca para o grupo coletivo que hoje conta com 17 pessoas e se reúne três vezes por semana para discutir todos os problemas relacionados à produção.

Prosseguindo com as atividades, os camponeses assistiram a dois vídeos sobre a produção e fizeram uma plenária final. Muitos participantes tomaram a palavra e expressaram seu entusiasmo com a possibilidade da continuidade do trabalho.

O secretário municipal de agricultura de Varzelândia, Sr. Valdeci, em sua intervenção parabenizou a associação do Para Terra I, afirmando que “a iniciativa de integração entre as áreas de assentamentos contribuirá para um grande aprendizado para todos”. Afirmou que “os companheiros devem fortalecer a luta pela terra e ter coragem para lutar por ela, para que todos tenham melhores condições de vida na terra conquistada”. Enfatizou que “o movimento de luta não é fácil, mas que os camponeses não devem desanimar”.

O representante da comissão nacional da LCP afirmou em sua intervenção: “Nós achamos que nunca foi tão difícil a luta pela terra como neste momento que nós estamos passando hoje. Os governos federal, estadual, todos eles estão dominados pelo latifúndio. As dificuldades fazem com que a gente pense muito nesta luta nossa. Tem gente que é assentado de 10 a 20 anos e não tem o título de propriedade, não pode dizer: agora eu sou o dono! A terra hoje está mais difícil para o camponês, e se ela está difícil para conquistar, está mais difícil para sobreviver nela também. Não basta tomar o latifúndio. Se nós não produzirmos, vem o latifúndio comprando pedacinho por pedacinho, e depois estará aí, todo de novo. Esta é uma luta importante de resistência e os companheiros estão de parabéns”.

A segunda visita

A atividade se iniciou pela manhã com a participação de mais de 90 camponeses. Estiveram presentes os representantes do Para Terra I e das áreas Brilho do Sol e Conquista da Unidade, de Varzelândia.

Foram relatadas dificuldades encontradas durante a produção. Quando as roças de tomate, pimenta e cenoura já estavam quase no ponto de colher, os camponeses perderam praticamente todo o trabalho. Houve um problema com a bomba de irrigação e eles tiveram muito prejuízo. Lembraram que mesmo quando se produz, há muita dificuldade para escoar a produção e muito se perde. Houve a denúncia do fechamento de uma estrada centenária que o latifúndio cercou por contra própria, obrigando os camponeses a passarem por outra via com mais 10 km para chegar à cidade.

O secretário de agricultura disse que não era possível investir recursos da prefeitura, porque ali não é uma área legalizada. Muitos camponeses debateram sobre legitimidade ou não da área e a conclusão de todos foi que não se pode depender das leis existentes nesse país para desenvolver e levar progresso para os camponeses. O exemplo daquela fazenda de 17 mil hectares de terra fértil, já vistoriada pelo Incra, e que ainda está em litígio há anos, comprova como as leis existentes no Brasil só punem os pobres favorecendo os ricos.

A visita à área de produção de mel foi restrita aos membros dos grupos de produção, devido ao perigo do contato direto com as abelhas. Esse é um projeto que está dando certo, e tende a progredir.

Após o almoço, todos se reuniram em plenária e aguardaram ansiosos pela apresentação do grupo de teatro dos jovens do Para Terra I, o grupo “Servir ao Povo”, que faz sucesso nas áreas com a adaptação do texto chinês “A Aldeia Tachai”, que relata a capacidade do homem de se desenvolver com suas próprias forças e superar verdadeiras tragédias com o trabalho coletivo. A peça se passa no período histórico da grande revolução chinesa, em que os camponeses, junto com os operários, estavam no poder do Estado. A apresentação cultural comoveu a todos, que destacaram a importância da organização da juventude e de atividades culturais como essa.

Os camponeses cobraram dos representantes da prefeitura presentes apoio para continuarem a desenvolver as atividades de visita nas áreas. A próxima área a ser visitada será a área Vitória, em Verdelândia.

No balanço da atividade, o representante da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Bahia destacou: “Quero aqui falar em nome de um movimento que a gente representa que é a Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas. O nosso trabalho na região é fazer este intercâmbio, é fazer os companheiros entenderem o que é a luta. Queremos que todos entendam que vamos chegar ao objetivo, que é fartar a nossa mesa, tirar os companheiros que estão na cidade mendigando. Com a luta, podemos fazer com que essas pessoas possam reverter esta situação aqui, no campo. Em nome da Liga, em nome deste movimento, eu quero pedir aos companheiros que levantaram essa bandeira, que a continuem sustentando. Continuem a luta”.

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