Lições sobre o divisionismo que vêm da França

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Lições sobre o divisionismo que vêm da França

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Operários protestam em Estrasburgo contra cortes de até 10% nos salários

A cidade de Estrasburgo, na França, sede do famigerado Parlamento Europeu — órgão legislativo da Europa da grande burguesia imperialista — vem sendo palco de uma disputa entre patrões e operários. Combate esse que pode ser considerado uma síntese dos tempos que correm, expondo de maneira nua e crua, e didática, as nuances e as contradições da luta de classes em tempos de capitalismo em crise profunda e estrutural, agonizante, que se debate em busca de ar e, nisso, deixa à mostra suas mais torpes facetas.

Ocorre que, em meados de julho, a direção de uma fábrica de componentes da montadora de carros ianques General Motors em Estrasburgo convocou direções sindicais para lhes fazer uma “proposta”, ou uma chantagem, mais vale dizer. Os gerentes da fábrica da GM em Estrasburgo propuseram aos trabalhadores franceses simplesmente uma redução de 10% dos seus salários. Ou isso, ou a General Motors iria transferir sua fábrica para o México, em busca de mão de obra mais barata.

Em tempos de desemprego galopante em todas as partes do planeta, com a indústria em crise de superprodução e a economia da Europa atravessando seu pior momento em meio ao colapso fiscal e financeiro que se espalha pelo mundo como rastilho de pólvora entre paióis, os operários sentiram a força desse golpe tão baixo desferido por uma companhia que atualmente é controlada pelo próprio Estado imperialista ianque, que tem 60% de participação na GM.

No dia 19 de julho, sindicatos, cujas direções preferem a conciliação das migalhas em vez de conduzir a luta, organizaram uma assembleia para colocar os termos da chantagem patronal em votação. Os capitulacionistas que se apresentam como lideranças operárias fizeram o jogo dos patrões: potencializaram a ameaça do fim da fábrica, instrumentalizaram o medo de perder o emprego, discursaram sobre a urgência de garantir o sustento das famílias. Propostas e planos de enfrentamento, isso não foi feito. O resultado foi que a maioria dos 1.150 operários da fábrica da General Motors em Estrasburgo votaram contra si próprios.

Os dedos e os anéis

A maioria de trabalhadores da fábrica de peças da GM em Estrasburgo (70,65%) votou a favor da capitulação à chantagem patronal e apenas 29,35% votaram contra ceder à ameaça de dar seus empregos a proletários de outro canto do mundo, uma semicolônia, onde a exploração capitalista se dá de maneira ainda mais leonina.

Poucos dias depois, a lição se impôs: percebendo o fraquejo do operariado ante ao ultimato quanto à redução dos salários, a direção da fábrica quis impor condições de trabalho ainda mais duras antes de o “acordo” ser assinado: jornadas semanais de 50 horas no verão, quando há mais demanda, incluindo os fins-de-semana, e 30 horas durante o inverno, suprimindo o direito a horas extras. Diante dessa nova investida dos patrões, os operários, enfim, resolveram cruzar os braços e não permitiram que os sindicatos assinassem o acordo. O divisionismo semeado no seio do operariado foi tamanho que um grupo deles, disposto a baixar a guarda ante a GM, chegou a sequestrar oito delegados sindicais mais lúcidos durante horas, a fim de pressioná-los a cederem.

O caso da chantagem na fábrica da General Motors em Estrasburgo não é isolado, ao contrário. Albert Dunlap, o célebre “recuperador de empresas” que ganhou o apelido de “Rambo de Gravata” pela maneira impiedosa com que “maneja” a mão-de-obra das empresas nas quais mete a mão, já dizia há tempos que “a companhia pertence às pessoas que nela investem, não aos seus empregados, fornecedores ou à localidade em que se situa”, repercutindo o credo da burguesia.

No entanto, essa sucessão de episódios envolvendo os operários franceses não deixa de ser exemplar quanto às armadilhas que o capital opressor deixa no caminho das lutas proletárias, em conluio com direções sindicais mais comprometidas com o inimigo do que com sua classe: cooptação, divisionismo, chantagem e ameaças sempre foram palavras caras ao léxico da direita anti-povo, da reação às mobilizações classistas. O remédio para isso é não deixar que a capitulação ante todas as formas de truculência patronal entre para o dicionário do proletariado.

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
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