Linguajar popular em dicionário

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Linguajar popular em dicionário

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http://jornalzo.com.br/and/wp-content/uploads/75/12-b-6e5.jpgEstudioso das expressões populares, o cearense João Gomes da Silveira reuniu mais de 22.500 verbetes, cheios de regionalismos, em um dicionário. Lançado em agosto passado e já visitando a 21ª Bienal no Anhembi, SP, o Dicionário de expressões populares da língua portuguesa ajuda a manter vivo o modo particular do povo falar e a recuperar palavras quase em extinção, retrato de mudanças naturais que ocorrem na língua e na cultura de um país.

— A ideia surgiu quando, em 1992, já a beira de uma aposentadoria, meti na cabeça de cursar uma pós-graduação na área de língua portuguesa. Paralelo a ela fui fazendo um levantamento bibliográfico, juntando material. Ao final de tudo, percebi que poderia elaborar algo mais substancioso, no gênero, sob a forma de dicionário — explica Silveira.

 — Mas minha queda pelas expressões idiomáticas não foi somente a partir do trabalho almofadinha e meio acadêmico da monografia. Já antes, ao tentar estudar o inglês e o espanhol, achava aquelas frases intricadas e difíceis de entendimento, namorando-as. Por outro lado, venho de uma formação rural culturalmente rica — acrescenta.

— Meu pai era um pequeno sitiante no topo do Maciço de Baturité, Ceará, onde as pessoas falam gostosa e desabotoadamente o verdadeiro linguajar do povo. Sempre ouvi as pessoas falarem: ‘pra mode que’, ‘amenhã’, ‘adipois’, ‘nhô sim’, entre outras. A cultura popular já havia disseminado no sangue desse menino matuto, como até hoje costumo me rotular. Sou um capiau — continua.

Silveira diz que não sabia nem de longe o que era cultura popular, mas já apreciava a folia de reis, a cantoria dos violeiros, o linguajar dos roceiros, além dos hábitos e costumes da terra.

— Tudo aquilo havia se enraizado no guri que lá fui eu, no interior, até os meus onze anos de idade. Também não posso deixar de assinalar a influência dos modernistas regionalistas nordestinos, que verdadeiramente esbanjam expressões populares em seus textos, sobretudo os romances de Graciliano Ramos, José Américo de Almeida, Jorge Amado, José Lins do Rego… — fala.

— A pesquisa para construir o dicionário se deu sem muito mistério. O catatau de coisas foi-se avolumando, sem pressa, à medida que adquiria tudo que tivesse afinidade com o assunto. Um trabalho de quem vai juntando níqueis no mealheiro. No caso, as moedas eram as expressões que garimpava em textos, livros específicos de linguagem popular, dicionários, glossários, jornais, revistas, e até cordéis andei escarafunchando — confessa.

— Explorei as famílias de tudo quanto existia no campo do ‘ês’: cearês, alagoês, baianês, gauchês, pernambuquês, piauiês, e o mais que pude encontrar. E não deixei nenhum verbete sem a devida fonte ou fontes, alguns têm mais de quinze. Tintim por tintim, dei nomes aos bois. Tive também alguns poucos informantes, pessoas amigas que me forneceram dicas — conta.

Influências do meio no falar popular

Segundo Silveira, dependendo do meio social que vivemos, todas as pessoas, umas mais e outras menos, utilizam expressões populares.

— As utilizo sempre que posso, desde que haja adequação ao conteúdo do texto. Por exemplo, no Recanto das Letras, um site coletivo que hospeda textos muito variados, às vezes, boto uns causos, e aperto a mão no uso dessas expressões — declara.

— Há leitores que as acham bonitas. Um deles, de nome Afonso, que administra um site que só aceita contos fantásticos, me sugeriu que fizesse um de assombração, com o meu timbre meio personalizado e maníaco de escrevinhador nordestino. Fiz o texto e, com o meu aval, já estão no site do moço sulista dois causos similares, isto é, recheados de regionalismos e expressões populares — continua.

— Entenda-se o popular, aqui, no sentido de conterem acepções múltiplas, convencionais e sempre em sentido figurado. Aí é onde reside a dificuldade na sua decodificação, quanto à semântica. As expressões ditas populares, em geral, são polissêmicas, ou seja, têm vários sentidos e são acepções intricadas e complexas à compreensão. Mas que são saborosas, ah, sem dúvida, isto elas são — explica.

Silveira diz que elas aparecem com força de norte a sul do Brasil.

— O nordeste brasileiro é um celeiro de muitas expressões populares. Talvez pela miscigenação das raças, culturas variadas e o pluralismo dos usos, costumes e tradições. No Sul, isto também ocorre. O acervo do falares gauchescos, por exemplo, é imenso. E os grandes centros urbanos do país não ficam de fora. O Rio de Janeiro já foi ponta de lança em criar e exportar os calões — fala.

— As gírias são o seu meio mais fácil e divulgador. Hoje não, mas muito lá trás, em contato com a universidade, eu até as via com certa reserva, sobretudo punha o pé atrás para a linguagem muita chula e a de uso da malandragem, ou seja, os chamados ‘lunfardos’, para os irmãos argentinos — acrescenta.

E a cultura rude do homem do campo também não fica atrás, conforme Silveira. Por força de expressão, o camponês cria seus modos engraçados do dizer idiomático.

— Há uma infinidade de expressões de cunho rural e campesino. Tudo se dá, mais comumente, no boca a boca, por meio da linguagem oral. Depois é que, filtrado, esse acervo sobe ao trono do papel, virando coisa escrita — diz.

— Pode-se ver em um poema do magistral Patativa do Assaré, por exemplo, a riqueza fantástica do que estou falando, ou no ‘Cante lá que eu canto cá’, do poeta roceiro, onde essas expressões brotam com fartura. Algumas gírias se vão rápido, fenecem, morrem; outras, no entanto, ficam para o patrimônio linguístico — acrescenta.

— O Dicionário de expressões populares da língua portuguesa, no fundo, é uma hiper oficina de gírias e outros modismos luso-brasileiros. Creio tratar-se o livro de uma obra original. Um acervo considerável. Detalhe é que mesmo as expressões de teor chulo não ficaram de fora. Apresento-as, em grande número, sem nenhum preconceito, mas com a maior dignidade que elas merecem — finaliza João Gomes da Silveira.

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