Mapa da violência no campo na América Latina

Mapa da violência no campo na América Latina

Print Friendly, PDF & Email

Na última edição de AND, apresentamos um mapa da concentração da terra na América Latina. Nesta edição mostramos como esse quadro tem como consequência direta a violência contra os camponeses pobres e indígenas.

Argentina

Não existem dados oficiais sobre a violência no campo. Segundo pesquisadores da Universidade de Buenos Aires, entre 2002 e 2009 houve 93 casos de violência contra camponeses, sendo 13 assassinatos e 59 feridos, que envolvem a luta de seis mil famílias camponesas e indígenas por 1 milhão de hectares. Mais de 50% dos conflitos envolvem camponeses e indígenas de um lado e empresas privadas do outro. Em geral, as empresas são mineradoras e extrativistas interessadas nas últimas parcelas do território argentino ricos em biodiversidade.

Em Santiago del Estero, noroeste do país, há 500 lideranças camponesas processadas, e em Neuquén, no sul, 250 lideranças mapuches estão na mesma situação.

Bolívia

Na Bolívia também não existem dados oficiais, mas os massacres ocorridos nos últimos anos revelam a gravidade da situação.

O Instituto Nacional de Reforma Agrária, em 2006, estimava em 230 o número de conflitos violentos pela posse da terra. A maioria dos conflitos é registrada no sul do país, onde latifundiários brasileiros e comunidades de indígenas e pequenos camponeses bolivianos disputam a posse das terras mais férteis. No país, o racismo aumenta ainda mais a violência no campo. Muitas vezes as comunidades indígenas são violentadas por sua própria condição de indígenas. Foi o que ocorreu em 2008, no que ficou conhecido como “Massacre de Pando”, quando 11 pessoas morreram e 50 ficaram feridas. No ano passado, a polícia reprimiu duramente a marcha dos indígenas do Tipnis contra a construção de uma rodovia em suas terras. O protesto deixava claro o descontentamento da população com a “Revolución Agrária” de Evo Morales.

Chile

No Chile, a violência no campo está dirigida desde o Estado e milícias organizadas por empresas extrativistas (chamadas florestais) contra os indígenas mapuches, que vem retomando grandes parcelas do seu território. De 2002 a 2009, doze mapuches que atuavam na recuperação de terras foram assassinados, dentre eles várias lideranças. Desde o regime militar tem sido frequente a prisão e indiciamento dos mapuches, além da discriminação e marginalização da luta por defender seus costumes e terras. A região sul do Chile, Araucanía, onde se concentra a maioria das comunidades mapuches, se encontra completamente militarizada.

Colômbia

Os indíces de violência no campo são altíssimos. Os camponeses, desde os anos de 1940, se vêem obrigados a mudar-se constantamente, fugindo da atuação dos paramilitares e das forças policiais que mais recentemente combatem a guerilha das FARC-EP. As organizações de “direitos humanos” estimam em 20 mil o número de paramilitares no país. Na comunidade de Guapí (Cauca) seis pessoas foram assassinadas nos doze primeiros dias deste ano, após a chegada dos paralimitares. Os massacres são comuns no país, visando aterrorizar o povo para que não apoie a guerrilha. Em 1997, ocorreram 185 massacres. A Consultoria para os Direitos Humanos e o Despejo Forçado (Codhes) estima que 60% da população colombiana foi desalojada de suas terras ou cidade de origem. Muitos camponeses acabam presos, acusados pelos integrantes das milícias de fazer parte da guerrilha. Hoje, há cerca de 7.500 presos políticos no país. No dia sete de janeiro, três líderes indígenas foram presos arbitrariamente em Pradera (Valle). Diante disso, a comunidade decidiu protestar e mais trinta indígenas foram presos.

Guatemala

Os camponeses guatemaltecos foram submetidos ao terrorismo de Estado de 1960 a 1996, período em que durou a guerra civil no país. Estima-se em 200 mil o número de vítimas. Mas, após o fim do conflito, a violência contra os camponeses não diminuiu e os massacres levados a cabo por latifundiários são comuns. Em maio do ano passado, 31 camponeses foram assassinados no município de La Libertad, norte do país.

Honduras

A violência contra os camponeses aumentou após o golpe de Estado, em 2009. Aumentaram os assassinatos, ameaças e intimidações. Somente na região do Baixo Aguán – zona de maior conflito e onde os camponeses estão mais organizados – durante os últimos dois anos, 42 lutadores populares e um jornalista foram assassinados. O crescimento da luta é quase sempre acompanhado pelo crescimento da criminalização. Até julho de 2011, 162 camponeses haviam sido processados.

Paraguai

No país a violência contra os camponeses é representada tanto pelo despejo forçado, consequência do crescimento da produção de soja, quanto pela perseguição política, através de fustigamentos, assassinatos, etc. Na última década, mais de cem líderes camponeses foram assassinados.

Peru

Os camponeses peruanos, assim como os guatemaltecos, foram vítimas do terrorismo de Estado por décadas. Os camponeses eram reprimidos, visando minar a base de apoio da guerra popular dirigida pelo Partido Comunista do Peru. Nos últimos anos, apesar do refluxo da guerrilha, a violência contra os camponeses não diminuiu. O governo se aliou a várias empresas mineradoras e florestais na repressão aos camponeses que lutam pela defesa de seus territórios. Em 2005, 32 camponeses foram sequestrados e torturados por três dias, após uma marcha pacífica contra o avanço da mineradora britânica Monterrico Metals Plc sobre suas terras, na província de Cajamarca, norte do país. No ano passado, os camponeses de Cajamarca retomaram os protestos contra a instalação da Mineradora Conga, cuja implantação afetará o abastecimento de água da região. Em novembro, 19 pessoas foram baleadas, após repressão policial às manifestações e à greve indefinida decretada pela população. Em dezembro, o governo decretou estado de emergência na província. Mas a repressão não desanimou os camponeses, que no primeiro dia do ano reuniram a mais de dois mil camponeses e marcharam novamente contra o Projeto Conga. A manifestação gerou o adiamento do Projeto, mas os camponeses não aceitaram a proposta do governo e exigem o cancelamento total.

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
Agora, mais do que nunca, AND precisa do seu apoio. Assine o nosso Catarse, de acordo com sua possibilidade, e receba em troca recompensas e vantagens exclusivas.

Quero apoiar mensalmente!

Temas relacionados:

Matérias recentes: