Morro da Providência, centro do Rio de janeiro: Obras de maquiagem ameaçam dezenas de famílias

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Morro da Providência, centro do Rio de janeiro: Obras de maquiagem ameaçam dezenas de famílias

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Imóvel marcado para demolição no morro da Providência

No dia 16 de abril, a prefeitura começou as obras do Projeto Morar Carioca no Morro da Providência, Centro do Rio de Janeiro. O projeto prevê uma série de obras de maquiagem, como a construção de praças, de um teleférico e o reflorestamento da área conhecida como Pedra Lisa.

O projeto, orçado em 131 milhões de reais, prevê ainda a remoção de 300 famílias — quase 20% da população total da favela — que seriam reassentadas nos campos de concentração do projeto Minha Casa, Minha Vida, há dezenas de quilômetros da Providência, sob a vigilância de violentos grupos paramilitares.

Eu fico triste de quererem tirar a gente daqui, porque imagine só o quanto que a gente sofreu para ter a nossa casinha, carregando lata de água na cabeça quando não tinha água no morro, subindo e descendo material de construção, construindo nossas lajes com muito sufoco, aguentando o tráfico, agora a polícia. Eu demorei 18 anos para construir a minha casa e ainda não acabei. Muito triste isso — diz a dona de casa Sônia Maria Ferreira, de 59 anos.

Eu moro aqui ao lado dos meus filhos, da minha família. O que é que eu vou fazer? Isso tudo vai dividir a nossa família. Até agora, eles não fizeram nenhuma proposta. Só disseram que a minha casa está marcada para sair. Agora, eu estou com a minha obra parada porque eles não me deram posição nenhuma. Disseram que se a prefeitura mudar o projeto, eles pagam o que falta para concluir a minha casa, mas eu não confio na prefeitura. Eu já os conheço. Quando o meu filho ficou deficiente, há mais de 20 anos, eu corri atrás da aposentadoria dele e, até hoje, eles não pagaram nada. E a culpa foi do Estado porque, na época, ele tinha 14 anos e trabalhava de empacotador no supermercado Pão de Açúcar. Quando ele voltava para casa à noite, a polícia invadiu o morro e começou um tiroteio. Os estilhaços de um tiro, disparado pela polícia, acertaram ele na barriga e no rosto. Foi aí que ele ficou cego — conta a dona Sônia, que mora no morro da Providência há 42 anos.

Eu disse para eles que não confio na palavra da prefeitura. Você viu o que está acontecendo com o pessoal do Morro do Bumba? Eu não quero ficar na mesma situação, dependendo desses prefeitos e governadores — reitera dona Sônia.

Seu filho, o músico Sidney Ferreira, de 35 anos, também relatou à nossa equipe de reportagem a angústia de ter sua casa ameaçada de remoção. Apesar de não enxergar, Ney, como é conhecido no morro, mostrou um profundo conhecimento das leis e uma enorme disposição de resistir, caso se confirme a remoção.

Eles estão dizendo que vão tirar as nossas casas para construir praças e embelezar o morro. Eu acho isso uma sem-vergonhice tremenda, um abuso de autoridade. Eu moro aqui desde que nasci. Só eu sei o que passei e ainda passo para construir a minha casa. Não só eu, como todos os moradores. E, agora, o Eduardo Paes acha que vai chegar aqui para fazer praça e mandar a gente sei lá para onde. O único sentimento que eu consigo ter é de indignação. Eu sou deficiente visual mas, se eu quiser ir comprar um pão, já sei o caminho, mesmo sem enxergar. Carrego até material de construção, não preciso de ajuda. Agora, querem que eu vá para um lugar que eu não conheço. Será como perder a visão outra vez — lamenta Ney.

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