Lembrando Kishenji

Lembrando Kishenji

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Em 24 de novembro de 2011, o corpo do líder maoísta Kishenji foi encontrado com múltiplas lesões na selva Burishole, na área Jhargram, do distrito de Medinipur, em Bengala Ocidental. Um dos principais agentes das forças conjuntas de Chidambaram-Mamata, Sr. Vijay Kumar, da delegacia da Força Central de Reserva da Polícia – CRPF, descreveu esta ação como uma “operação limpa e bem sucedida”. O corpo mutilado apresentava marcas não só de ferimentos a bala, mas feridas de quatro tipos. Um tipo de ferimento foi de bala, o segundo foi ferimento causado ​​por armas afiadas, o terceiro tipo eram feridas por queimaduras e o quarto eram feridas causadas por golpes com objetos contundentes, em diferentes partes do corpo, como os dedos. Fatos como este revelam a verdade que Kishenji foi capturado em outro lugar, torturado até a morte, depois seu cadáver foi colocado no local e um teatro foi montado para sustentar a tese do chamado “encontro”1.

O ministro-chefe de Bengala Ocidental, depois de manter-se calado durante três dias, apresentou uma teoria, em uma reunião de campanha pela eleição, de que as forças conjuntas disseram para Kishenji render-se antes de atirar – uma explicação refutada pelos aldeões em conversa com a equipe de investigação, formada por 22 membros de organismos de direitos civis, que visitou o local e áreas adjacentes, em 1º de dezembro de 2011. E esse chamado “encontro” foi planejado numa época em que havia um processo de diálogo entre os interlocutores do governo de Bengala Ocidental e lideranças maoístas. O intelectual revolucionário Varavara Rao, membro do grupo que levou o corpo de Kishenji para sua cidade natal, Peddapally, no distrito de Karimnagar, declarou que durante os últimos 43 anos ele viu cadáveres – de pessoas mortas em verdadeiros ou falsos “encontros” – mas nunca antes ele testemunhou um corpo que apresentasse tantas marcas de ferimentos. Este brutal assassinato do líder maoísta Kishenji pelas forças combinadas de Chidambaram-Mamata entrará para a história como crime contra a humanidade.

Os 37 anos de longa vida política revolucionária de Mallojula Koteswar Rao2 poderiam ser narrados e analisados apenas por aqueles que foram seus companheiros próximos de armas, em tempos de adversidade e alegria. Para uma pessoa como eu, que, basicamente, pertence a um mundo acadêmico, que procura estudar o movimento maoísta à distância e que não teve qualquer oportunidade de trocar impressões com ele, escrever sobre Kishenji é, inevitavelmente, enfrentar um monte de dificuldades. Eu gostaria de pedir aos leitores deste meu pequeno documento que mantenham em mente essa limitação.

Após a morte de Kishenji, pessoas de diferentes esferas da vida têm manifestado a sua opinião sobre tudo isso; a maioria delas fala sobre a sua linha política. Eu não queria escrever sobre a linha política dele (e este também não é o contexto para isso), porque a linha política de Kishenji não é diferente da linha política do Partido Comunista da Índia (Maoísta). E seria melhor se os comentários sobre a linha política viessem da parte daqueles que participam, eles próprios, da prática revolucionária, de modo a tornar isso mais significativo. Embora afirmando assim, eu também reconheça o fato de que a verdade e a sabedoria podem estar também na consciência social das pessoas sensíveis. Eu não sei muito sobre o contexto no qual o líder maoísta foi preso e morto. No editorial de Bandibarta (Boletim dos Prisioneiros, um jornal de Bengala) nº 4, edição de novembro-dezembro de 2011, eu expressei minha opinião sobre isso. Neste presente artigo eu vou escrever sobre alguns aspectos do heroi que caiu e do impacto que ele, como um líder revolucionário comunista, teve em Bengala Ocidental.

Mallojula Koteswar Rao nasceu em 1954, na cidade de Koddapally, no distrito de Karimnagar, em Andhra Pradesh. Como um estudante do ensino médio ele participou ativamente do movimento separatista para a criação do estado de Telangana, em 1969. Como aconteceu com muitos de seus contemporâneos, a luta de Naxalbari, em 1967, e a luta Girijan, em Srikakulam, que veio na sua esteira, influenciou profundamente a sua mente. Ele era então um estudante de graduação na Faculdade de SSR Karimnagar. Em 1974, após o término da primeira fase da luta do PCI (Marxista-Leninista), ele entrou para o partido como um ativista. Juntou-se ao RSU (União dos Estudantes Radicais) e foi para a clandestinidade durante o regime de emergência, sob Indira Gandhi. Ele trabalhou nas aldeias e desempenhou um papel ativo em denunciar o programa de 20 pontos do Partido do Congresso3. A segunda conferência do RSU foi realizada em fevereiro de 1978 e a primeira conferência do RYL (Liga da Juventude Radical) em maio de 1978. Estes dois encontros foram importantes na vida política de Koteswar Rao. Ele participou do movimento “Ida à aldeia” – movimento que foi iniciado por Charu Mazumdar, após Naxalbari, quando ele conclamou a juventude e os estudantes a irem para as aldeias e a se integrarem com os camponeses pobres sem-terra, como um passo preliminar para a transformação revolucionária e que, posteriormente, tornou-se parte do comunismo revolucionário na Índia. Este parece ter sido o primeiro passo no sentido do batismo de Kishenji no processo de integração com os camponeses. Em setembro de 1978, ele participou de um movimento camponês conhecido como “Jagityal Joitrajatra” (Marcha da Vitória a Jagityal), que foi o ponto culminante do movimento de massas para ocupar a terra, por parte de camponeses sem-terra, em cerca de 150 aldeias e distritos que abrangem Karimnagar Adilabad. Foi esse movimento que deu origem a futuros líderes maoístas como Ganapati, Kishenji e outros. Kishenji era, até então, o secretário do PCI (ML), no distrito de Karimnagar. De acordo com relatos da imprensa, ele foi associado com o comitê conjunto Adilabad-Karimnagar, comitê distrital de Karimnagar, como secretário do comitê estadual no estado de Andrha Pradesh e assumiu responsabilidades de organização e militares em muitas partes de Dandakaranya. Em meados dos anos de 1990 assumiu a liderança do movimento na região de Jangalmahal, Bengala Ocidental, como também em outros estados. Diz-se que Kishenji esteve envolvido, pessoalmente, em ambos os movimentos de Singur e Nandigram. Todos nós temos ouvido falar sobre o seu papel de liderança durante o histórico movimento de unificação de Lalgarh. A partir de então, o nome do Kishenji se tornou um nome familiar em Bengala Ocidental.

Kishenji chamou o Movimento Lalgarh de “o segundo Naxalbari”. Do ponto de vista histórico, Naxalbari é único, é um divisor de águas na história da Índia. Este movimento foi de curta duração, no lugar onde surgiu. No entanto, a mensagem de transformação revolucionária da sociedade indiana através do caminho da revolução agrária, sob a orientação do Pensameno Mao Tsetung, espalhou-se. O Movimento Lalgarh também espalhou-se por toda a região de Jangalmahal e foi um salto qualitativo após Singur e Nandigram. O que testemunhamos em Lalgarh é a fusão entre o movimento democrático dos adivasis, dalits e outras pessoas das classes mais pobres, por um lado, e a luta armada revolucionária, por outro. Uma grande variedade de iniciativas foi iniciada, com a formação do Comitê Popular Contra as Atrocidades Policiais (PCAPA); representação igual para homens e mulheres dentro do PCAPA, os homens e as mulheres jovens da PCAPA; luta pela dignidade apesar da repressão brutal do Estado; movimento anti-bebidas alcoólicas; luta por uma nova cultura com canções e poemas que refletissem as lutas do povo e desenhos de rebeliões passadas dos adivasis; luta contra a poluição ambiental causada pela instalação de fábricas de ferro-gusa; a adoção de novos métodos de luta; a flexibilidade e, junto com estes, modelos alternativos de desenvolvimento – distribuição de terras, para a construção de barragens para irrigação, de estradas, plantio com irrigação com tubos, criação de centros de saúde e de centros gratuitos de treinamento – tudo isso para apoiar o modelo maoísta Dandakarania de desenvolvimento. Se historiadores ou cientistas sociais aceitaram isso ou não, eles mantêm uma distância segura daqueles movimentos e são sustentados em suas atividades intelectuais por tais movimentos e realmente devem muito àqueles que são os verdadeiros criadores da história.

Dois anos atrás Kishenji tornou-se um nome muito conhecido e a imprensa teve um papel nisso. Situações como: a conversa telefônica de Kishenji com a imprensa; o rapto de Atindranath Datta, representante do governo em Sankrail; a libertação de 15 mulheres prisioneiras  vindas da área de Jangalmahal, do Presídio Central de Medinipur, em troca da libertação de Atindranath Datta, que foi libertado por Kishenji diante dos meios de comunicação; e a aparição de Kishenji frente à imprensa com uma mulher adivasi de idade, cuja família tinha sido alvo de assédio policial e tortura antes do rapto de Datta. Todos estes fatos agora são parte da história. Aquele foi um momento em que muitos jovens sentaram-se diante das TVs para ouvir a voz de Kishenji. Falando em Telugu, com sotaque de Bengala, seu discurso e as respostas para a imprensa, sua ousadia, sua dedicação à causa pela qual ele vinha lutando e seu auto-sacrifício causou uma profunda impressão entre as pessoas, independentemente de suas opiniões. As pessoas o tratavam com respeito, espanto e admiração. Houve um tempo em que Kishenji foi a personalidade mais atraente aos olhos da imprensa. Alguns o honraram com o título de “Homem do Ano”. Quando ele cobriu seu rosto, por razões de segurança, ele foi descrito também como “o fantasma que caminha”. Houve vários relatos sobre onde ele estava ou o que ele estava planejando fazer. Houve relatos sobre ele ter sido ferido em um suposto “encontro” na selva de Bankishole.

Posso lembrar os meus dias no Presidency College, em Calcutá, no início de 1970, quando Charu Mazumdar4 tornou-se uma lenda vida. Muitas histórias circularam nos meios de comunicação sobre o seu paradeiro. “Hoje ele estava em Behala, no dia seguinte ele estava em Puri, ele escapou da batida policial”, e assim a história continuou. Charu Mazumdar morreu em Lalbazar, na prisão, em 28 de julho de 1972. Ele morreu durante um regime que iniciou assassinatos em falsos “encontros”. Hoje, Kishenji é assassinado sob um regime que faz o mesmo do regime anterior. Desde então, até 24 de novembro de 2011, quase quatro décadas se passaram. Nenhum outro líder revolucionário durante esse longo período, desde 1972, causou tal impressão indelével na mente do povo de Bengala Ocidental. Pode-se concordar ou discordar com a ideologia e os métodos de luta defendidos por Kishenji, no entanto, todos os democratas, pessoas honestas e sensíveis do país irão considerá-lo em alta estima, pela sua dedicação inabalável à causa, por sua heroica intrepidez, sacrifício e martírio com o nobre propósito de criar uma nova sociedade, onde os valores humanos triunfam sobre o desejo de lucros. No verdadeiro sentido do termo, Kishenji era um líder do povo oprimido; ao mesmo tempo, ele também era um deles, que tratou o sofrimento de seus compatriotas como o seu próprio, e foi a sua integração com o povo e suas qualidades pessoais que devem ter feito o que ele realmente era.

Uma pessoa como eu – que é tanto um estudante quanto um professor de História, e que está envolvida na investigação do movimento maoísta em sua fase atual – enfrentará maior dificuldade. Um dos principais arquitetos do movimento maoísta partiu deste mundo “como – nas palavras de Kabir Suman – um heroi”. Pessoalmente, eu quis entrevistá-lo e ter uma longa discussão com ele sobre vários assuntos relevantes para o cenário político contemporâneo. Essa possibilidade não existe mais. Assim, foi uma perda irreparável para o estudo da História.

Para mim, não é possível avaliar a medida em que a morte de Mallojula Koteswar Rao afetará o movimento maoísta. No entanto, o ponto crucial é que o movimento naxalita-maoísta se mantém há 44 anos, enfrentado a brutalidade e crueldade, de todos os tipos, do  Estado e continua ganhando força. Isso só pode se dever ao fato de possuir uma forte base social, por representar um instrumento para a transformação social no meio do povo, por possuir uma base de massas muito sólida, o que tornou tão longa a sua duração. Caso contrário, nunca seria possível explicar tão longa existência de um movimento comunista revolucionário em nosso país. A base desse movimento está na resistência do povo contra a opressão das classes reacionárias na Índia e a dominação do capital estrangeiro sobre a nossa economia e pilhagem dos recursos por eles, em conluio com as classes dominantes locais. Enquanto esta realidade existir, a fome das pessoas para a mudança não irá diminuir. O assassinato de um líder revolucionário não pode mudar essa tendência geral da História. Essa é a lei da História.

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*O professor indiano Dr. Amit Bhattacharyya leciona na faculdade de História da Universidade de Jadavpur, em Calcutá, e é membro do Comitê pela Liberdade dos Prisioneiros Políticos na Índia. No ano passado ele esteve no Brasil. Na ocasião, apresentou o ciclo de palestras “Índia: dominação imperialista e resistencia popular” em universidades brasileiras.

1 Artifício bastante utilizado pelas forças de repressão do velho Estado indiano, simular ao cenário de “encontros” (enfrentamentos) para justificar o assassinato de militantes comunistas e lideranças populares que se oponham à velha ordem. Assemelha-se aos “autos de resistência” lavrados pela polícia quando executa pessoas em supostos confrontos nas ruas das cidades e no campo aqui no Brasil.

2 Verdadeiro nome do dirigente comunista.

3 Programa de reformas econômicas antipovo aplicado pelo gerenciamento de Indira Gandhi em meados dos anos de 1970.

4 Dirigente da fração vermelha do Partido Comunista da Índia (Marxista-leninista) nos anos de 1960, vanguardeou a luta contra o revisionismo kruschovista. A fração vermelha liderada por Charu Mazumdar promoveu a cisão proletária e reconstituiu o partido como Partido Comunista da Índia (Marxista-leninista), defendendo o Pensamento Mao Tsetung como o marxismo-leninismo da época. Criou o Grupo Guerrilheiro do Povo e dirigiu o levantamento camponês na aldeia de Naxalbari, em Bengala Ocidental, que tomou terras dos latifundiários, queimou registros de propriedade, aboliu as dívidas dos camponeses pobres, julgou e executou os principais inimigos do povo.

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
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